Muito além do amor e do carinho

Gilse nunca quis se casar, mas viu em Sara a oportunidade perfeita para realizar o desejo de ser mãe

Muito além do amor e do carinho

A figura materna geralmente é ligada à imagem de afeto, carinho e amor. Mais do que justo, afinal, mãe é aquela pessoa que está sempre disposta a amparar e dispensar todo cuidado do mundo. E nessa missão de proteger e zelar pelos filhos, há muitas histórias peculiares, algumas sofridas e marcadas por desafios e superação. Relatos de obstáculos que só podem ser transponíveis com muita força. A força de quem é mãe.

Relatos, por exemplo, como o da aposentado Gilse Couto, que nunca se casou, mas sempre nutriu o desejo de ser mãe. Adotou a Sara, menina com paralisia cerebral de quem cuida há 30 anos. Gilse era gerente da Eletrobrás e morava em Brasília na época. Não foi tarefa fácil conciliar o trabalho, que exigia muitas responsabilidades, e os cuidados da filha, que precisava e ainda precisa de atenção especial.

De Santa Bárbara vem a história de Cristina Rezende, marcada por uma tragédia inimaginável.  Ela perdeu os três filhos em um acidente na BR-381, no ano 2000, quando a família seguia para São Gonçalo do Rio Abaixo, onde participaria de uma festa de batizado. Alguns anos mais tarde, Cristina fez fertilização e engravidou de gêmeos, mas o destino foi cruel mais uma vez. Aos quatro meses de gestação, sofreu aborto espontâneo. Uma história comovente e cheia de lições.

Marlene dos Santos, natural da Bahia, também é mãe, mas a história que ela conta aqui é outra. Adotada na infância – até hoje ela não sabe ao certo os motivos –, ficou 50 anos sem ver a mãe biológica. Foi criada em uma família com boas condições financeiras em Pedra Azul até se mudar para Itabira, mas existia um vazio que não era preenchido. No final do ano passado, conseguiu, enfim, contato com um irmão biológico e teve a oportunidade de conhecer sua mãe, hoje com 93 anos. “Hoje sou a pessoa mais feliz da vida”, diz. Leia mais a seguir.

Dedicação exclusiva

Sempre que começa a falar de Sara, sua filha adotiva, Gilse Moreira Couto, 69 anos, se emociona. Desde que se aposentou na Telebrás, holding do setor de telecomunicação, ela se dedica integralmente aos cuidados da filha de 29 anos, que tem paralisia cerebral e é totalmente dependente da mãe. Uma história comovente, de muito amor e carinho, que serve de exemplo para muitos lares brasileiros.

Gilse começou a trabalhar cedo, estudou muito, virou professora e nunca teve intenção de arrumar um marido. Trabalhou na Vale em Itabira, em um colégio de Belo Horizonte e depois entrou para a Telemig, após ser aprovada em concurso público. Em seguida, foi convidada pela Telebrás a integrar a equipe de Brasília, em um projeto de recursos humanos – isso no final dos anos de 1970. Na capital federal, chegou rápido ao cargo de gerente.

“Tive várias oportunidades boas de trabalho, fiz pós-graduação em Administração Pública e ocupei cargos de gerente. Tinha bom salário, morava em um bom apartamento, tinha uma vida muito boa, mas vazia”, afirma Gilse. A princípio, ela pensou que esse vazio era saudade da terra natal. Só que não. Foi então que a gerente decidiu que adotaria pelo menos três filhos.

Com bom salário e experiência educacional, não seria difícil criá-los. Ao comentar com sua secretária sobre o assunto, Gilse soube que uma mulher, que trabalhava de cantineira na mesma empresa, estava grávida e não tinha condições de criar a filha. “Já tenho um neném para você”, declarou a secretária, que acabou fazendo a intermediação entre as duas mães, a biológica e a adotiva.

Os desafios enfrentados por Sara começaram antes mesmo do nascimento.  Era 28 de março de 1987 e os médicos de Brasília estavam em greve. A mãe, em trabalho de parto, passou por pelo menos três hospitais e não conseguiu atendimento. O nascimento acabou acontecendo, após protestos, em um hospital das Forças Armadas. Assim que Sara veio ao mundo, Gilse recebeu uma ligação com a notícia. Até então, ninguém fazia ideia de que a menina tinha problemas – na época não existiam equipamentos modernos de diagnóstico como hoje em dia.

Inexperiente na função de mãe, Gilse demorou alguns meses para perceber anormalidades no comportamento da filha. Só a levou a especialistas após observações de amigas. A notícia de que a menina tinha má formação no cérebro foi dada aos poucos pelos médicos para amenizar o impacto.

Longe dos parentes itabiranos, Gilse acabou formando uma nova família na capital federal. Algumas pessoas, como Aracy, que trabalhava com ela, foram fundamentais ao longo dos anos. Cici, como é carinhosamente chamada, se tornou a terceira mãe de Sara. Era com ela que a menina ficava quando Gilse precisava viajar a trabalho.

Durante mais de 15 anos, a itabirana equilibrou trabalho (e ser gerente de uma holding de telecomunicações não é tarefa fácil) e os cuidados com a filha. Quando se aposentou, 30 anos após entrar na Telebrás, passou a dedicar seu tempo integralmente à filha. Voltou para Itabira em 1999 e atualmente mora no bairro Pará. Perguntada se vale a pena, ela responde com a voz embargada: “Vale demais. Brinco que ela é um anjinho de asa quebrada que Papai do Céu jogou para mim”, afirma, ao ressaltar que os outros dois filhos que pretendia adotar “ficaram para uma outra vida”.

Tragédia familiar

BR-381, 3 de setembro de 2000. Cristina Rezende Fonseca Silva e a família seguiam de Itabira para São Gonçalo do Rio Abaixo para uma cerimônia de batizado. Chovia fino naquele dia e o atalho pelo bairro Boa Esperança ainda não era asfaltado. O marido de Cristina, Luiz Silva, condutor do veículo, deu a volta pelo trevo de Itabira.

Na rodovia federal, em uma curva depois da entrada de Barão de Cocais, o carro rodou, invadiu a contramão e colidiu com outro automóvel que trafegava no sentido oposto. Além de Cristina e do marido, seguiam no veículo os três filhos do casal: Bruno, de 10 anos, Alex, 9, e Tatiana, a uma semana de completar 5 anos. Os dois garotos faleceram no local, antes mesmo da chegada das equipes de socorro. Tatiana foi socorrida e levada às pressas para o hospital, mas também não resistiu aos ferimentos.

Cristina também sofreu ferimentos, teve sangramento nos rins e não se lembra de nada, apesar de não ter perdido a consciência. Uma tragédia familiar sem tamanho. No hospital, a mãe chorava. O corpo doía, mas a dor maior era na alma.

Natural de Santa Bárbara, Cristina morava em Itabira na época por causa do trabalho do marido, gerente do então Banco Real. O casal estava feliz com a aquisição de uma casa no bairro Amazonas, onde vivera momentos extraordinários. Dezesseis anos após o trágico acidente, ainda é difícil compreender, diz a mãe. “Num piscar de olhos eu, que tinha tudo, não tinha mais nada. É um vazio muito grande. Não sei se algum dia eu vou entender por que isso aconteceu”, afirma.

Cristina e Luiz se casaram em 1989, depois de seis anos de namoro. Em 1990 tiveram o primeiro filho e, em 1991, o segundo. Tatiana veio quatro anos depois. “Eram crianças que viviam intensamente. Tudo muito gostoso e intenso. Eu vivia praticamente 24 horas por dia para eles. Não trabalhava fora, então ajudava nos deveres de casas, lavava roupas, cozinhava. Era um cotidiano muito gostoso de ser vivido. Eu faria tudo para tê-los comigo de novo, mas infelizmente não tenho”, conta a mãe.

Depois da tragédia, Cristina só conseguiu seguir em frente porque teve apoio incondicional da família – principalmente o marido e os pais. “Graças a Deus tenho uma família maravilhosa. Não sei se aceitei, mas aprendi a conviver com a situação”, diz. Alguns anos após o trágico acidente, Cristina engravidou de gêmeos por meio de fertilização in vitro, mas, aos quatro meses de gestação, teve aborto espontâneo sem causa aparente. Ela tentou ainda mais uma vez, mas não deu certo. “Não era para ser”, afirma.

Cristina manda um recado para as mães que têm os filhos perto: “Viva intensamente a maternidade. Tem mãe que necessita trabalhar fora, mas o tempo que ela tiver, precisa dedicar ao filho, dar carinho, dar amor. Tudo que eu podia viver com eles, eu vivi. Dei castigo, corrigi, daria de novo se fosse preciso. Precisamos criar nossos filhos para ser homens e mulheres de bem. Isso me ajuda muito não ter aquele peso no coração”.

Separadas por 50 anos

Marlene Santos de Souza, 57 anos, natural da Bahia, mora em Itabira desde 1980, é mãe de cinco filhos e tem uma família abençoada por Deus, como ela mesma diz. Sua história mais emocionante, entretanto, tem a ver com sua mãe biológica, da qual ficou afastada por meio século. Leninha, como é conhecida, foi adotada quando tinha três anos em Itarantim (BA) porque sua mãe, dona Generosa Oliveira, hoje com 93 anos, não tinha condições de cuidar sozinha de todos os cinco filhos – separada do marido recentemente, a situação estava complicada.

Uma família de Pedra Azul (MG), que tinha ido à Bahia visitar parentes, se interessou em adotar Leninha, a caçula, e dona Generosa aceitou, mesmo de coração partido. A mãe acreditava que seria melhor para a menina. A família adotiva era dona de hotéis em Itarantim, onde dona Generosa trabalhava na ocasião.

A separação foi dolorosa – para mãe e filha, que chorava e gritava. Marlene veio para Pedra Azul onde viveu até os 20 anos. Não lhe faltava nada em termos materiais, mas um vazio permanecia, aquele desejo de estar ao lado da mãe e dos irmãos. Ela sempre quis reencontrá-los, mas a família adotiva evitava tocar no assunto. Sempre que começava a fazer perguntas, lhe era remetido o seguinte questionamento: “Está faltando algo para você?”.

Os anos se passaram, Marlene veio para Itabira morar com uma prima de criação, se casou com José Maria de Sena, homem bom e trabalhador, e constituiu família. Apesar do tempo, nunca deixou de procurar a mãe, mesmo com pouquíssimas pistas.

Em dezembro de 2015, resolveu ligar para parentes adotivos em Pedra Azul e soube que um irmão biológico seu também lhe procurava. “É coisa de Deus mesmo”, conta. Com as esperanças renovadas, ela ligou para uma prima de consideração em Governador Valadares, entrou no carro e partiu rumo à Itarantim, na Bahia.

Ao longo desses 50 anos, dona Generosa havia se mudado para São Paulo em busca de vida melhor, como muitos nordestinos, e depois voltado para a mesma cidade baiana. Muitas horas de viagem depois, Marlene chegou a seu destino e reencontrou a mãe e outros integrantes da família. “Foi o dia mais emocionante da minha vida. Minha mãe pediu perdão, levantou as mãos e agradeceu a Deus por me encontrar. Ela disse que passou muitas madrugadas chorando a minha ausência. Eu a perdoei, porque a gente tem de perdoar. Hoje sou a pessoa mais feliz da vida”, afirma. 

 

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