“O inimigo é invisível, agressivo e assustador”, diz nova-erense que mora em Portugal

Brasileiro conta como o novo coronavírus mexe com o país que escolheu para viver e as estratégias adotadas para controlar a crise

“O inimigo é invisível, agressivo e assustador”, diz nova-erense que mora em Portugal
Emerson Lopes – Foto: Reprodução/Facebook

O direito de ir e vir foi restringido. Drones voam a cidade e, em três idiomas diferentes, dão o recado: “fiquem em casa”. É assim que Portugal enfrenta a pandemia provocada pelo novo coronavírus (Covid-19). Quem conta esse relato é o empresário nova-erense Emerson Alvarenga Lopes, de 42 anos, e que há 20 vive no país. De acordo com a Direção Geral de Saúde (DGS), em Portugal, já são quase 13 mil infectados e 350 mortes por Covid-19.

“Não tem sido fácil, pois a rigidez europeia não tem nada a ver com o Brasil, que deixa a vida seguir ‘na boa’.  Para sair tem que dá uma satisfação à polícia, explicar o motivo de estar fora de casa. Há drones a voar pela cidade com uma voz fria a dizer em português, inglês e espanhol: ‘fiquem em casa’. Não há ninguém nas ruas. O medo e a angústia andam juntos nos olhares das poucas pessoas que encontramos pelo supermercado. O nosso inimigo é invisível”, declarou.

Ruas ficaram vazias em Portugal – Foto: Arquivo pessoal

Emerson mora em Montijo, cidade que é banhada pelo Rio Tejo e que tem, na outra margem, a capital de Portugal, Lisboa. Se mudou do Brasil quando tinha 22 anos. Desde então trabalhou em diversos locais, nas mais distintas funções.

Nesses 20 anos que está em Portugal, teve a oportunidade de conhecer vários países da Europa, como Espanha, França, Bélgica, Grécia e Inglaterra. Há 15 anos conquistou a nacionalidade portuguesa. Com muito esforço, ao longo desse tempo, comprou seu primeiro carro e apartamento.

“Minha primeira oportunidade foi em uma loja de conveniência da Shell. Depois, trabalhei em um supermercado e no setor de arquivo do grupo Santander, onde fui convidado a ficar. Foi uma grande oportunidade, pois fui subindo até chegar ao núcleo de contratação dos empréstimos de habilitação. Com a crise de 2011, foram muitos demitidos, como eu. Meses depois entrei para uma financeira espanhola e logo segui para o grupo da Calvin Klein internacional, onde trabalhei como encarregado chefe”, lembrou.

Desde 2017, é proprietário da Barbearia Tradição. Mas, desde 13 de março a barbearia está fechada por imposição feita pela DGS. Por lá, apenas supermercados, padarias, postos de gasolinas e farmácias têm autorização para funcionar.

Foto: Reprodução/Facebook

A pandemia

Vendo o cenário que se desenhava, Emerson decidiu procurar uma agência de trabalhos temporários.  Com o aumento da procura de vários produtos, os supermercados tiveram que contratar mais funcionários. O nova-erense conseguiu um freelancer de repositor em supermercados. Sua rotina é de 40 horas semanais, repondo as prateleiras com produtos que vão desde da alimentação dos animais, à produtos de higiene pessoal.

“Tive que arranjar algo para manter minimamente as contas. Apesar do governo português decretar a suspensão do pagamento de água, luz e gás e também todas as prestações de crédito de habitação e ao consumo até setembro”, contou.

Emerson leva em média 40 minutos de casa ao trabalho. Ele conta que utiliza o transporte público, que tem ficado vazio, pois ir no próprio carro não compensa. O passe custa 40 euros e serve para todos os transportes públicos: ônibus, barco, metrô e trem.

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O nova-erense conta que no início da pandemia, chegou a faltar mercadorias nos supermercados. Agora, a situação está controlada. Ele conta que os portugueses, cansados de ficar em casa, dão a “desculpa” que precisam ao supermercado.

No entanto, o governo português determinou regras para o funcionamento dos estabelecimentos. Um número determinado de clientes por metro quadrado foi estipulado. O controle é feito por seguranças ainda na entrada. Além disso, idosos só podem permanecer nos supermercados por duas horas.

 


O “assustador” coronavírus

Nos últimos anos, Portugal passou por muitos momentos difíceis. Em 2011, por exemplo, durante a crise econômica, o país foi forçado a pedir à União Europeia (UE) e ao Fundo Monetário Internacional (FMI) um empréstimo de 78 bilhões de euros. Mas para quem vive no país há tanto tempo, a crise causada pelo coronavírus é a mais grave.

“Para fechar tudo e retirar o direito de ir e vir, é algo super agressivo e assustador. Mexe com a mente de qualquer pessoa”, disse o nova-erense.

Apesar do temor do avanço da pandemia na Europa, Emerson acredita que Portugal se preparou bem. Ele afirma que o sistema nacional de saúde é considerado um dos melhores. Mas ressalta que “as regras devem ser cumpridas, então, tudo vai ficar bem”.

“Talvez, possa ser muito complicado para os brasileiros que amam a liberdade ter que se privar de tudo. Estamos no mesmo barco. Ricos, pobres, brancos e negros. E não sabemos onde vamos parar. Fiquem em casa”, finalizou.

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