Cláudio Bueno Guerra nasceu em Nova Era e se projetou para o mundo. O nova-erense exibe diversificada e consistente formação acadêmica (e intelectual). Esta conjuntura começou com a graduação em Engenharia da Produção pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). O passo seguinte foi a especialização em Engenharia da Qualidade, na Inglaterra e Alemanha. Em seguida, fez mestrado em Ciência e Tecnologia Ambiental no UNESCO (IHE), em Delft, Holanda.
Tempos depois, exerceu a função de consultor na Unicef, Unesco e ANA (Agência Nacional de Água e Saneamento). Entre 1999 e 2003, ocupou o cargo de secretário de Estado adjunto de Meio Ambiente do Governo de Minas Gerais (administração Itamar Franco).
Bueno tem um fascínio especial pelos rios. Esta atração começou ainda nos tempos de criança e adolescente. Na época, o seu passatempo predileto era o mergulho nas águas do Piracicaba, o Rio que banha a sua terra natal. A “mania” de rios fez nascer o livro com significativo título: “Quem são eles, os rios?”. A narrativa mergulha numa completa radiografia fluvial. A formação, desenvolvimento e características destas maravilhosas entidades da natureza.
O ambientalista esteve em Itabira para fazer o lançamento da sua obra literária no Flitabira-2025. Na oportunidade, concedeu entrevista à DeFato e falou sobre as principais questões ambientais do planeta, a vida dos rios e o real significado da Conferência das Nações Unidas Sobre as Mudanças Climáticas (COP 30), que começa no dia 10 de novembro, em Belém do Pará. Confira a entrevista.
DeFato: No livro, o senhor faz referência ao rio da sua Infância, o Piracicaba, que atravessa a cidade de Nova Era. Outro rio faz parte do meu imaginário. Mas, pelo andar da carruagem ambiental, algum rio ilustrará a memória das pessoas, daqui a 150 anos, por exemplo?
Cláudio Bueno Guerra: Olha, Fernando, eu não sou um vendedor de nada. Eu sou um divulgador, eu sou um influenciador, mas acho que não podemos perder o sonho. Eu sou um estudioso da questão ambiental, estudei muito a fundo. Tenho uma vivência de 35 anos e trabalho com a perspectiva otimista de que, apesar de conhecermos a realidade, nós precisamos trabalhar. Temos que nos ajuntarmos mais, para podermos modificar o cenário que estamos vivendo. Então, eu acredito que, apesar da nossa realidade de agora, ainda resta uma esperança de preservação ambiental. Eu acredito que, daqui a 100 anos, vamos ter um comitê de base hidrográfica funcionando. Eu ainda vejo um futuro com crianças dentro dos rios. A realidade de hoje, porém, leva à sua pergunta instigante. Por que? Porque o comitê hidrográfico é muito lento, desorganizado, não tem vontade política, não se expõe e não tem dinâmica. Para você ter uma ideia, o dinheiro para fazer o tratamento de esgoto, na bacia do Piracicaba, que é onde estamos, demorou 24 anos para aparecer. Eu sou uma pessoa conhecida como aquela que fala verdades inconvenientes, mas, preciso fazer isso, porque este é o meu papel.
DeFato: Mas, por que os comitês hidrográficos não funcionam como deveriam? Qual a causa da deficiência deste sistema?
Cláudio Bueno: A primeira questão é econômica, o poder econômico das empresas. Porque o comitê é constituído por poder público, setor privado e sociedade civil. Nesta correlação de forças, a sociedade civil é o primo pobre, descalço. As empresas e o Governo de Minas Gerais, por exemplo, não têm interesse nisso. Esta estrutura funciona através da lei federal das águas de 1997. E essa lei demorou quase 20 anos para passar no Congresso. Tudo isso porque se começaria a cobrar pelo uso da água. A Usiminas, por exemplo, nunca pagou um boleto. A Vale nunca havia pagado um boleto da água. Por isso, eu falei que não iria mexer com essa coisa de comitê. Além de ter que pagar pelo uso das águas, as empresas precisam ser levadas a outras discussões. Então, a estratégia que que está rolando é a seguinte: só se vota aquilo que é do interesse econômico das empresas. Vem daí a lentidão do que tem que ser votado. Esta situação está presente no processo. E isso nos incomoda. Por isso, falamos, anunciamos e cobramos. Parece que, agora, vai sair o tratamento de esgoto.
DeFato: Então, está claro que as empresas não pagam a conta de água e ainda prejudicam à população. Itabira, por exemplo, tem sérios problemas de abastecimento devido à atividade minerária…
Cláudio Bueno: O item água, aqui no município de Itabira, é uma questão que vem de 30 anos atrás, quando o aumento da produção da grande empresa provocou um reflexo enorme nas nascentes. Quando as atividades da mineradora forem paralisadas, daqui a alguns anos, as nascentes voltarão revigoradas. Sem dúvida, as nascentes voltarão.
DeFato: Neste caso, estamos diante de uma informação bastante relevante. Com o fim da extração mineral, as nascentes, que hoje se encontram degradadas, rejuvenescerão. É isto mesmo?
Cláudio Bueno: Claro que sim. O problema está nos chamados vasos comunicantes. Quando a mineradora perfura muito profundamente, ela atinge todo o sistema de vasos comunicantes das águas. Quando se paralisar a atividade minerária, a água voltará ao normal, sem dúvida. Esse cenário deve constar nos estudos técnicos da Vale. Isto tem que estar escrito.
DeFato: A sua formação original é Engenharia da Produção, mas, o senhor tem especializações no exterior, inclusive mestrado em Ciência e Tecnologia Ambiental, na Holanda. Em que ponto da sua trajetória começou o interesse pela temática do meio ambiente?
Cláudio Bueno: Na verdade, a história deste livro revela um pouco desta situação. Eu não tinha noção deste meu interesse pelos rios, por exemplo. É uma coisa que meus colegas achavam meio estranho. Eles não entendiam porque eu gostava tanto do rio. Quando eu ia para a escola, ao passar na ponte, eu parava para viajar no rio. Na minha cabeça, eu viajava no rio. Então, acho que meu interesse começou nesse momento. Nos anos 1990, esse interesse aumentou consideravelmente quando eu comecei a trabalhar numa equipe multidisciplinar, numa empresa de engenharia. Na ocasião, fiz um levantamento, um estudo de impactos ambientais. A partir daí, virei engenheiro da qualidade. Então, fiz a especialização na área da qualidade, na Inglaterra e na Alemanha. Eu era engenheiro fera de qualidade. Eles falavam: vamos botar o Claudio para o procedimento. Aí me colocaram no grupo multidisciplinar. Havia engenheiro civil, engenheiro elétrico, tinha arquiteto. A partir deste instante, comecei a sacar o negócio do meio ambiente. Iniciei o trabalho com a qualidade da água, com a qualidade do solo e com a qualidade do ar.
DeFato, Então, o exercício profissional na qualidade da produção foi o trampolim para a a qualidade ambiental…
Cláudio Bueno: exatamente. Quem me transferiu para o meio ambiente, sem traumas, foi a qualidade.
DeFato: E, desde então, o senhor passou a se dedicar integralmente à qualidade do meio ambiente…
Cláudio Bueno: Aí eu ganhei uma bolsa. Eu concorri a uma bolsa do governo da Holanda. Difícil enumerar quantos candidatos havia para a vaga. Mas eu conquistei uma vaga. Fui estudar meio ambiente e me especializei. Eu fiquei dois anos me especializando em meio ambiente, como um todo. Estudei economia, saúde pública, tecnologia, reabilitação de áreas e hidrografia. Então, eu realmente aprendi o que é a gestão ambiental, o que é o meio ambiente.
DeFato: Esta conversa vem em um momento bastante oportuno. O Brasil tem uma importância fundamental na preservação do planeta. Esse aspecto será muito ressaltado na Conferência das Nações Unidas Sobre as Mudanças Climáticas (a COP30), que acontecerá em Belém do Pará, a partir de 10 de novembro. O que estes encontros produzem de útil para o delicado futuro ambiental da humanidade? Claro que acontecerão longas discussões e poses fotográficas para a grande imprensa. Na prática, qual a utilidade prática destes eventos?
Cláudio Bueno: Acho que a sua pergunta muito oportuna. É o seguinte. Estamos na COP30. Isto significa que já foram feitas 29 convenções desta natureza. A ideia de se fazer as convenções anuais, ou convenções da ONU sobre o tema clima e biodiversidade, surgiu na Eco 92, no Rio de Janeiro. Aquele, sim, foi um encontro importantíssimo, porque dali surgiu a ISO 14 mil para a gestão ambiental das empresas, do setor privado. Surgiu a necessidade da convenção da biodiversidade, a necessidade da convenção do clima. O encontro de Kyoto, o protocolo de Kyoto, nasceu na Eco92. Então, a partir dali, anualmente, construíram-se essas convenções. A convenção mais decepcionante de todas, a mais difícil de todas, é a do clima.
DeFato: Então por que, na sua avaliação, as convenções para debates sobre o clima são tão decepcionantes?
Cláudio Bueno: Nas conferências do clima, até 2014, as discussões avançaram um milímetro. Na seguinte, um milímetro e meio, seguido de milímetro zero, em outro encontro. Na convenção de Paris de 2015, aconteceu um fato político da maior relevância porque entraram, pela mesma porta, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama e o presidente da China, Xi Jinping. Eu até comentei na ocasião: agora, a convenção vai funcionar. Agora o negócio vai. Então, cara, em Paris, foi muito burburinho, uma turbulência. Ficou decidido que as empresas e cada país teriam que criar o seu CND, Contribuição Nacional Definida. Cada país teria, até o ano de 2035, a obrigação de diminuir as emissões dos gases do efeito estufa em 40%, em relação ao ano de 2015. Foram traçadas as metas. Então, eu nem dormi de tanto contentamento.
DeFato: E, por que, com expectativas tão positivas, o Acordo de Paris não produziu os efeitos esperados?
Cláudio Bueno: A princípio, foi aquela alegria geral. Já na COP16, começaram as brigas. Na 17, o negócio começou a se enfraquecer. Nem o Brasil cumpriu as metas. Alguns países, da comunidade europeia, cumpriram a meta. Aí, Trump chegou e saiu fora. A partir de então, os países pararam de cumprir as metas.
DeFato: Diante de tudo isto que o senhor falou, ainda dá para apostar no êxito da COP 30?
.Cláudio Bueno: Eu acho que aCOP30 está criando muita expectativa, muita expectativa, muita expectativa, mas os avanços serão mínimos. As brigas já são terríveis. Muito terríveis. Mas eu acredito que a COP30 vai mostrar, vai abrir a janela para o Brasil. Para nós, brasileiros. Porque nós não conhecemos a Amazonas. Isso significa oportunidades, abertura de oportunidades, aproveitando essa questão ambiental.
DeFato: Mas, em termos pragmáticos, qual a real utilidade da COP 30?
Cláudio Bueno: A utilidade é revelar o Brasil para o mundo. Primeiro é conhecer e valorizar a realidade. E aí nós vamos ver o problema do desmatamento calhorda, a questão da seca dos rios. Vamos ver o trabalho das mineradoras de ouro da Europa, das empresas, das grandes usinas. Nós vamos ver, principalmente, a pobreza da população brasileira. A importância da COP30 é que ela vai ser realizada onde a coisa acontece. Não é naqueles prédios dos grandes centros, vai ser no local. O Lula fala isso. O presidente fala que nós vamos discutir no local. Não é bem assim. Vai ser discutido nos estandes que a Vale vai pagar. É a Vale que vai pagar. A Vale e várias outras empresas internacionais.
DeFato: Mas, qual o ganho do Brasil pelo patrocínio da COP 30?
Cláudio Bueno: Ganho econômico, sem dúvidas. Ah, o Trump não vem. Mas estarão, aqui, empresários americanos vendendo e comprando coisas. Eles vendem e compram até o ar. Eles compram e vendem porque eles são muito bons nisso, né? Então, vai ter essa dinâmica.
DeFato: O seu livro é um mergulho na alma dos rios. Imagino que foi uma obra muito complexa, de difícil produção. Como nasceu este seu interesse pelos rios e como este trabalho se desenvolveu?
Cláudio Bueno: Olha, a ideia de se escrever este livro surgiu há 10 anos, quando eu comecei a sonhar com a minha infância na beira do Rio. Aí eu falei: tem um sinal aí. Começou assim. Começou com sonhos sobre o rio da minha infância. E aí surgiu a ideia do livro. E como será o livro? Eu pensei assim: a capa do livro vai ser essa. Mas não havia livro. Só tinha a capa. Eu fui amadurecendo. Fiz livros antes desse, mas esse é uma dívida para comigo mesmo. A minha intuição falava que eu tinha que fazer esse livro. Passaram-se os anos, eu me aposentei. Então, chegou a hora de fazer esse livro. Fernando, eu gastei dois anos para fazer esse livro.
DeFato: Pelo que li, foram dois anos de intenso trabalho. O senhor fez uma radiografia completa de rios: a gênese, a transformação e o desenvolvimento.
Cláudio Bueno: É. Foram dois anos de trabalho. Eu coloco assim: as similaridades e semelhanças entre os rios. Todos os rios que eu visitei. Eu visitei fisicamente três e outros quatro eu visitei pela internet. Eles (os rios) apresentam algumas características comuns como a redução das vazões. Todos os rios do planeta estão reduzindo as suas vazões. A NASA já tem todos esses dados. Está acontecendo esse impressionante fenômeno. O outro fenômeno é a queda na navegabilidade. No Brasil, nós já temos poucos rios navegáveis, tirando a Amazônia. Tirando a Amazônia, nós temos a hidrovia Tietê, o Rio Doce, por exemplo, que eu trabalho há mais anos. A ANA (Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico) também já tem os dados. A vazão média está caindo. Então, isso é um problema. E todos eles (os rios) … todos eles estão sofrendo os efeitos das mudanças climáticas. Porque a mudança climática muda o regime de chuvas. Então, pode faltar água. Isso tem um efeito muito grande na economia, na colheita de produtos agrícolas, na produção de peixe e tal.
DeFato: E, de todos os rios, qual provoca mais encantamento em seu imaginário?
Cláudio Bueno: Bom, o primeiro rio que me encanta é o rio da minha infância, né? Porque a questão é afetiva. É um rio que não escapa. Mas tem o rio Danúbio, que também me encanta. Há quatro anos, eu estive lá (na Áustria). Eu nadei no rio que inspirou Strauss (Johann Strauss).
DeFato: e onde o seu livro pode ser comprado, aqui em Itabira?
Cláudio Bueno: no Clube da Leitura (no hall da Fundação Cultural Carlos Drummond de Andrade) você acha o livro. Está lá à disposição.
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