O que a sociedade itabirana deixará para as próximas gerações?

A compensação financeira pela irreversível degradação ambiental sofre considerável redução a cada ano

O que a sociedade itabirana deixará para as próximas gerações?
Mina da Conceição em Itabira- Foto: Reprodução/Vale
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Itabira- assim como a maioria dos municípios setecentistas de Minas Gerais- sempre foi extremamente dependente do extrativismo mineral. Este sistema industrial ainda é a mola propulsora da economia local.  A terra de Carlos Drummond de Andrade já passou por dois ciclos minerários: a era do ouro e, neste momento, assiste ao ocaso da exploração de hematita e itabirito.

Convenhamos. A natureza foi muita generosa com este diminuto sítio do planeta. Mas nada é de graça nesta existência. O meio ambiente cobra elevado custo pela sua espontânea benevolência. Não se iluda.  Itabira, agora, tem um encontro marcado com o seu débito natural. As consequências da nova realidade já se fazem sentir. A compensação financeira pela irreversível degradação ambiental sofre considerável redução a cada ano. CFEM é “o nome da emoção”.  Um exemplo numérico ilustra o prenúncio de tragédia anunciada. A tal CFEM previa um aporte de R$ 191, 5 milhões nos cofres públicos em 2025. No final das contas, porém, este valor despencou para R$ 164, 1 milhões. A diferença representa significativa queda de R$ 31,7 milhões.  Um tombaço.

Este cenário sinaliza para um período de intensa instabilidade.  Mesmo porque, a repetição do impactante contratempo financeiro provocará graves lesões aos cofres públicos. A isolada ocorrência, no entanto, se transformou em didático alerta à sociedade itabirana: é necessária a busca por alternativas à mineração. É hora de se debater seriamente a tão decantada- até em versos drummondianos- diversificação econômica.  A mineradora Vale promete permanecer na área por mais 27 anos. A antiga “joia da coroa” garante que continuará entre nós até 2053.  Este malabarismo de se minerar sem causa (cadê o minério?) é paliativo fundamental, já que  riqueza do subsolo  não dá duas safras. Ainda bem!  Enfim, resta prazo suficiente para se impedir que Itabira retorne ao status de “cidadezinha qualquer”, sem eira nem beira.

Esta caminhada não tem retorno. Mesmo porque, pesquisas geológicas não apontam a possibilidade de nova fase de minerais e rochas. Afinal, não há evidências de terras raras nesta zona toda.  A bola de cristal dos técnicos, portanto, não mostra inédita jazida salvadora da pátria.  Então, diante do exposto, é importante especular.  Como ficará a paisagem socioeconômica   em um futuro nem tão distante? O amanhã amanhecerá sob o signo de Itabira ou Mato Dentro? A resposta a esta provocativa pergunta já deveria estar na ponta da língua da sociedade organizada. O silêncio, neste caso, é forte sintoma de consciente irresponsabilidade. E pior. As próximas gerações pagarão o pato pelas atuais omissões nossas de cada dia. A turma mais jovem corre sério risco de herdar apenas degradações e imprecisões. O porvir desta gente será em Itabira ou numa “cidadezinha qualquer”?

P S: Minério não dá duas safras. Ainda bem! Do contrário, o buraco de Itabira seria bem mais embaixo. Há males que vem para o bem

Sobre o colunista

Fernando Silva é jornalista e escreve sobre política em DeFato Online.

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