Perito atribui tragédia em Juiz de Fora a falhas de drenagem e gestão urbana, e alerta para risco persistente nas próximas semanas
Com 40 mortes confirmadas e 19 desaparecidos em Juiz de Fora, engenheiro perito que deu apoio técnico nas buscas aponta impermeabilização, obras sem prevenção e encostas sem avaliação como fatores centrais
O número de mortes após as chuvas na Zona da Mata chegou a 46 nesta quarta-feira (25), segundo atualização do Corpo de Bombeiros Militar de Minas Gerais (CBMMG) às 15h17. Em Juiz de Fora, são 40 vítimas fatais e 19 pessoas desaparecidas; em Ubá, seis mortes e duas desaparecidas. As operações seguem em oito frentes de trabalho, com 87 bombeiros empenhados em Juiz de Fora e 22 em Ubá. O balanço ainda aponta 3 mil desabrigados e 400 desalojados em Juiz de Fora.
Em meio às buscas, o engenheiro civil e perito aposentado em sinistros Gerson Ângelo José Campera, que presta apoio técnico na cidade, avalia que o volume de chuva, por si só, não explica a dimensão da tragédia durante entrevista com a DeFato Online. O especialista atuou na avaliação de grandes desastres como o rompimento da Barragem de Macacos, ruptura do Viaduto Batalha dos Guararapes e da Barragem de Rejeitos de Mariana e Córrego do Feijão/Brumadinho.
“Existe uma disciplina em engenharia chamada hidrologia que estabelece as curvas de precipitação pluviométrica durante um ano inteiro, janeiro e fevereiro são o auge. O que acontece é que os responsáveis pelas instituições públicas não tomam as providências, principalmente de drenagem: bocas de lobo, galerias, caixas de retenção, bacias de acumulação. A chuva não pode virar desculpa para dizer que foi ‘fatalidade’”, avaliou.
Na leitura do especialista, a urbanização intensa e a impermeabilização do solo aceleram o escoamento da água e ampliam a vazão nos pontos baixos. Ele cita que, sem obras e soluções de controle de velocidade e retenção, como bacias de acumulação e canaletas, a água ganha força e “corta” tudo o que encontra pela frente.
O perito também chama atenção para um dado sobre a regularidade das edificações cujo desmoronamento acometeu em mortes na Zona da Mata. “No lado que você vai ver em Juiz de Fora, 90% dos óbitos são em regiões formalizadas, com desenvolvimento urbano. Não é pessoal de invasão e de construção clandestina. E como isso pode acontecer se foi tudo aprovado, teve arquiteto, teve engenheiro, a prefeitura aprovou? Porque não observaram as questões geotécnicas das encostas”. Para Campera, isso evidencia falhas de avaliação geotécnica e de drenagem adequada, além de intervenções acumuladas ao longo do tempo, que reduzem a permeabilidade do solo e alteram o comportamento da água em períodos críticos.
Sobre o trabalho de resgate, ele explica que a retirada de entulho exige cautela e, em alguns cenários, não pode avançar enquanto há risco de novos deslizamentos. Remover terra deslocada, por exemplo, pode desencadear novas rupturas. Segundo ele, as equipes recorrem a tecnologias e procedimentos como cães treinados, geofones, câmeras termográficas e microcâmeras com cabos para varredura de espaços entre escombros. O entrevistado menciona ainda o uso de bolsas infláveis para aliviar peso de estruturas e permitir ações com menor risco.
Campera alerta que o período chuvoso ainda pode se estender até o fim de março e que a saturação do solo tende a agravar instabilidades, especialmente em regiões com relevo mais inclinado. Para moradores, ele recomenda atenção a sinais estruturais após chuvas intensas, como fissuras e trincas em paredes. Em especial, aponta as trincas em diagonal (próximas de 45 graus) como indicativas de possível recalque diferencial, quando uma parte da edificação cede mais do que outra, situação em que a orientação é acionar um profissional habilitado para avaliação.
Na entrevista, o perito critica a prática de “maquiar” sinais com reparos superficiais e afirma que a abordagem preventiva ainda é minoritária no país. Ele defende que vistorias técnicas e manutenção regular são decisivas para reduzir riscos em imóveis, sobretudo em áreas sujeitas a escorregamentos e alagamentos, e avalia que parte das ocorrências se agrava por decisões tardias e falta de planejamento continuado.
Enquanto as buscas continuam na Zona da Mata, o CBMMG reforça a necessidade de seguir orientações das equipes em campo, evitar deslocamentos desnecessários em áreas instáveis e manter atenção a novos alertas meteorológicos e de risco geológico.




