Patrimônio maltratado

Em Ipoema, ignorando placas que proíbem acampamento, turistas deixam rastros de sujeira em área de preservação ambiental

Patrimônio maltratado
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Não há quem não goste de passear por locais bonitos e de ter momentos de lazer com amigos ou familiares. Na região, há muitos lugares com vasta riqueza natural, como Ipoema e Cocais — distritos de Itabira e Barão de Cocais, respectivamente — e os municípios de Itambé do Mato Dentro e Conceição do Mato Dentro, conhecidos por receber visitantes e incrementar a geração de renda e a economia por meio do turismo.

No entanto, essas comunidades sofrem com a degradação provocada por visitantes sem consciência ecológica. Alguns destroem o local, não respeitam os moradores e deixam rastros de sujeira e desordem por onde passam. O turismo predatório, ao invés de benefícios, traz à cidade prejuízos e impactos ambientais, muitas vezes, irreversíveis.

Em Ipoema — um dos destinos mais requisitados entre aqueles do Circuito do Ouro e da Estrada Real — o incômodo gerado por turistas baderneiros motivou, recentemente, uma reunião para discutir maneiras de coibir o problema do som alto na localidade. O movimento partiu dos próprios moradores e encontrou respaldo nas autoridades presentes, como secretários municipais, representantes das polícias Militar e Civil, coordenadores do Departamento de Trânsito de Itabira (Transita) e do Setor de Posturas da Prefeitura.

O empresário Reinaldo Vieira, proprietário do Termas do Rei, relatou vários problemas às autoridades. De acordo ele, a situação está caótica e chegou a ficar insuportável no domingo seguinte à festa de aniversário do Museu do Tropeiro, promovida em 31 de março. “Frequentemente, a praça fica tomada de carros, um disputando o som com outro. Quem sofre com isso são os moradores. Esse tipo de turista nós não queremos”, assegura Reinaldo.

O lixo deixado por visitantes é outro transtorno enfrentado no distrito, principalmente quando ocorre em áreas das inúmeras e belas cachoeiras. Segundo o fotógrafo e empresário Roneijober Andrade, dono da pousada Tropeiro Real, o turista que provoca esses danos não traz sequer dinheiro para Ipoema. “Normalmente, já chegam com as bebidas compradas em supermercados, não gastam nada, não procuram valorizar o que é do local, e ainda deixam o lixo, depredando o meio ambiente de diversas formas. Essas pessoas sem respeito, apesar de serem minoria, não são os visitantes que queremos”, reforça.

O fotógrafo já registrou vários flagrantes de rastros deixados pelos maus visitantes, inclusive de acampamentos montados em áreas de preservação ambiental, onde uma enorme placa alerta a proibição de acampar. De acordo com Roneijober, recentemente, ele e duas turistas brasilienses foram a uma cachoeira recolher o lixo jogado. Havia latinhas, plásticos e vidros. A quantidade era tanta que o carro ficou lotado. “Temos uma infinidade de animais silvestres aqui, como veado campestre, lobo, raposa, onça parda, cachorro do mato, tamanduá, macacos, dentre outros e, infelizmente, esses bichos sofrem as consequências da presença de turistas predadores. Muitas vezes, os animais engolem plásticos, pegam doenças e têm seu hábito alimentar modificado, vindo a morrer em algumas circunstâncias”, diz o fotógrafo. 

Descaso

Itambé do Mato Dentro tem seis belas cachoeiras formando um balneário muito requisitado, principalmente, por turistas da própria região. Várias pousadas possibilitam boas condições de hospedagem, para que todos os atrativos sejam apreciados com conforto. No entanto, nas épocas de calor e festas, as belezas do local são frequentemente ameaçadas por turistas predadores.

Segundo Adauto Lúcio Lage, 51, dono de um camping na região, o hábito de deixar o som do carro no último volume, assim como ocorre em Ipoema, é o que mais incomoda tanto os moradores quanto os turistas ordeiros, aqueles que vão à cidade para descansar e, de fato, contribuir com a economia local. “Em propriedades particulares a área é cuidada. No meu estabelecimento, por exemplo, há regras e quem quiser permanecer aqui precisa cumpri-las e seguir o manual, atendendo à proibição de se fazer fogueira e respeitar as áreas de preservação ambiental em que as leis são claras. Infelizmente, em áreas livres isso não acontece.”, diz Adauto.

Falta de educação também é problema combatido na pequena Cocais, distrito de Barão de Cocais. O empresário Everton Lúcio de Paula, dono da Pousada das Cores, já vivenciou inúmeros atos contra a fauna e a flora locais. Repleta de cachoeiras e plantas típicas da região, Cocais sofre, especialmente, nas temporadas de verão.

“Já vi turista utilizar as raízes expostas de árvores centenárias como churrasqueira. Muitas delas já morreram por isso. Os animais silvestres também têm sofrido. Muitos se machucam enfiando o focinho em latas dispensadas na mata por turistas”, revela Everton.

Para ele, o próprio morador deve atuar como fiscal, denunciando os abusos às autoridades competentes. A degradação à flora, segundo o empresário, chega a ser absurda. No local há espécies de plantas, como orquídeas, que só são encontradas na região. Elas estão sendo arrancadas de seu habitat. “Já vi pessoas com o caminhão de outras cidades próximas levando as plantas para fazer ornamentação. Algumas podem pensar que é apenas uma mudinha que ela arrancou, mas se todos raciocinarem da mesma maneira, não vai sobrar nada”, argumenta.

Em Cocais está situado o Sítio Arqueológico da Pedra Pintada. O local preserva pinturas rupestres que têm entre 6 mil e 10 mil anos. No sítio, existem três grandes painéis que formam imagens de caçadores e suas presas, em desenhos de lobos guará, onças, veados e tartarugas. O atrativo recebe anualmente cerca de 2.500 turistas. Everton acredita que as relíquias só estão preservadas porque o sítio fica em uma propriedade privada, com uma família cuidando do local. “Do contrário, já estaria degradado também”, diz.

Caminho aberto

Conceição do Mato Dentro, a exemplo dos municípios da borda leste do Espinhaço Meridional, tem diversos atrativos naturais que compõem a paisagem de escarpas, canyons, cachoeiras, picos e serras. Um atrativo para os turistas é o fácil acesso aos pontos de visitação. Esse fator, de acordo com o secretário municipal de Meio Ambiente, Sandro Heleno Lage da Silva, faz com que os locais sejam bastante impactados por turistas que buscam, prioritariamente, a recreação, sem sensibilidade ou identificação com a natureza. “Pela facilidade de acesso, eles têm condições de chegar aos atrativos levando comidas, bebidas, carros com som alto, entre outros, sem a preocupação em voltar com o lixo produzido”, diz o secretário.

Os locais que mais sofrem com o turismo predatório no município são a Cachoeira Três Barras, o Parque Natural Municipal Salão de Pedras, Balneário Água Quente, Balneário Piraquara e o Balneário Baú. De acordo com o secretário, os atrativos de difícil acesso são explorados, geralmente, por turistas que têm respeito e afinidade com a natureza. “Para acessar tais áreas, as pessoas necessitam de horas de caminhadas em ambientes que exigem grande esforço físico e resistência”, afirma.

Em Conceição do Mato Dentro são realizadas ações de conscientização, sensibilização, além de operações de limpeza e controle de ocupações irregulares, especialmente para proteger os pontos turísticos em Unidades de Conservação Ambiental. Já nos atrativos localizados em propriedades particulares, segundo Sandro, os problemas são maiores e as ações do poder público ficam limitadas. “Nestas áreas observa-se grande quantidade de lixo, som alto, falta de estruturas sanitárias. O poder público é impossibilitado de atuar diretamente. Seu papel, então, se restringe em provocar o proprietário a realizar as ações necessárias”, esclarece.

Fiscalização

Quando se trata da fiscalização, principalmente em períodos de maior fluxo de pessoas, como férias e feriados prolongados, o coro é para clamar que precisa ser intensificada. Para o empresário e fotógrafo Roneijober Andrade, de Ipoema, órgãos como Ibama, Instituto Estatual de Florestas (IEF) e Polícia Militar do Meio Ambiente precisam estar mais presentes, advertindo turistas predadores e multando, se for necessário. “As pessoas buscam Ipoema pela qualidade de vida. Algo precisa ser feito, como blitze e fiscalização efetiva. Ipoema não pode ser terra de ninguém”, diz. “O turista consciente não joga lixo no chão ou na cachoeira. Não depreda. Ele respeita a cultura local, recolhe seu lixo e o leva de volta. Valoriza a comunidade e procura deixar algo em troca”, complementa.

Adauto Lúcio, de Itambé do Mato Dentro, diz que a população fica revoltada com a situação e que está sempre fazendo denúncias, principalmente contra a perturbação do sossego, por som alto.

O secretário de Meio Ambiente de Conceição do Mato Dentro, Sandro Heleno, aponta como solução para tantos problemas a regularização fundiária e implementação das Unidades de Conservação nas áreas legalmente protegidas, além do envolvimento das comunidades de entorno na gestão das unidades como forma de geração de renda. Outro elemento necessário, conforme Sandro, é a criação de unidades de gestão dos atrativos, promovendo redes de zeladores locais e a criação ou intensificação dos mecanismos de controle e educação ambiental e patrimonial continuada.

Competências

Procurada pela reportagem, a assessoria de imprensa do Ibama informou que o órgão não tem meios de realizar fiscalização efetiva e pontual nos municípios, o que deve ficar à cargo das prefeituras e da Polícia Militar de Meio Ambiente.  O órgão atua em âmbito Federal e, portanto, precisa que as pessoas denunciem as irregularidades.  Em relação a Itabira e região, a sede mais próxima fica em Belo Horizonte.

O comandante da Polícia Militar de Meio Ambiente em Itabira, tenente Márcio de Carvalho, diz que há patrulhamento diário na região. Nos locais de grande receptividade de turistas, ele é feito mediante denúncia, por iniciativa da própria polícia ou em operações programadas. Os estabelecimentos comerciais são visitados e recebem orientação sobre como dar destinação correta ao lixo. Ainda são promovidas campanhas educativas com os empresários que trabalham com turismo, a fim de que também orientem os turistas.