Ao concluírem o ensino superior ou técnico, há pessoas que acabam atuando em áreas diferentes daquelas para as quais se prepararam. Por falta de oportunidade na área de formação, questões salariais ou desilusão com a profissão escolhida, as pessoas procuram novos trabalhos e oportunidades. Os planos profissionais estabelecidos anteriormente são adiados e até passam por transformações.
A servidora pública Jacqueline Drumond, 32 anos, concluiu o curso de Turismo e Gestão em Hotelaria pela Universidade Fumec, em Belo Horizonte, em 2004. “O interesse pelo curso surgiu em uma época em que o setor turístico vinha sendo apontado como uma área promissora de trabalho. Mas, com uma realidade bem diferente do esperado, optei pelo setor público, já que tinha experiência em atividades administrativas”, explica.
Dois anos depois, concluiu pós-graduação em Gestão de Pessoas pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), visando a novas oportunidades de trabalho. “Quando me formei e optei em não trabalhar na área, confesso que fiquei um pouco decepcionada. Com o início da pós-graduação, conheci vários profissionais com formações diferentes da área em que atuavam e obtiveram sucesso em suas atividades”, comenta. Em 2008, Jacqueline passou no concurso para a Prefeitura de Itabira, onde trabalha como assistente técnico administrativo. Ela pensa em trabalhar com turismo se houver concurso público específico para a área: “Não tenho a intenção de voltar para o setor privado, pelo menos no momento. O meu objetivo profissional hoje é trabalhar em algum órgão ou empresa pública no setor de Recursos Humanos. Por isso, estou sempre me preparando para outros concursos, seja na esfera municipal, estadual ou federal”.
A mudança de planos profissionais também aconteceu com Célia Mara Silva, 29 anos, que concluiu o curso de Enfermagem pela Universidade Presidente Antônio Carlos (Unipac), em Itabira, há um ano. Atualmente, trabalha como secretária em uma clínica. “Estou atuando em outra profissão por falta de oportunidade na área em que me formei. Acredito na minha realização profissional, porque foi a profissão que escolhi para atuar, e faço o meu serviço hoje com muita dedicação e responsabilidade”, relata.
Célia explica que sempre teve vontade de trabalhar na área de saúde para ajudar, de alguma forma, as pessoas que necessitam. Ela tem a intenção de trabalhar como enfermeira e está investindo na qualificação: “Quando surgiu o curso de Enfermagem aqui em Itabira, para mim foi a chance de realizar um sonho. Hoje estou cursando pós-graduação em Enfermagem do Trabalho, a fim de expandir ainda mais meus conhecimentos e área de atuação no mercado”.
A secretária lembra que há várias pessoas em situação semelhante à dela. “Acho que o motivo principal é o mercado de trabalho, que já está saturado em várias áreas. Acredito que possa melhorar um dia e surgirem novas oportunidades, mas, enquanto isso não acontece, é preciso seguir outros caminhos”.
Outra história parecida é a da secretária escolar Rosilene Conceição, 38 anos, que se formou em Pedagogia pela Unipac/Itabira, no ano passado. A motivação para fazer o curso partiu da vontade de se aproximar de crianças carentes. “Quero poder ajudá-las de alguma forma, no seu desenvolvimento intelectual, emocional, físico e espiritual. Por trabalhar em escola, mesmo sendo na área administrativa, minha visão é ampliada sobre o quanto as crianças precisam de ajuda, pois muitas são rejeitadas, agredidas e abandonadas”, afirma.
Ela acrescenta que é membro da Terceira Igreja Batista e trabalha com a evangelização de crianças. “O curso de Pedagogia é uma ferramenta para que eu possa desenvolver projetos sociais na área de alfabetização e aperfeiçoar a área de Educação Religiosa da igreja que congrego, principalmente dos cultos desenvolvidos para crianças”, explica.
Rosilene é secretária escolar há 14 anos, quando passou em um concurso público. Tinha curso técnico em Administração e Contabilidade e fez Ciências Contábeis por três anos. Ao sentir que estava no curso errado, abandonou-o. Um de seus planos é prestar concurso para orientadora educacional, mas há outro curso que gostaria de fazer: Serviço Social. “Ele iria me capacitar para enriquecer os trabalhos que realizo e abrir portas para outros que sonho fazer, como a abertura de uma casa-lar para abrigar crianças em situação de risco”, comenta .
Mudança radical
Realização de um sonho: esse é o sentimento do empresário Samir Ferreira de Brito, 29 anos, ao ingressar no curso de Medicina. O primeiro curso que fez foi Mecânica de Manutenção de Máquinas Operatrizes, concluído em 1997 no Serviço Nacional da Indústria (Senai) de Itabira. Depois vieram os cursos de Tornearia, Elétrica Industrial, Técnico em Mecânica e Auxiliar Administrativo. Também fez um ano de Sistemas de Informação e um semestre de Administração na Fundação Comunitária de Ensino Superior de Itabira (Funcesi).
“Fui funcionário da Vale durante 11 anos, como mecânico de manutenção de equipamentos pesados. Na empresa, participei de mais de 60 cursos voltados à área de manutenção, primeiros socorros, combate a incêndios, destinação de resíduos, resgate em áreas confinadas etc. Sempre tive interesse na área de Ciências e Tecnologia, por isso fiz tantos cursos voltados para o setor industrial”, justifica Samir. Hoje, ele é presidente da Associação dos Skatistas de Itabira (Askita) e proprietário de uma loja na cidade.
Mas, como surgiu o interesse pelo primeiro curso de sua carreira profissional? “Em 1995, minha mãe fez minha inscrição no Senai. Como já andava de skate, fiquei empolgado para cursar mecânica e consertar meu ‘brinquedo’. Fiz a prova e passei”, explica. Já a vocação empresarial apareceu quando Samir passou a vender peças de skate em casa para os amigos, para não precisarem ir a Belo Horizonte. “Em 2003, abri uma empresa que se expandiu e hoje é referência na cidade e região como polo de moda jovem, masculina e feminina. Amo essa profissão”, enfatiza.
Entretanto, uma vocação escondida por muitos anos ressurgiu: a de ser médico. Ele pediu demissão da Vale para buscar a concretização de seu sonho. “Sempre achei que seria médico ou cientista na infância. Fui para Belo Horizonte, fiz cursinho durante dez meses e passei no Rio de Janeiro e em Patos de Minas. Achei que era a hora certa para navegar em novos oceanos e realizar o sonho de infância. Como declarei na edição nº 200 da revista DeFato, é preciso mudar a nós mesmos para mudar o mundo à nossa volta. Espero contribuir com a saúde do país no futuro”.
Orientação vocacional e escolhas profissionais
Nas seleções de emprego, constata-se a frequência de candidatos procurando trabalho para áreas diferentes das quais se formaram. É o que aponta a psicóloga Daniela Monteiro Santos Lage, que trabalha em uma agência de recrutamento profissional em Itabira. “É importante ressaltar que o fato de ter formação em uma área e atuação em outra não é algo ruim; é uma consequência do mundo globalizado em que vivemos e é sinônimo de versatilidade, de busca por outros caminhos para atingir objetivos. A escolha profissional não é algo rígido e essas mudanças podem acontecer; o que é preocupante é o grande número em que isso acontece em nosso dia a dia”, afirma.
Ela acrescenta que essa situação está relacionada a diversos fatores. “Muitas vezes, após formados, os profissionais não encontram oportunidades no mercado. Ou desistem de atuar na área antes mesmo de terminar o curso, por já estarem em outra. Deparamo-nos com situações de descontentamento em que muitos profissionais continuam estudando simplesmente para completar a formação”, explica a psicóloga, ressaltando que grande parte das pessoas percebe que não tem paixão pela profissão escolhida quando já está atuando.
Daniela Lage diz ainda que o adolescente sente-se pressionado a escolher uma profissão entre várias oportunidades existentes. “Sem um processo adequado de orientação profissional, ele acaba escolhendo aquelas profissões que conhece mais ou as mais prestigiadas”, relata.
Ela recomenda que a escolha da profissão deve contemplar os anseios pessoais do jovem, mas sem desconsiderar a realidade do mercado de trabalho. “Aliar essas questões no momento da escolha resultará numa decisão consciente e madura. A orientação profissional é uma medida preventiva, que visa a auxiliar o jovem no processo de maturação em relação à escolha. Cabe mencionar que o retorno financeiro está muito mais relacionado à postura do profissional frente ao mercado de trabalho do que às efetivas condições que o mercado oferece”, aponta.
Outros caminhos
Ao concluírem o ensino superior ou técnico, há pessoas que acabam atuando em áreas diferentes daquelas para as quais se prepararam. Por falta de oportunidade na área de formação, questões salariais ou desilusão com a profissão escolhida, as pessoas procuram novos trabalhos e oportunidades. Os planos profissionais estabelecidos anteriormente são adiados e até passam por […]
Outros caminhos
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Outros caminhos
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