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Muito debate, pouca ação: quem vai parar a violência contra mulheres?

Local: Auditório José Alencar Gomes da Silva - Palácio da Inconfidência - ALMG/Foto: Alexandre Netto

Março é tradicionalmente marcado por mobilizações em defesa dos direitos femininos, especialmente por causa do Dia Internacional da Mulher. Nesse período, governos, parlamentos e organizações da sociedade civil promovem seminários e campanhas sobre igualdade de gênero.

No entanto, especialistas alertam que o aumento das discussões nem sempre se transforma em políticas públicas capazes de reduzir a violência.

Por esse motivo, o debate voltou à pauta durante o ciclo “Sempre Vivas 2026”, realizado pela Assembleia Legislativa de Minas Gerais. O encontro reuniu pesquisadoras, economistas e especialistas que discutiram caminhos para enfrentar o feminicídio e ampliar a proteção às mulheres.

Além disso, participantes do evento destacaram que a violência de gênero não pode ser tratada apenas como um problema criminal, mas também como uma questão cultural e social.

Educação aparece como principal caminho para mudança

Durante o debate, especialistas defenderam que a educação pode reduzir a violência contra as mulheres no longo prazo. Segundo a pesquisadora Aline Xavier, do grupo Saúde Mental e Gênero da Universidade de Brasília, as desigualdades de gênero começam na forma como meninos e meninas são educados.

De acordo com a pesquisadora, a sociedade ainda reproduz papéis sociais rígidos. Enquanto os homens são incentivados a ocupar espaços de poder e liderança, muitas mulheres continuam sendo direcionadas para o cuidado da casa e da família.

Consequentemente, essas expectativas criam pressões emocionais que podem alimentar conflitos e comportamentos violentos.

Além disso, a pesquisadora destacou que alguns homens tentam compensar frustrações sociais ou pessoais com atitudes agressivas. Por isso, ela defende a ampliação de programas de educação de gênero e reeducação de agressores, inclusive dentro das escolas.

Desigualdade no trabalho doméstico ainda pesa

Outro tema abordado no encontro foi a divisão desigual das tarefas domésticas. Segundo dados apresentados no debate, mulheres dedicam cerca de 21,3 horas semanais ao trabalho doméstico, enquanto homens gastam aproximadamente 11,7 horas nas mesmas atividades.

Essa diferença, portanto, cria uma sobrecarga que afeta diretamente a autonomia feminina. Além disso, a dupla jornada dificulta o acesso das mulheres a cargos políticos, posições de liderança e oportunidades profissionais.

Dessa forma, especialistas defendem políticas públicas que incentivem uma divisão mais equilibrada das responsabilidades familiares.

Criminalização da misoginia entra na pauta

Outro ponto levantado pelas participantes foi a necessidade de avançar na legislação. Atualmente, o Brasil conta com instrumentos importantes de proteção às mulheres, como a Lei Maria da Penha.

A lei criou mecanismos para combater a violência doméstica e ampliar a proteção às vítimas. Mesmo assim, especialistas avaliam que novas medidas precisam ser discutidas.

Entre elas está a criminalização da misoginia, entendida como o ódio ou desprezo sistemático contra mulheres. Para pesquisadoras, a legislação precisa acompanhar as mudanças sociais e enfrentar novas formas de violência, inclusive no ambiente digital.

Além disso, especialistas defendem campanhas que mudem a percepção social sobre o tema. Segundo elas, ainda existe uma tendência de responsabilizar as vítimas enquanto muitos agressores enfrentam pouca condenação social.

Escolas ainda não têm estrutura adequada

A psicóloga Hilda Morais, fundadora da Escola Pesa, também alertou para as dificuldades enfrentadas pelas instituições de ensino.

Segundo ela, muitas escolas ainda não possuem professores capacitados para lidar com temas como igualdade de gênero, violência doméstica e direitos humanos. Além disso, faltam protocolos claros para identificar e encaminhar casos de violência.

Consequentemente, muitas situações acabam sendo ignoradas ou tratadas de forma inadequada.

Por isso, especialistas defendem investimentos em formação docente e na criação de programas de educação emocional dentro das escolas.

Representação feminina na política ainda é baixa

Outro problema apontado durante o debate foi a baixa presença de mulheres nos espaços de decisão política.

De acordo com dados apresentados pela economista Luciana Servo, presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, as mulheres representam mais da metade da população brasileira. Mesmo assim, ocupam apenas uma parcela pequena dos cargos políticos.

Atualmente:

Além disso, o Brasil aparece apenas na 133ª posição no ranking mundial de representação feminina nos parlamentos.

Diante desse cenário, especialistas defendem a ampliação das cotas de candidaturas femininas nos partidos. Hoje, a legislação exige que ao menos 30% das candidaturas sejam de mulheres. Entretanto, há propostas para elevar esse percentual para 50%.

Onde vítimas de violência podem buscar ajuda

Especialistas também reforçam que mulheres em situação de violência não precisam enfrentar o problema sozinhas. Diversos canais de atendimento funcionam em todo o país.

Entre os principais estão:

Ligue 180 – Central de Atendimento à Mulher
O serviço funciona 24 horas por dia e orienta vítimas sobre como denunciar e buscar proteção.

190 – Polícia Militar
Deve ser acionado em situações de emergência ou risco imediato.

Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher (DEAM)
Essas unidades registram ocorrências e iniciam investigações sobre crimes de violência doméstica.

Centros de Referência da Mulher
Oferecem apoio psicológico, jurídico e social para vítimas.

Além disso, muitas cidades mantêm casas de acolhimento temporário para mulheres que precisam se afastar do agressor.

Debate cresce, mas desafio permanece

Todos os anos, o mês de março amplia a visibilidade das discussões sobre violência de gênero. No entanto, especialistas alertam que a repetição dos debates não garante mudanças concretas.

Por um lado, eventos como o ciclo “Sempre Vivas” ajudam a aprofundar a reflexão sobre o problema. Por outro, ativistas cobram que as propostas discutidas se transformem em políticas públicas permanentes.

Sem investimentos em educação, prevenção e proteção às vítimas, especialistas avaliam que o país continuará reagindo às tragédias em vez de evitá-las.

Portanto, a principal questão permanece: quais dessas propostas realmente sairão do discurso e se transformarão em mudanças reais para milhões de mulheres brasileiras?

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