Neto de Drummond resgata desenhos do poeta e destaca mensagem de “Claro Enigma”: “a poesia e a literatura unem as pessoas”
Durante o Flitabira, Pedro Drummond falou sobre o avô desenhista, a importância do livro que completa 75 anos e o papel da cultura na construção de um Brasil unido

A relação de Carlos Drummond de Andrade com a arte não se limitava à escrita. O poeta também tinha interesse pelo desenho e pelas formas visuais, uma característica que permaneceu mais discreta diante da dimensão de sua produção literária. Essa faceta foi lembrada por seu neto, Pedro Drummond, em entrevista ao portal DeFato Online durante o Festival Literário Internacional de Itabira (Flitabira).
Ao falar sobre a convivência familiar, Pedro contou que o avô costumava desenhar desde quando ele era criança. Os rabiscos apareciam em momentos cotidianos, inclusive durante conversas telefônicas, mas geralmente eram descartados pelo próprio escritor.
Nos últimos anos de vida de Drummond, quando esteve mais próximo dele, Pedro encontrou uma maneira de preservar parte desse material: recolhia os papéis que o avô jogava fora.
“Nos últimos anos da vida dele, eu que estive mais perto, eu esperava ele sair do escritório e tirava esses desenhos rasgados da lixeira dele e guardava. Sem ele saber! Porque talvez ele não tivesse gostado, mas ele tinha esse costume de desenhar”, lembra Pedro Drummond.
A atitude permitiu guardar registros de uma habilidade que, segundo o neto, o próprio Carlos Drummond de Andrade não valorizava como deveria. Pedro lembrou que o poeta se considerava um “desenhista frustrado”, embora demonstrasse sensibilidade e apuro estético no traço.
Para explicar essa ligação com o universo visual, ele também recordou uma passagem do documentário “O Fazendeiro do Ar”, dirigido por David Neves e Fernando Sabino, em 1974. Na produção, Drummond fala sobre o interesse que desenvolveu pelas letras antes mesmo de compreender seus significados.
“O que o atraiu primeiro foi a forma das letras, os desenhos das letras, antes dele saber o que essas letras queriam significar ou diziam”, conta Pedro Drummond.
Na avaliação do neto, essa declaração ajuda a compreender como a percepção visual acompanhava o poeta desde cedo. “A verdade é que ele tinha um talento visual e um gosto pela arte visual, pela arte gráfica muito grande”, afirma.
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Claro Enigma e o reconhecimento de que sempre há algo a aprender
Outro ponto central da entrevista foi “Claro Enigma”, livro publicado por Carlos Drummond de Andrade em 1951 — e que completa 75 anos em 2026. O volume é considerado por Pedro uma obra marcante na trajetória do escritor itabirano. Para ele, a importância da publicação ultrapassa a experiência pessoal do poeta e alcança quem se dispõe a conhecer seus poemas.
Pedro destacou que o livro apresenta reflexões sobre a existência, as dúvidas e a maneira como cada pessoa se relaciona com o mundo. Ao mencionar poemas como “Legado”, chamou a atenção para a imagem de alguém que se depara com verdades que não necessariamente eliminam suas incertezas.
“Então, o 1Claro Enigma1 me parece que é um pouco o reconhecimento de que nós temos coisas para aprender, o que é claro é o enigma, então é o que nos faz humanos, é o reconhecimento de que sempre há algo a mais que podemos aprender dos outros, de ouvir os outros”, reflete.
A interpretação de Pedro aponta para uma dimensão humana da obra: reconhecer que o conhecimento não se esgota e que ouvir outras pessoas também faz parte do aprendizado. Ele relacionou essa ideia à possibilidade de compreender os mistérios da vida sem perder de vista aquilo que aproxima as pessoas.
“Vamos continuar humanos, nos unindo naquilo que a gente tem em comum”, disse, ao sintetizar uma das reflexões que associa ao livro.
Flitabira como encontro com a cultura e os valores locais
A entrevista também abriu espaço para Pedro comentar a importância do Flitabira e a participação dos moradores de Itabira no festival. Ele defendeu a continuidade do evento, que, segundo destacou, reúne autores e promove encontros que ampliam o contato do público com a literatura e outras manifestações artísticas.
Ao comentar uma mesa de debate que havia acabado de acompanhar, com Kalila das Mercês e Rita Von Hunty, na quinta-feira (29), data de abertura do festival, ele descreveu a experiência de participar das atividades como uma oportunidade de aprendizado. “Assistir aos eventos do Flitabira mais do que nada uma lição é um chamado à união”, afirma.
Para Pedro, a importância do festival não está apenas na homenagem à memória de Carlos Drummond de Andrade ou na ligação do poeta com sua cidade natal. Ele ressaltou que Itabira também tem uma produção cultural própria, que precisa ser valorizada no presente e projetada para o futuro.
“Não apenas pela memória do Carlos e pelo o que ele cantou da sua cidade natal, desta cidade tão querida, mas pelo que tem aqui de importante, das manifestações artísticas, da literatura local, não é o passado apenas, é o presente e é o futuro”, destaca.
Na avaliação do neto do poeta, a continuidade do Flitabira e a realização de outros eventos culturais ajudam a dar visibilidade aos talentos e às manifestações locais. Ele também definiu o festival como um gesto de afeto pela cidade.
“Acho que é importante, temos que torcer e trabalhar para que o Flitabira continue, e não só o Flitabira, mas outros eventos de ordem cultural e artística que chamem a atenção para os valores locais”, ressalta.
Ao final da entrevista, Pedro Drummond deixou uma mensagem que resume o sentido que atribui à literatura e à participação no festival: “A mensagem é que a poesia e a literatura, em geral, unem as pessoas. Então, estamos aqui porque nós queremos um Brasil unido, um país cordial e fraterno para todos”.