Nicolás cairá de maduro

De todo jeito, o presidente da Venezuela cairá de tão podre ou de tão podre cairá. A derrubada do autocrata acontecerá com ou sem negociação? Eis a questão

Nicolás cairá de maduro
Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

O presidente Donald Trump se enveredou por mais um aparente beco sem saída. O Manda-Chuva maior do planeta, às vezes e, na maioria das vezes, toma abruptas e irracionais decisões. Até mesmo por isso, o republicano é cavaleiro de cavalos de pau. Costumeiramente, Orange volta atrás em suas “definitivas e irremediáveis iniciativas”. Consequência. O dono de postiços cabelos ruços vive provocando arruaças internas (nos próprios EUA) e externas (no teatro da geopolítica).

Atualmente — e só para variar — Trump se envolveu em outro “furdunço” internacional. Desta feita, encarnou a retórica do velho ditado popular: “se ficar o bicho come, se correr o bicho pega”. O exótico bilionário — que governa os Estados Unidos como se o país fosse uma das suas empresas — deslocou poderosa frota naval para o mar do Caribe. A força-tarefa conta com extraordinário contingente de 15 mil soldados. Trata-se da operação “Lanza del Sur” tendo à frente o porta-aviões “USS Gerald R. Ford”, o maior navio de guerra do mundo. O monstrengo metálico tem capacidade para transportar 75 aeronaves e quatro mil marinheiros.

Qual o pretexto para tão megalômana exibição? A suposta eliminação do “Cartel de los Soles”, um conglomerado de traficantes de drogas. Os megamarginais seriam os responsáveis pela “desagregação da exemplar família norte-americana”. Até agora, a incursão do candidato a “Prêmio Nobel da Paz” provocou a morte de 83 pessoas e destruição de 22 embarcações. O governo estadunidense garante, sem provas, que as vítimas dos ataques transportavam narcóticos. E fica aqui inocente pergunta. Os bandidos venezuelanos são tão otários a ponto de se aventurarem em um mar coalhado de ianques armados até os dentes? Afinal, são mercadores de entorpecentes ou suicidas?

Mas, na realidade, existe clara ficção por trás do espalhafatoso aparato bélico de Donald. O pano de fundo é a deposição de Nicolás Maduro — um ditador caricato típico de republiquetas de bananas da periferia do planeta. E a trama só complica para o bolivariano. O falastrão — que escandalosamente surrupiou as eleições presidenciais do ano passado — corre sério risco de ser defenestrado do Palácio de Miraflores. O sujeito encontra-se, portanto, na iminência de despencar de maduro.

Trump, porém, se meteu numa encruzilhada de macumba. Se der meia-volta com o seu cortejo carnavalesco, ficará desmoralizado. No entanto, caso ataque a Venezuela, envolve-se numa farra de imprevisíveis consequências. Há possiblidade até de acontecer um vexaminoso replay da Guerra do Vietnã ou do fiasco da Rússia na Ucrânia. Um conflito — aparentemente rápido e rasteiro — pode virar interminável folhetim sangrento. Este panorama seria um desastre para a imagem do “imperador do universo”.

Agora, cá entre nós, fica dúvida atroz: Trump quer mesmo destruir o “Cartel de los Soles” ou sentiu o doce aroma das reservas de petróleo do país andino? A resposta a esta dúvida tende a ser respondida nos próximos dias. De todo jeito, Maduro cairá de tão podre ou de tão podre cairá. A derrubada do autocrata acontecerá com ou sem negociação? Eis a questão.

Um famoso locutor esportivo sempre alardeia que “zagueiro não vai à érea do adversário só para passear”. Eu contextualizo o filósofo da telinha e reafirmo: os combatentes de Tio Sam não foram ao Caribe apenas para participar de um festivo piquenique. A ver.

P.S.1: Na verdade, Trump enfrenta o mais delicado momento da sua carreira política. O caso Epstein tem potencial para implodir o seu mandato. Se um simples charuto quase botou Bill Clinton para fora da Casa Branca, imagine, então, um escândalo com a dimensão sexual do atual.

P.S.2: Agora, um espaço para o nada a ver. Faço uso de um aforismo do colombiano Nicolás Gomez Dávila para prestar sincera homenagem aos participantes do ridículo Fla x Flu ideológico que tanto imbeciliza o Brasil (a nefasta polarização política): “o verdadeiro filósofo não é de direita e nem de esquerda, é contra os idiotas de ambos os lados”. E tome “idiota” no sentido grego do termo.

Sobre o colunista

Fernando Silva é jornalista e escreve sobre política em DeFato Online.

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