O zumbido ainda presente de Palmares: a psicanálise como discurso antirracista e os possíveis campos de superação e expressões artísticas
A discriminação racial é um sintoma social que atravessa o individual e o coletivo, impactando a saúde mental e seu funcionamento subjetivo

Pode-se afirmar como um marco importante no pensamento meta-científico da atualidade, que o método psicanalítico proposto por Sigmund Freud representa uma revolução intelectual significativa para distintas correntes de pensamentos filosóficos, sociológicos e principalmente psicológicos. A proposta do inconsciente como uma instância estruturante da nossa vida psíquica, nos possibilita a esquematização de ideias relacionadas aos nossos impulsos e seus possíveis destinos, considerando, intrínseco, nossa condição humana em sociedade, conferindo um modo de tratamento que possibilita algum acesso à dimensões subjetivas a cada sujeito, em cada uma das realidades psíquicas e seus modos próprios de funcionamento. Ainda que o surgimento da psicanálise tenha sido em um contexto culturalmente europeu, as diferentes configurações raciais da humanidade são relevantes a ela por se tratarem de questões inteiramente ligadas as vulnerabilidades e condições de vida dos sujeitos. A discriminação racial é um sintoma social que atravessa o individual e o coletivo, impactando a saúde mental e seu funcionamento subjetivo. Sabemos que a psicanálise enquanto método e proposta de tratamento psíquico, debruça-se em um por um, um inconsciente por vez, não é uma clínica das conjunturas mas sua atuação necessita a consideração dos atravessamentos desse social enquanto um Outro ordenador e muitas vezes hiperativo em modos de gozo, configurando um tipo de laço que transcorre o dentro e fora ao mesmo tempo, no continuo do sujeito em suas relações. Através da fita de Möbius podemos ilustrar o argumento freudiano de que o individual e o social estão entrelaçados, não sendo possível separa-los.
O Brasil é um país que tem em sua concepção os povos indígenas como originários e em seu processo colonizador há também a mancha da escravização de outros povos sequestrados de suas origens, em sua maioria africanos, em torno desses, a estrutura racista e a inferiorização de pessoas pretas e pardas infelizmente ainda é observada nos diversos segmentos da sociedade e perpetuado dentro das instituições sociais, essa característica não se deve apenas ao fator econômico, mas também ao que persiste das influências desse processo de colonização no território brasileiro, como uma herança histórica da realidade de exploração e dominação escravista, com efeito de desigualdade social e racismo estrutural, cujo os impactos moldam a sociedade brasileira até hoje. É curioso também ressaltar que o Brasil foi o último país livre a abolir a escravidão, e essa abolição ocorreu sem nenhuma política de reparação, favorecendo ainda mais a desumanização, a desigualdade socioeconômica e o surgimento segregatório das favelas. Atualmente essa reparação é timidamente reconhecida, não sem resistência, através, por exemplo, da política das cotas e dos programas de distribuição de renda, na tentativa de contornar a longa caminhada de superação. O discurso capitalista parece diluir-se pelo aparato da justiça social, porém segue sendo um forte orientador coletivo.
O racismo estrutural é postergado de maneira ainda mais arrasadora quando observamos o que acomete as religiões de matriz africana, onde a deturpação de seus guias, vistos como anjos caídos e como espíritos de libertinagem inferiorizados, são maneiras não-sutis de manter sobre o povo preto e indígena um controle simbólico e colonialista, desmoralizando e demonizando suas práticas de fé. Isso configura-se como um ápice de dominação, muito além dos corpos, é desumanizar também a dimensão anímica de suas origens e mitos. Não basta apenas escravizar suas forças de trabalho, há também que destitui-los de suas espiritualidades. Se a violência pode ultrapassar os limites da humanidade, é por ai.
Em uma dimensão individual, tomemos como hipótese que o racismo implica a quem o sofre, uma experiência particular de vulnerabilização do corpo e sua identidade, cujo os fragmentos se ligam à noção do que seria a corporeidade preta, e aliena de maneira arbitrária, influenciando principalmente suas expressões estéticas. Particularmente observo, quando diante de casos que tenham sofrido algum agravo nesse sentido, inibições intelectuais e sociais advindas de uma espécie de assujeitamento psíquico inconsciente ao que é imposto pelos padrões ideias de um sistema ainda fortemente influenciado pela branquitude colonialista, fato não unanime, mas ainda impactante em sua maioria. Felizmente, ganha cada vez mais espaço e dimensão os movimentos de superação e valorização preta e seus empoderamentos, principalmente em decorrência da maneira horizontalizada em que as redes sociais nos configuram atualmente, possibilitando espaços democráticos nas relações de poder, descentralizando o saber, viabilizando a partilha e a construção em rede.
O dia 20 de novembro é marcado pela morte do importante líder da luta quilombola brasileira, Zumbi dos Palmares, e é reconhecido como o dia da conscientização negra no Brasil, data importante também para contemplarmos a vastidão das obras produzidas por artistas e escritores nacionais e internacionais em torno do tema, como sendo saídas possíveis de ressignificação e material de conscientização manifesta, funcionando como possibilidade de resiliência. Dentre os movimentos de superação, as produções individuais são costumeiramente libertadoras para a redefinição dos impactos vivenciados individualmente através da invenção de saídas subjetivas para essa condição, já no âmbito social (e isso também pode ser uma saída individual a medida em que se produz), as expressões artísticas em torno dessa luta compõe importantes criações de contornos e registros. Para a psicanálise o movimento sublimatório dos afetos caracteriza-se como um dos destino mais bem sucedido das pulsões.
A própria ideia de reconhecimento social ligada à sublimação é colocada em questão. Para Freud sublimação está relacionada ao desvio da pulsão (sexual / libidinal) para fins socialmente aceitáveis, em Lacan, conferimos que a sublimação não se trata meramente do desvio da energia pulsional, ele sublinha a presença da alusão ao vazio, o que consideramos uma mudança do estatuto do objeto (e não mais do objeto em si; ele agora deve ser elevado à dignidade da Coisa – de das ding) como condição da sublimação em vez de levar em conta apenas as mudanças de meta e objeto da pulsão. Como que, algo do campo das pulsões, que só pode ser pensado no campo das representações, recebe um destino mais bem sucedido, visando o valor social de uma obra, por exemplo. Ainda que a pretensão não seja a criação artística, o simples movimento de humanizar os discursos, algo da ordem de um bem-dizer, ou belo-dizeres, parece apaziguar nossa necessidade de significações.
A clínica individual possibilita recursos para superação de si através da análise pessoal da própria história e seus atravessamentos, inaugurando formas mais saudáveis de se estar e ser no mundo, para além do instituído socialmente. Paralelo a isso, mas não separado, as manifestações artísticas é também um espaço onde as organizações das conjunturas podem ser interrogadas e (re)dimensionadas, irradiando modos mais humanitários para os atravessamentos das nossas condições que se interagem em um Todo coletivo.
Mesmo sabendo que nem toda obra é sublimatória, observemos que as ações e expressões artísticas dentro da nossa cultura, bem como a difusão da arte em suas múltiplas linguagens, categorias e produções, se constituem como sendo fatores edificantes do tecido social de uma população/região, assim como também influenciam os costumes humanitários e ideológicos coletivos. A partir da ideia do fenômeno da sublimação, consideremos que, dentro do campo em que uma atividade artística se insere é, em alguma instância, um instrumento capaz de possibilitar a ascensão dos nossos sentidos, estando em relação ou não com as estruturas sociais vigentes, pois a arte é subversiva por natureza. Tais expressões são, por excelência, uma importante via de (re)significações dos aspectos que se estendem para além da nossa configuração histórica, sendo também capaz de produzir meios de acesso a informações e interpretações das nossas condições existenciais, produzindo, a depender da posição subjetiva, impactos e emancipações dentro da sociedade, possibilitando a concepção e valorização do humano, e pelo sensível de seu tocante, a elevação de algo que nos organiza como semelhantes: nossos sentimentos.
Sobre o colunista
Rafael Mendes é psicólogo, especialista em psicanálise clínica e sociedade.
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