O ilustrador e as 1.001 facetas da ilustração infantil
Juliane Assis é pintora, desenhista, gravadora e ilustradora graduada pela Escola de Belas Artes da UFMG. Pós-graduada no curso: Especialização em Ensino de Artes Visuais pela Escola de Belas Artes da UFMG
Artigo publicado na edição 261 da Revista DeFato
A ilustração é uma forma de expressão artística não-verbal que acompanha um texto, e tem função além de apenas informá-lo e enfeitá-lo. Ela pode expandir o sentido do texto de inúmeras formas, estimulando a criatividade da criança para descobrir um mundo de símbolos, signos, mensagens, significados, fazendo o pequeno leitor sentir prazer pela leitura.
Um bom ilustrador precisa “mergulhar” de corpo e alma no texto que vai ilustrar. Deve pesquisá-lo na íntegra, não apenas a história em si, mas todas as suas frases, palavras, letras, tipografia, a maneira de escrever do escritor e, principalmente, aquilo que está camuflado nas entrelinhas, pois tudo pode gerar um sentimento, uma ideia que por sua vez se transformará em desenho.
Rui de Oliveira, no livro Língua de Trapos, de Adriana Lisboa, buscou o modo e a forma plástica de escrever da escritora. Ele observou o aparecimento da letra “O” 29 vezes e essa análise o orientou a criar formas circulares, como se fosse uma sucessão de sons gerados pela poética dessa letra. No livro que ilustrei, “Era uma vez eu”, de Neuza Sorrenti, viajei até a cidade onde a história se passava e fotografei a região para posteriormente recriá-la e transformá-la em desenhos. Dessa forma pude sentir mais intensamente o significado de cada palavra escrita pela autora, para que as ilustrações ganhassem vida.
A técnica de trabalho é outro item importante quando o assunto é criação de ilustrações. Há uma grande variedade de técnicas que podem ser aplicadas para ilustrar: aquarela, acrílica, colagem, lápis, computador, etc. O ilustrador precisa entrar no “clima” da história e perceber aquela que ficará melhor para ilustrá-lo. É uma decisão pessoal e não existem normas, mas apenas a capacidade do ilustrador de ser sensível e perceber o quanto ele poderá utilizar a técnica a favor do texto. Ao ilustrar “Coroai-me de rosas”, de Roseana de Mont’Alverne, escolhi a aquarela por ser uma técnica mais solta, menos determinada. A maneira delicada e leve que a autora revela seu olhar sobre o cotidiano me impregnou de liberdade para criar. A aquarela com suas aguadas, manchas, seu poder de sugestão me auxiliou no processo criativo.
Perceber e entender o livro como um todo é também tarefa imprescindível para o trabalho de criação do ilustrador. O livro não é somente capa, texto e ilustrações, ele é um objeto tridimensional. Possui capa, contracapa, lombada, orelhas, folhas de guarda, etc. Todos esses elementos podem ser trabalhados a favor do enriquecimento da narrativa, da sua expressividade, ludicidade, de auxiliar no contar a história. Uma particularidade importante oferecida pelo suporte livro é a dobra entre as páginas, que pode ser aproveitada para dar expressividade, acentuando uma emoção, a perspectiva, um movimento e ainda enfatizando o conteúdo da história. No momento em que a página é manuseada, virada pelo leitor, tem-se novas formas de leitura, outras maneiras de absorver a história. Os braços abertos de um personagem na dobra da pagina terá movimento ao abrirmos e fecharmos as páginas. O movimento de virar a página traz também novas possibilidades para a narrativa com o efeito de continuidade. Um gato pode iniciar seu pulo em uma página e terminá-lo na página seguinte.
A ilustração e o livro têm um amplo universo de possibilidades técnicas, gráficas, físicas, plásticas e visuais e o ilustrador precisa estar atento a todas elas para construir ilustrações de qualidade, que possam fortalecer o elo da criança com o livro, com a história.