Passagem de comando

Lorena Lage, filha de Márcio Lage e Rose, sócios da rede Nova América de supermercados, em Itabira

Passagem de comando

Reportagem publicada na edição 268 da Revista DeFato

Lorena Duarte Almeida Lage, 24 anos, cresceu ouvindo os pais conversarem sobre contas a pagar, a receber, contrato com fornecedores e estratégias de atrair e fidelizar clientes. Ela é filha de Márcio Lage e Rose, sócios da rede Nova América de supermercados, em Itabira.

Quando completou 19 anos, não tinha dúvida sobre sua aptidão profissional: queria seguir os passos dos pais e entrar de cabeça no varejo. Formada em Gestão Comercial, Lorena fez também o curso Gestão Nota 10 na Associação Mineira de Supermercado (Amis), voltado exclusivamente ao setor. Ela representa a terceira geração da família Nova América.

Com a inauguração da mais nova loja da rede, no bairro Gabiroba, Lorena assume uma posição estratégica dentro da hierarquia da empresa. Com as bênçãos de Márcio e Rose, se tornou diretora geral da unidade, que tem nada menos que 65 funcionários – em breve serão quase 80. “Depois que a gente ultrapassa os 50 anos, temos que passar o bastão. Mas esse é um processo gradativo, não pode ser de uma vez só. E isso estamos fazendo com a Lorena, com muito orgulho”, conta Márcio Lage, no alto de seus 53 anos.

Apesar da pouca idade, a filha se preparou para esse momento. Desde pequena se interessava pelos negócios da família e dava claros sinais de que os pais poderiam contar com sua dedicação quando crescesse. Márcio e Rose garantem que não houve pressão em momento algum. Tanto Lorena quanto Robson, o filho mais novo, sempre tiveram a opção de escolher qual caminho seguir. “Fico muito feliz e orgulhosa de ver minha filha seguindo os nossos passos. Afinal, somos uma empresa familiar”, comenta Rose, cheia de sorrisos. 

As expectativas são boas para ambos os lados. Os pais, conhecedores da competência da filha, do seu conhecimento adquirido dentro e fora de sala de aula, não têm dúvida de que, para ela, missão dada é missão cumprida. Lorena, espelhada nos pais, sabe que poderá contar com o apoio e a expertise deles sempre que precisar. “Eles são os maiores exemplos de vida para mim. Exemplos de superação, de conquista, de sonho e de metas alcançadas. Agora estão separados, mas mesmo assim conseguem conviver bem e manter o negócio. São exemplo pra mim em tudo”, afi rma a nova diretora.

O Nova América do Gabiroba, situado situado  em uma das regiões que mais cresce em Itabira, foi pensado para ser a vitrine do segmento supermercadista local. “Uma loja para colorir os olhos”, resume Márcio Lage. Todo o projeto arquitetônico e de decoração foi inspirado nas lojas de departamento, de roupas e perfumaria que têm um brilho diferente. Em geral, supermercados não são assim. Como trata-se de uma necessidade básica, o cliente entra, faz a compra e vai embora.

“Queremos oferecer mais do que isso. Queremos que o cliente se sinta bem, que tenha pressa de sair”, ressalta. Para chegar à conclusão sobre como seria a loja, Márcio e Rose buscaram referência em várias cidades de grande porte, sobretudo as da Região Metropolitana de Belo Horizonte. O resultado foi um empreendimento à altura de Itabira, com 2 mil m² de área construída que abriga sacolão, açougue, padaria e floricultura, sem contar o amplo estacionamento. Lorena assume a gestão do empreendimento ao lado de uma equipe de gerentes e supervisores qualificada e bem treinada. Todos em prol de um único objetivo: o sucesso.

Lage e Filhos

O Nova América João XXIII (Comercial Lage e Filhos) foi inaugurado no dia 25 de agosto de 2001, com uma área de aproximadamente 400 m². Na época, Maria de Fátima foi transferida do supermercado do Bela Vista para assumir a gerência geral do novo estabelecimento, ao lado de Luciano e Nonô. Por volta de 2005, Rose Lage veio ajudar na gestão da loja. Em 2008, os três supermercados (Bela Vista, João XXIII e o de Santa Bárbara) foram divididos e Márcio e Rose assumiram defi nitivamente a unidade do João XXIII.

“No início foi difícil – a transição, a organização, a falta de espaço. Eram sete pessoas dentro de uma sala onde funcionava os setores comercial, administrativo, tesouraria, CPD, RH, etc. Um entra e sai sem parar de gente, mas dava certo”, conta Rose. Em 2009 surgiu a oportunidade de expansão do supermercado, que acabou dobrando de tamanho. O país estava em crise, como nos dias de hoje, mas a diretoria encarou os riscos e seguiu em frente. “Fomos ao banco, arrumamos financiamentos, vendemos nossa casa e fizemos a ampliação”, relembra Lorena. Com a ajuda de todos e algumas improvisações, foi possível, poucos meses depois, reinaugurar a loja, sob aplausos dos clientes.

As mudanças, contudo, não paravam por aí. Aos poucos o estabelecimento foi sendo reorganizado, os equipamentos trocados, os sistemas operacionais melhorados, numa constante evolução. As vendas também cresciam paulatinamente, bem como o número de funcionários. Os sonhos ficavam cada vez maiores. “Tínhamos vontade de montar outro supermercado, mas não havia local certo nem nada planejado. Foi quando surgiu a chance de abrirmos nossa primeira filial”, diz a nova diretora.

Mas como abrir um mega supermercado sem capital? Com uma pitada de receio, os empresários agarraram a chance e foram de novo atrás dos bancos, fornecedores e prestadores de serviços. No final deu certo, mais uma vez.

O que vem por aí

Assim como em 2009, uma onda de pessimismo assola a economia brasileira mais uma vez e a palavra crise voltou a ser dita com muita frequência. Para empresários como Márcio Lage, o contra- ataque é o investimento. Ele diz que muitos empreendedores se deixam levar pelo pessimismo e não melhoram seus negócios. “E é nessa hora que surgem as oportunidades de o empresário se fortalecer”, garante.

Ao longo de seus 25 anos de experiência no setor, Márcio (e todos os supermercadistas mineiros) já enfrentaram muitas difi culdades, como recessões, leis que mais atrapalham do que ajudam, escassez de mão de obra, entre outras. Todas, sem exceção, foram vencidas com doses diárias de otimismo, entusiasmo e muito trabalho.

Mais investimentos vêm por aí. Depois da loja no Gabiroba, a rede Nova América pretende abrir, nos próximos dez anos, pelo menos mais seis supermercados em diferentes cidades da região. O plano é audacioso e o desafio é grande. Tarefa compartilhada com a recém “empossada” diretora geral Lorena Lage.

Há 43 anos…

Nova América, hoje dividido em três empresas, foi fundado há 43 anos pelo empresário santa-mariense Robson Lage, conhecido como Juca, pai de Rose Lage. Começou como uma pequena mercearia, que mais tarde receberia o nome de Supermercado Nova América. Fizeram parte da sociedade na época também os irmãos Edson e Nilson. Juca conta que o começo foi desafi ador. Sem dinheiro e experiência, precisou muito da ajuda de parceiros e dos fiéis fregueses. “O início da minha carreira foi muito difícil. Eu lembro que a primeira mercadoria que chegou, eu não sabia nem botar preço, e meus vizinhos vieram me ensinar”, recorda.

Perguntado sobre o segredo para se manter tanto tempo no mercado, ele responde: “Falo que a primeira coisa é você gostar do que está fazendo. Nessa vida, não é o primeiro fracasso que faz você desistir. Venho para o trabalho e gosto de vir com roupa de passeio, bem barbeado e alegre. Venho arrumado todo dia, porque aqui é uma festa diária”, conta.