O cachorro era o recado; a mulher era o alvo

Histórias que não falam apenas de maus-tratos aos animais, mas que também revelam uma estratégia de violência psicológica contra mulheres

O cachorro era o recado; a mulher era o alvo
Foto: Reprodução/Arquivo CNJ
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O cachorro estava magro. O pote de água, vazio. Para quem passava pela rua, era apenas mais um caso de abandono. Mas, depois de anos ouvindo histórias de mulheres vítimas de violência doméstica, aprendi que cenas como essa raramente falam apenas sobre um animal. Dentro daquela casa, o cachorro talvez nunca tenha sido o verdadeiro alvo. Quem estava sendo ferida era a mulher.

Ao longo da minha atuação, ouvi relatos que nunca mais saíram da memória:

  • “Ele dizia que mataria meu cachorro se eu fosse embora”;
  • “Deixava o gato sem comida depois das nossas discussões”;
  • “Abriu o portão de propósito e depois me culpou quando meu filho chorava porque o cachorro tinha sumido”.

Essas histórias não falam apenas de maus-tratos aos animais. Elas revelam uma estratégia de violência psicológica que muitas pessoas ainda não conseguem enxergar.

O agressor sabe exatamente onde machucar. Ele sabe que, para muitas famílias, o pet não é um objeto. É parte da família. É o companheiro das crianças, o conforto nos dias difíceis, a presença silenciosa que participa da rotina e da história daquele lar.

Por isso, quando agride um animal, ele não está atacando apenas um ser indefeso. Está enviando um recado: “Eu posso destruir tudo aquilo que você ama”. É assim que funciona a lógica do controle. Quem é capaz de usar o sofrimento de um animal para dominar uma mulher demonstra muito mais do que crueldade. Demonstra que enxerga pessoas e animais como instrumentos de poder. O pet deixa de ser um ser vivo e passa a ser uma ferramenta de chantagem, medo e submissão.

Essa dinâmica tem nome. É conhecida internacionalmente como Teoria do Elo (The Link), que demonstra a relação entre os maus-tratos aos animais e outras formas de violência interpessoal. No Brasil, uma pesquisa desenvolvida pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) confirmou essa conexão: a violência contra os animais frequentemente ocorre no mesmo ambiente em que mulheres e crianças vivem sob ameaças, controle e abuso.

Essa constatação muda a forma como devemos olhar para esses casos.

Quando um cachorro aparece constantemente machucado, desnutrido ou negligenciado, talvez a pergunta não deva ser apenas: quem está maltratando esse animal?

Talvez seja preciso perguntar também: Quem mais está sofrendo dentro dessa casa?

Porque, muitas vezes, o cachorro é transformado em arma. Seu sofrimento serve para manter a mulher em silêncio, impedir a denúncia e reforçar o domínio do agressor.

A violência doméstica nem sempre deixa hematomas. Às vezes, ela aparece na coleira vazia, no pote de ração esquecido, no animal que desapareceu sem explicação.

Enxergar esse elo pode salvar vidas. Proteger um animal pode significar interromper um ciclo de violência antes que ele alcance consequências ainda mais graves, porque, muitas vezes, salvar um cachorro também é uma forma de salvar uma mulher.

Sobre a colunista

Juliana Drummond é esposa, mãe e advogada com mais de 20 anos de experiência na área cível e criminal. Também é especialista em Direitos das Mulheres; pós-graduada em Advocacia Feminista pela Escola Superior de Direito, em São Paulo; capacitada em Advocacia com Perspectiva de Gênero pela Escola Brasileira de Direitos das Mulheres; e representante da OAB Itabira na Comissão Especial Enfrentamento a Violência Doméstica da OAB Minas Gerais.

O conteúdo expresso é de total responsabilidade do colunista e não representa a opinião do portal DeFato Online.

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