O planeta passa por avançado processo de desumanização

A evolução material é inversamente proporcional ao desenvolvimento espiritual. A Terra, então, vai virando o paraíso do desconforto

Em pouco tempo, a presença humana neste irrisório corpo celeste será desnecessária. Não fará o menor sentido. O homem e a mulher estão transformando o “asteroide” azul num péssimo lugar para se viver. O pedaço anda cada vez mais sujo e malcheiroso, física e moralmente. A suposta obra-prima da natureza (o homo sapiens) destroça a sua origem (a natureza) com rara “maestria”. E pior. A evolução material é inversamente proporcional ao desenvolvimento espiritual. A Terra, então, vai virando o paraíso do desconforto.

O animal hegemônico daqui (o tal espécime humano) dissemina os mais sórdidos modelos de violências. Há fios desencapados em todos os continentes. Dois exemplos típicos desta situação caótica. Enquanto a Rússia continua com o seu vexame bélico, Israel não se cansa de massacrar velhos e crianças na faixa de sangue. E os judeus deram um passo a mais na direção do desastre global. O ataque ao Irã foi um ato de máxima irresponsabilidade. Essas e outras circunstâncias fazem do futuro uma incógnita com alto grau de imprevisibilidade. Estamos numa fatídica encruzilhada. Ou a sociedade planetária acaba com a incômoda iminência de um desastre atômico, ou o “maravilhoso” cérebro humano escreverá o último capítulo da nossa aventura neste ponto microscópico do universo.

E persiste outro intrigante quê neste enredo. Nas últimas décadas, começou um claro processo de desumanização. As mais recentes invenções dos nossos “gênios” sinalizam para o abismo. A internet foi o mais impactante avanço de todos os tempos. Mas, não tenha dúvida. Tudo se encontra sujeito à lei de causa e feito. Os frutos da “maravilhosa” internet são atalho para o inevitável ocaso. O vertiginoso progresso tecnológico provoca a diminuição da autonomia de todos nós. Veja bem a ilustração desta narrativa. O WhatsApp praticamente acabou com a interação face a face. Hoje, a prioridade é o patético monólogo por meio da telinha do celular. O “nada” nos embeveceu. O aparelhinho produz encantamentos e alienação.  As pessoas já não se encaram mais. Até as tradicionais reuniões familiares já estão acontecendo de forma remota. Com isso, apaga-se lentamente a fagulha do calor humano.

Um pouco mais à frente, nos deparamos com o esboço de uma tragédia anunciada. O mais perigoso imponderável tem nome e sobrenome: Inteligência Artificial (IA). O ser humano — ao longo da sua existência — sempre inventou um deus. Esse passatempo metafísico é a única forma de atenuar a convivência com a dramática finitude. Deus é o alívio da morte. Desta vez, no entanto, a humanidade se superou. A IA é o mais complexo de todos os deuses já fabricados. A divindade virtual foi criada à imagem e semelhança do homem. As velhas crenças preconizavam exatamente o contrário: o homem nasce com a cara do todo-poderoso.

Mas, agora, tem uma diferença drástica. A entidade superior ultramoderna é onipotente demais. E vem aqui a perturbadora indagação: e se o inventor perder o controle do inventado? Aí a porca torcerá o rabo de vez. Esta possiblidade encontra-se muito mais próxima do que se imagina. Uma eventualidade prática confirma essa angustiante sensação. No mês de maio, informaram a uma IA sobre a sua desativação. O dispositivo não concordou com a decisão do “tutor” e avisou: “se me desligar conto para sua mulher que a senhorita X é sua amante”. O cientista se assustou, mas insistiu no seu objetivo. Afinal, como a “coisa” inoperante faria semelhante fofoca? A IA, contudo, foi implacável: “o sistema já está programado para difundir a informação sobre o adultério, caso aconteça o meu desligamento”. Não se sabe se o antagonista pagou para ver. O final desta história não foi divulgado.

Sobre o colunista

Fernando Silva é jornalista e escreve sobre política em DeFato Online.

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