Pesquisadores do Sul de Minas registram parte da história mineira apagada pelo racismo

Estudos inéditos resgatam memórias negras e indígenas do município Cabo Verde, localizado na região Sul de Minas

Pesquisadores do Sul de Minas registram parte da história mineira apagada pelo racismo
Pesquisadores sul-mineiros exibiram os documentários na Escola Estadual Pedro Saturnino de Magalhães. Foto: Mariana Ribeiro/DeFato

O quebra-cabeça da história mineira ganha mais duas peças importantes. Dois novos documentários produzidos por pesquisadores resgatam as presenças negra e indígena em um município com nome de arquipélago africano: Cabo Verde. 

O município é um dos mais antigos de Minas Gerais e está na região Sul de Minas, um local que costuma aparecer pouco nos livros de História e nos jornais. Assim, os documentários “Quando bate a alfaia Caiapó: Presença e resistência negra e indígena em Cabo Verde, Minas Gerais” e “Nas contas do Rosário: Espaços de memória, fé e (r) existência negra em Cabo Verde” vão na contramão desse apagamento.

Frutos das pesquisas acadêmicas do historiador  Luís Eduardo Oliveira, “Dudu Oliveira”, e da antropóloga Lidia Torres, as produções foram pensadas para serem exibidas em salas de aula. Para professores que desejam utilizar os filmes em seu plano de ensino, é possível exibir as duas partes separadas ou o compilado com cerca de 1h disponível no Youtube.

A pesquisadora Lidia Torres aponta a importância desse resgate para a história mineira e nacional. “É sobre Cabo Verde, é sobre o Sul de Minas, mas não só. É uma história formativa de Minas e do Brasil. Então, as irmandades que tiveram aqui aconteceram em vários lugares do Brasil. Esses apagamentos aconteceram em vários lugares. A gente está falando de memoricídio”, afirma a pesquisadora da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP).

Presença e resistência negra e indígena

O documentário “Quando bate a alfaia Caiapó: Presença e resistência negra e indígena em Cabo Verde, Minas Gerais” contesta a origem essencialmente branca do município.

“A partir das ações do governo e dessa elite cabo-verdense, nós temos isso institucionalizado. Então, a importância disso não é só para o povo negro. É para todo mundo que saiba que o povo negro tem raiz tão forte quanto o que eles chamam de ’fundador’. Eu penso que, num sentido educacional, a criança preta tem que estar no mesmo nível de conhecimento, de pertencimento e cultural que qualquer outra”, defende Luis Eduardo Oliveira.

Por meio de uma entrevista com o pesquisador do município vizinho Muzambinho, Tarcísio de Souza Gaspar, a dupla resgata a presença quilombola no território sul-mineiro. Além disso, registra o folguedo dos Caiapós, que, muito tradicional em Cabo Verde, é promovido por pessoas negras para marcar a presença indígena. 

A comunicadora Larissa Flora é cabo-verdense e apoia essa mudança de perspectiva sobre as presenças negra e indígena em seu lugar de origem. Larissa relembra a emoção de seu pai ao vê-la participando de uma apresentação Caiapó: “Agradeço por ter me permitido participar disso. Hoje, entendo as lágrimas do meu pai – um homem preto e pobre que teve que lutar pra construir a família dele”.

Espaços apagados

Já a produção “Nas contas do Rosário: Espaços de memória, fé e (r) existência negra em Cabo Verde” baseia-se na pesquisa mais recente do professor Dudu Oliveira para resgatar dois espaços negros que foram demolidos em Cabo Verde. 

O pesquisador Luis Eduardo de Oliveira estuda História Africana pela Universidade Federal de Alfenas (UNIFAL). Foto: Mariana Ribeiro/DeFato

O primeiro deles é a igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos e seu cemitério, onde funciona um parque infantil atualmente. Outra igreja onde as pessoas negras cabo-verdenses faziam seus rituais era localizada no bairro Chapadão e também foi demolida. 

Além disso, Dudu Oliveira mostra a casa onde a Irmandade em Louvor à Nossa Senhora do Rosário se reunia. No local, funciona um banco agrário atualmente.

O pesquisador explica que esse apagamento ocorreu por dois mecanismos: o memoricídio e a institucionalização do esquecimento. “Não é culpa de quem ensinou. É um processo. E a gente carrega esse processo nas costas. Eu trabalho com dois conceitos: a morte da memória e a institucionalização do esquecimento, que é fazer com que essa morte seja esquecida”. 

Assista às produções na íntegra: