Moradores de Ferros exigem volta de calçamento centenário retirado pela Prefeitura
A tradicional Rua do Rosário é palco de manifestações artísticas e culturais
Moradores de Ferros, na região leste do estado, demonstram insatisfação com a administração municipal que decidiu, sem consultar a população, retirar o calçamento centenário de paralelepípedos, também conhecido como pé-de- moleque, da Rua do Rosário, no centro histórico da cidade.
A rua do Rosário é palco de constantes manifestações artísticas e culturais desde 1986 e onde se localiza a Igreja de Nossa Senhora do Rosário.
Segundo o prefeito, Raimundo Menezes de Carvalho (Diquinho), a troca de calçamento obedece a questões logísticas relacionadas ao trânsito.
Diquinho alega que não havia necessidade de uma consulta pública, porque a Câmara Municipal estava ciente da obra, e ainda, que a verba foi viabilizada pelo governo federal.
“Essa rua tem uma logística muito ruim. As carretas costumam ficar atrapalhando o trânsito ‘todinho’, têm dificuldade para manobra porque essas pedras soltam muito, e temos que ficar repondo e reconstituindo, dá muito trabalho. Muitos carros estragavam, era impossível andar dentro da cidade do jeito que estava”.
Diquinho se defende dizendo “que não há previsão de novas obras como essa, tenho compromisso com a preservação do patrimônio histórico e a maioria dos tombamentos na cidade foi realizada na minha gestão”.
O prefeito afirma que as pedras que foram retiradas estão armazenadas em local seguro no próprio município, mas, imagens cedidas por ele à reportagem do jornal Estado de Minas, mostram os paralelepípedos amontoados em local descampado.
Moradora de Ferros, Sandra Viana afirma que “a obra é um desrespeito para com a população, impacta a vida de todas as pessoas que moram aqui, mas ninguém foi ouvido. Simplesmente removeram nosso calçamento do início do século passado para colocar bloquetes vulgares, apagando a nossa história, nossa identidade, transformando o cenário da cidade que já foi turística em uma coisa qualquer”, desabafa.
Maura Brito, historiadora e pesquisadora pela Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), adverte para uma possível descaracterização da cidade histórica. “A construção da capela é datada do fim do século 19 e é tombada pelo Patrimônio Histórico e Cultural do Município. Além disso, essa área da cidade tem toda uma relevância cultural, porque os festejos em homenagem à Nossa Senhora do Rosário acontecem por lá, é uma festa popular que envolve uma devoção comunitária. Isso também se relaciona à preservação da cultura negra, já que essa região da cidade é ocupada por afrodescendentes e é um dos núcleos mais antigos de povoamento”.
Maura acrescenta a necessidade de preservação não só da estrutura, mas também o entorno e a paisagem local.
“O calçamento em paralelepípedo permaneceu em toda a cidade, exceto na Rua do Rosário, e a obra foi imposta à população. Foi uma medida completamente impositiva. Não houve nenhuma comunicação com a comunidade para que fosse apresentado um plano de execução da obra, um planejamento para retirada das pedras”. A pesquisadora procurou a ouvidoria do Ministério Público de Minas Gerais (MPMG).
A cidade de Ferros é terra do consagrado escritor Roberto Drummond.
Uma das principais referências da cidade, a Igreja Matriz de Senhora de Sant’Ana, construída no século 18, abriga uma obra da artista plástica Yara Tupinambá, que causou polêmica com o painel “A Árvore da Vida”, que continha as figuras de Adão e Eva seminus, sendo tema inclusive do escritor ilustre, Roberto Drummond, no romance Hilda Furacão, de sua autoria.




