Não é onça-pintada: o que realmente habita a fauna de Itabira?

Especialista desmente vídeos falsos sobre a presença do animal e revela espécies que de fato vivem na região

Não é onça-pintada: o que realmente habita a fauna de Itabira?
Foto: Pavel Dodonov/Flickr
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Vídeos sobre supostas aparições de onças-pintadas (Panthera onca) em zonas rurais de Itabira volta e meia circulam pelas redes sociais. As imagens, muitas vezes desfocadas, gravadas à distância ou fora de contexto, despertam o imaginário popular e, não raro, geram medo em moradores. 

Segundo o biólogo e educador ambiental Samuel Iginio a resposta é não. “Até hoje, não há nenhuma comprovação científica ou documental da presença atual de onças-pintadas na fauna de Itabira”, afirma. Os vídeos, segundo ele, geralmente mostram felinos menores, como jaguatiricas ou gatos-maracajás, cujas pelagens podem confundir o olhar desavisado.

“Alguns felinos possuem manchas arredondadas na pelagem que chamamos de roseta. Na onça-pintada, algumas dessas rosetas possuem uma mancha no centro. Na jaguatirica, essas manchas se fundem e são mais alongadas. Já no gato-maracajá, as manchas são quase completamente preenchidas”, explica Samuel.

A onça-pintada já ocupou uma vasta área do território brasileiro, mas, segundo o especialista, foi extinta localmente em diversas regiões devido à degradação ambiental e à caça.

“A extinção local é quando ocorre em uma determinada área geográfica havia uma espécie e hoje não há mais. A população de onças-pintadas já teve uma distribuição muito maior pelo Brasil e foi extinta localmente em muitos territórios. Não consegui encontrar material que comprovasse se um dia houve onça-pintada em Itabira”, avalia Samuel.

Se não é a onça-pintada, quais são os animais que habitam as matas e áreas verdes de Itabira? Samuel compartilhou um levantamento que identifica os principais predadores carnívoros da região.

Um dos destaques é a onça-parda (Puma concolor), também conhecida como suçuarana. Discreta, solitária e mais comum do que se imagina, ela é o segundo maior felino das Américas e pode ser avistada em regiões mais isoladas do município. Embora relatos sobre ataques a bois e cavalos em áreas rurais existam, a suçuarana não representa ameaça direta para seres humanos.

Outro morador notável é o lobo-guará (Chrysocyon brachyurus), com suas pernas longas e pelagem alaranjada. Apesar da aparência imponente, é um animal tímido, de hábitos noturnos e solitários. O que o coloca em risco, segundo o biólogo, não são os encontros com humanos, mas as superstições violentas que ainda persistem.

“Em algumas regiões do país, persiste uma crença popular cruel e infundada, segundo a qual arrancar os olhos do animal ainda vivo traria sorte. Essa prática configura crime ambiental, além de representar um grave atentado ao bem-estar animal e à conservação da espécie”, reforça Samuel.

Outro predador presente, mas menos visível, é o jacaré-de-papo-amarelo (Caiman latirostris). Ele pode atingir até 3 metros de comprimento, mas costuma evitar o confronto e prefere viver recluso em corpos d’água e barragens.

A fauna de Itabira e região abriga também animais ameaçados ou em situação de vulnerabilidade, conforme listas de conservação da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) e instituições brasileiras. Casos como a raposa-do-campo (Lycalopex vetulus) e a lontra (Lontra longicaudis) são exemplos de espécies que, embora discretas, ainda resistem na região.

Além delas, vivem por aqui: tamanduá-mirim, gavião-pega-macaco, guigó, irara, mão-pelada, cuíca, preá, gato-mourisco e até abelhas nativas como a mandaçaia, fundamentais para a polinização.

Não é onça-pintada: o que realmente habita a fauna de Itabira?
Biólogo e educador ambiental Samuel Iginio segurando uma aranha.

Essas espécies sobrevivem graças, em parte, à existência de Unidades de Conservação (UCs) que compõem um verdadeiro mosaico ecológico em Itabira. São exemplos o Parque Natural Municipal do Intelecto, o Parque Estadual Mata do Limoeiro, o Parque Natural do Ribeirão São José e a Área de Proteção Ambiental Morro da Pedreira.

Esses espaços contam com Planos de Manejo, que orientam as ações de preservação, além dos Estudos de Impacto Ambiental (EIA/RIMA), utilizados para avaliar os riscos de grandes empreendimentos.

O que fazer ao encontrar um animal silvestre?

Ao se deparar com um animal silvestre, o mais importante é manter a calma e evitar qualquer tipo de interação direta. Samuel explica que os bichos tendem a fugir ao perceber a presença humana, mas podem reagir se se sentirem ameaçados ou encurralados.

“Em contato com humanos, animais silvestres, em condições normais, sempre optaram por fugir. Entretanto, se estiverem encurralados e sentirem-se ameaçados, podem partir para a defesa. O melhor a se fazer é manter a distância e não estimular os instintos do animal”, orienta.

Por fim, o biólogo alerta para os riscos de compartilhar informações falsas ou sensacionalistas sobre a fauna local. O pânico pode levar à perseguição injustificada de animais e até à sua morte, além de desinformar a população.

“Animais silvestres são muitas vezes vistos como perigosos, mas isso reflete mais desinformação do que realidade. O medo é construído em cima de imagens isoladas, como um suposto ataque, sem considerar o contexto”, explica Samuel.

Antes de repassar mensagens alarmistas, o ideal é buscar orientação com especialistas ou consultar registros oficiais.