O economista itabirano Frederico Penido de Alvarenga, 42, começou cedo a carreira de executivo. Aos 23 anos, já era secretário municipal de Desenvolvimento Econômico da Prefeitura de Itabira, na administração de Olímpio Pires Guerra, o Li. Aos 31, assumiu a Secretaria de Estado de Planejamento de Minas Gerais, no governo de Itamar Franco. Três anos mais tarde, aos 34, passou a ocupar a vice-presidência do Banco Bonsucesso (onde ainda atua), uma das insituições brasileiras de maior crescimento da última década. Hoje, exerce também a função de professor de Economia e Finanças do Ibmec Business School, uma das entidades referência na área econômica.
Quando ainda atuava no setor público, Penido colaborou com o Conselho de Desenvolvimento do Estado, Prodemge, Instituto de Desenvolvimento Integrado (Indi), Instituto de Desenvolvimento do Norte de Minas Gerais (Idene), Instituto de Terras (Iter) e foi ainda representante de Minas no conselho do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID).
Tanta experiência tornou sua opinião respeitada no universo da economia no país. Em 2008, quando a quebra das instituições de crédito imobiliário norte-americanas provocou uma grave crise econômica em todo o mundo, frequentemente era requisitado para dar explicações e fazer previsões, tanto nos noticiários quanto em instituições afetas ao assunto. Agora, em um novo momento de crise, o especialista é convocado para responder novas questões.
Alheio aos temores quanto ao futuro, o especialista considera Itabira mais preparada para superar a atual crise, até por haver certa segurança quanto ao poder de compra da China, principal cliente do minério que se produz por aqui. No entanto, faz um alerta à cidade quanto a uma possível acomodação por conta da mineração, o que, segundo ele, vem atrapalhando a busca por alternativas que representem a diversificação da economia itabirana. Esse e outros assuntos estão na entrevista a seguir.
Quais os principais fatores que contribuíram para o surgimento da atual crise econômica?
Os bancos internacionais, principalmente os americanos, no afã de continuar crescendo seus lucros em patamares chineses, se expuseram muito a riscos, emprestando para tomadores que não tinham capacidade de pagamento. Na grande maioria dos negócios, faziam empréstimos com a simples garantia imobiliária, sem a devida análise financeira do cliente. Como os juros eram baixos e os prazos longos, a demanda de crédito aumentava muito, o que contribuía para os imóveis se valorizarem. Mas, quando a inadimplência estourou, um número muito grande de imóveis foi devolvido, seus preços caíram fortemente e os bancos se viram sem garantia para receber. Os governos tiveram que socorrer essas instituições, além de injetar dinheiro na economia, o que, por consequência, levou ao aumento de suas dívidas. A questão, agora, é que é hora de pagar esses débitos, mas vários países se encontram em dificuldades para honrar seus compromissos.
O problema imobiliário causou a crise de 2008 e o senhor acaba de citá-lo para explicar a crise atual. Então, uma está diretamente ligada à outra?
A crise atual é um prolongamento, um novo soluço, da crise de 2008. A diferença é que agora os governos estão sem dinheiro e sem capacidade de alavancar suas economias. Não teremos a intensidade aguda da crise anterior, mas viveremos um bom período de tempo com crescimento econômico muito baixo, em todo o mundo. Só teremos a intensidade da crise de 2008 se um grande país europeu decretar moratória.
Afinal, na crise de 2008, o Brasil passou mesmo apenas por uma “marolinha”?
O Brasil suportou muito bem a crise, essa é a verdade. Conseguiu isso em função de esforços anteriores, como o controle efetivo da inflação, das metas de superávits primários, do controle das contas públicas e da relativa estabilidade das regras. Se a crise de 2008 nos pegasse há dez, 15 anos, teríamos uma explosão do dólar por aqui, uma fuga imediata de capitais para o exterior, um aumento de juros e, claro, precisaríamos de ajuda internacional para fechar as nossas contas. Não foi nada disso que vimos e o governo foi muito bem conduzido. Estamos suportando bem os soluços da crise, ao contrário dos Estados Unidos e países da Europa. Vamos crescer perto de 3% em 2011 e 2012, mesmo com o cenário internacional muito adverso.
Como as dificuldades econômicas vividas por países da Europa podem afetar o Brasil?
As dificuldades na Europa são muito sérias e claro que se irradiarão para o mundo. O calote de um grande país europeu, como a Itália ou Espanha, traria consequências muito ruins para o mundo inteiro. Mas o Brasil nunca esteve tão preparado para suportar uma crise. O Banco Central está baixando juros internos, temos uma excelente reserva internacional em dólares, a inflação está contida e o mercado interno tem demonstrando cada vez mais sua pujança.
Qual seria a saída imediata para o Brasil amenizar os efeitos dessa crise?
Não existe saída imediata. O caminho agora será continuar buscando o equilíbrio das contas públicas, não deixar a inflação crescer e, gradualmente, baixar os juros. O Brasil está num caminho bom, mas é como um ex-alcóolatra: não pode se descuidar nunca.
A autossustentabilidade do mercado interno brasileiro ainda é vista como um trunfo para manter o país alheio aos reflexos dessa crise?
Sem dúvida alguma, e esta é uma grande vantagem de países como o Brasil, a China e a Índia. No caso brasileiro, tem sido muito importante também a migração de classes após o fim da inflação. É um número crescente de pessoas vindo para o consumo e ajudando a manter a economia ativa. O consumo interno já representa 60% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro.
Qual avaliação o senhor faz do atual governo em termos econômicos? A herança de Lula para Dilma foi positiva?
Está indo bem, em linha com a postura dos últimos 12 anos, que compreendeu o segundo mandato de Fernando Henrique Cardoso (FHC) e os oito anos do Lula. A equipe econômica também não foi alterada, o que ajudou. O ministro da Fazenda é o mesmo do Lula e assumiu no Banco Central um diretor de carreira que já participava ativamente do governo anterior. E é isso que tem que ser feito mesmo, o que traz mais confiança no investidor e credibilidade internacional. Não se conquista solidez de um dia para o outro, mas sim numa sequência de bons resultados e sem mudanças bruscas de rumo.
Desde 1947, segundo o Banco Central, os gastos brasileiros no exterior não eram tão altos. Foram US$ 1,72 bilhão em outubro. Isso pode ser um indício de que o Brasil venha a dar as cartas num futuro mais breve do que se imagina?
O Brasil cresce em importância a cada ano, fruto de uma guinada da última década. Éramos a 12ª economia mundial no início de 2000 e hoje ocupamos o oitavo lugar. Já passamos a França e a Itália e, em breve, deveremos superar a Inglaterra. E é muito provável que, em função da crise europeia e o crescimento natural da economia brasileira, passemos a ser a quinta economia mundial no início da próxima década, ultrapassando, inclusive, a Alemanha. Ficaremos atrás apenas dos EUA, China, Japão e Índia. Mas temos um caminho muito longo para sermos mais ouvidos internacionalmente. Nem a China tem conseguido isso atualmente, mesmo com toda sua força econômica.
A mineração tende mesmo a desacelerar diante do atual quadro econômico? Por quê?
É natural que dê uma desacelerada, em função desse cenário, mas não com a intensidade de 2008. Nosso mercado principal é a China, que deve ter um crescimento de 7% do seu PIB em 2012. A Vale, neste terceiro trimestre, alcançou recordes históricos de produção de minério de ferro. É um quadro muito diferente do vivido em 2008, quando a economia praticamente parou.
Itabira tem a economia dependente em 99% da mineração, de acordo com relatórios do Governo Federal. Quais reflexos a cidade pode sofrer caso a situação se agrave?
Essa dependência da atividade mineral vem para o bem e para o mal. Se a atividade cai, o impacto é imediato nos investimentos locais, na geração de tributos e em empregos, principalmente indiretos. Mas não vejo crise em Itabira. A cidade tem que aproveitar o fato de ter uma ótima arrecadação municipal, fruto direto dessa exploração mineral, e diversificar sua economia. É um óbvio não praticado.
Há um desacordo entre o que as empresas pagam e o que os municípios querem receber de royalties da mineração. Qual a opinião do senhor sobre o tema?
Essa questão já deveria ter sido resolvida há mais tempo. Os royalties do petróleo representam 10% do faturamento bruto do petróleo retirado, enquanto na mineração essa tarifa é de apenas 2% do lucro líquido, sem contar que essas empresas ainda estão isentas do pagamento de ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços) para exportação. É claro que há a necessidade de se observar a questão tributária nos países produtores para evitar a perda de competitividade da mineração. Mas, pelos resultados alcançados nos últimos anos pelas empresas mineradoras, há “gordura” para que se remunere a sociedade com mais retornos. Não defendo simplesmente aumentar o tributo incidente sobre a mineração. O ideal seria carimbar esse dinheiro extra para projetos de sustentabilidade econômica e ambiental das cidades afetadas pela atividade, senão esse recurso se perde no custeio das prefeituras e estados.
O senhor foi secretário municipal no governo Li e hoje observa Itabira de longe. O que considera haver mudado na economia do município?
Itabira vem conseguindo, mesmo que a passos moderados, melhorar seus indicadores sociais, mas o perfil econômico mudou muito pouco de lá para cá. A dependência da atividade minerária continua altíssima e acredito que a informação sobre a continuidade da Vale por muito mais tempo relaxou os itabiranos. Há 20 anos, nossa urgência era latente, daí surgiram o Projeto Itabira 2025, a Agência de Desenvolvimento Empresarial, o Fundesi, a reforma do Distrito Industrial, a construção do Distrito Industrial II, a Incubadora de Empresas e a Ipocarmo, dentre outros projetos de fomento econômico. Infelizmente, tudo parou ao longo dos anos.
O senhor tem experiência administrativa tanto na área pública quanto na privada. Existe alguma diferença prática entre um setor e outro na hora de administrar?
A área privada exige mais formação técnica, mas o setor público é mais complexo. O cliente do gestor público é a sociedade inteira, sendo mais difícil definir priorizações onde há demandas, em sua maioria justas, de todos os gêneros. Mas os grandes problemas da administração pública se referem à escolha da equipe de governo, a falta de visão além dos quatro anos de mandato e a decisão política se sobrepondo à decisão técnica.