Artigo publicado na edição 265 da Revista DeFato
Música para quê? Para quem? Por quê? No nosso dia-a-dia, estamos constantemente em contato com a música, seja escutando o rádio, assistindo um filme, ouvindo ou assistindo um comercial, durante uma celebração religiosa, enfim, além das possibilidades descritas poderíamos ainda enumerar outras formas que, sem uma pequena reflexão talvez nem nos demos conta que a música se faz presente. No entanto, apesar de intenso contato com a música, pouquíssimas vezes – às vezes nunca – refletimos sobre as três perguntas iniciais.
O objetivo deste texto não é encontrar repostas para as perguntas até porque, não são simples questionamentos, uma vez que qualquer manifestação artística está totalmente relacionada com o ambiente social no qual está inserida. Pretende-se aqui, propor uma reflexão sobre como nos relacionamos com algo – a música – que faz parte de nossas vidas de maneira quase imperativa e, conseqüentemente, sobre como podemos compreendê-la, escolhê-la e desfrutá-la.
Um ambiente cultural se compõe pela soma de diversos fatores presentes nas relações sociais de determinado povo. Os costumes, regras, linguagem, crenças e até aspectos geográficos, como exemplos, são alguns dos fatores que podem ser determinantes para a definição de uma identidade cultural em um determinado lugar. A arte, por sua vez, em meio a essa grande e variável soma de fatores, surge como o espelho das características culturais de uma sociedade. A partir desse resultado e a análise da relação dos fatores culturais em um determinado contexto poderíamos começar a discutir acerca das três perguntas que iniciam este texto.
A música dentro de um contexto cultural pode ter várias funções. Na Idade-Média, a música era um componente importantíssimo durante as guerras, onde instrumentos de percussão tais como tímpanos, caixas-claras, e instrumentos de sopros – clarins, pífanos e trompas – anunciavam a movimentação do exército durante uma batalha através de fanfarras – ou toques – pré determinados. Além disso, as bandas no contexto das batalhas tinham a função de instigar os soldados à luta. Stephen L. Rhodes conta que o exército turco, por volta do séc. XII possuía bandas atuantes durante as batalhas que eram tão grandes e tão bem aparelhadas de instrumentos de percussão e sopro que eram capazes afugentarem os oponentes pelo imenso potencial sonoro.
Quem já viu um filme sem trilha sonora? Particularmente, não me recordo de ter experimentado isso. Já se perguntaram sobre a importância da música na composição dramática de uma cena? Já imaginaram a saga Star Wars sem aquela trilha sonora? Dart Vader ficou imortal em nossas memórias principalmente pelo tema extremamente bem elaborado de acordo com o perfil do personagem. Basta escutarmos o começo do tema que já lembramos imediatamente daquela máscara preta.
No contexto religioso encontramos a música como um componente importantíssimo, especialmente a música vocal. As monodias dos cantos gregorianos, corais, mantras e hinos podem ser percebidos com facilidade até hoje em diferentes crenças e a música, nesse contexto, tem a função de transmitir os afetos dos textos litúrgicos ou religiosos. Se analisarmos a música nesse relacionada à religiosidade e espiritualidade encontraremos, talvez, os exemplos mais discrepantes sobre sua função.
A música, teatro, artes plásticas, assim como literatura e arquitetura são os registros históricos de uma época e reflexo da cultura dos povos. Dessa forma, o mundo contemporâneo também é espelhado pelas diferentes manifestações artísticas a todo o momento. Será que temos consciência da relação da arte contemporânea com a realidade social em que vivemos? No âmbito da música, será que pensamos na relação que determinada obra tem com o contexto social? Sugiro aqui, uma reflexão sobre a maneira como recebemos, compreendemos e aceitamos nossas músicas preferidas, ou não aceitamos. Temos o livre arbítrio para escolher o que queremos ouvir e curtir. No entanto, acho fundamental, enquanto ouvintes, termos senso crítico para ponderarmos nossas escolhas.
Claudio Lage é formado em regência pela UFMG e mestrado na mesma instituição. Atua como arranjador e regente da Orquestra Experimental do Colégio Santo Antônio, em Belo Horizonte, professor do CEFAR (Centro de Formação Artística do Palácio das Artes) e regente da Orquestra de Câmara da Escola Livre de Música de Itabira.