O que é boato e o que leva a crer que notícia do reajuste do minério pode virar fato
Enfim o reajuste do minério de ferro traz uma novidade interessante. Após semanas em stand by, a rodada de negociações na China traz o rumor de que a Vale está disposta a aceitar um corte temporário de 40% nos preços. Primeiro de tudo, é preciso avaliar a chance de ser apenas boato e a de […]
A Vale imediatamente negou. "Não houve nenhuma mudança de postura da Vale em relação às negociações de preço". Alguns indícios roubam um pouco o crédito das afirmações da Cisa (China Iron and Steel Association). Vamos aos argumentos:
Boato
A mineradora brasileira tentou um reajuste extra de preços, sem sucesso, no final do ano passado. O argumento era que as mineradoras anglo-australianas haviam conseguido preço maior, que precisava de ajustes em relação ao da Vale. Para este ano, ficou esta pendência. A Vale já indicou que espera um primeiro passo de BHP ou Rio Tinto para, aí sim, sinalizar seus contratos. Provavelmente, espera pelo preço das rivais para embutir este reajuste extra, que considera o recuo das taxas de frete.
Lá fora, a repercussão da notícia para BHP e Rio Tinto foi praticamente nula. Nenhuma novidade das rivais pode sugerir ausência de novidades para a Vale. O mercado parece não ter levado tanta fé no discurso da Cisa. As ações caíram forte, mas nada discrepante do que sugeria a tendência da bolsa no dia. Há ainda outro argumento de destaque, lembrado por Carlos Matos, editor para América Latina da Steel Business Briefing.
"O CEO da Rio Tinto recentemente minimizou as apostas de queda de 40% no benchmark, após a Vale negar a existência de descontos nesse patamar acontecendo e, de fato, os preços spot ainda não caíram 40%, recuaram coisa como 25% em relação ao pico de janeiro".
"De certo modo, parte da atual queda nos preços spot se deveu aos rumores de recuo e concessão de descontos por parte da Vale e demais mineradoras", completa Matos.
Fato
Se a própria Vale negou o corte temporário de 40%, é prova que ele não existe. Errado. Lembrando da recente tentativa da brasileira em conseguir reajuste extra de 12% em seus contratos; na ocasião, a primeira iniciativa da Vale também foi de negar os rumores. Depois, viria a confirmá-los.
Outra questão que liga o rumor a fato diz respeito a datas. Jayme Alves, da Spinelli Corretora, lembrou que no próximo dia 1º de abril começa a vigorar o novo ano do minério. Sendo assim, está para acabar a abrangência dos contratos firmados no ano passado, ficaria uma lacuna caso não venha alguma confirmação.
Como a possibilidade levantada é de um reajuste temporário, ainda com um pagamento retroativo com o novo preço oficial, que pode ser diferente, a medida pode, por hora, completar esta lacuna até os preços serem oficializados. Também leva o nome da Cisa no anúncio, que já foi reconhecida pelo governo chinês como a agência responsável pelo lado siderúrgico das negociações, junto da Baosteel.
E a ação, como fica?
Na sexta-feira a notícia não trouxe uma reação tão discrepante para as ações da Vale. Por outro lado, diversos analistas assistiram o desenrolar da questão com muita aversão. Se confirmado o reajuste indicado pela Cisa, é consenso que as ações vão cair no curtíssimo prazo.
No saldo das opiniões, A Link utilizou o termo "muito pior" do que estava se esperando, assumindo que se o rumor virar fato, o cenário é desafiador. O problema é que depois de projeções muito cautelosas, a leve melhoria de cenário do começo do ano tornou queda de 40% nos preços teto para o que os analistas vinham estimando.
"Se confirmando, a tendência é de dar uma pressionada no preço das ações da Vale, apesar de que o valor atual das ações da Vale já embute um cenário bem negativo", resume Jayme Alves. "Então é obvio que é uma notícia ruim, que pressiona, mas não deve perdurar muito tempo."