“Pior que o coronavírus foi o desrespeito à mim e minha família”, desabafa primeira paciente com covid-19 em Monlevade

Em entrevista exclusiva à DeFato, mulher de 36 anos relatou os desafios diários após testar positivo para o covid-19

“Pior que o coronavírus foi o desrespeito à mim e minha família”, desabafa primeira paciente com covid-19 em Monlevade
Paciente relatou os desafios superados a partir do diagnóstico do coronavírus – Foto: Cíntia Araújo/DeFato Online

A reportagem da DeFato entrevistou, com exclusividade, a primeira paciente com caso confirmado de coronavírus em João Monlevade. Ela, que tem 36 anos, relatou todo o histórico, desde a manifestação dos primeiros sintomas, passando pelo diagnóstico e cura, até a retomada da rotina. A paciente prefere que não se divulgue nome ou local de trabalho, apesar de amplamente comentado em redes sociais. E justamente essa exposição foi um dos pontos mais difíceis que ela e sua família tiveram de lidar, além, claro, da covid-19.

“Pior que o coronavírus foi o desrespeito à mim e minha família”, desabafou.

A paciente contou que no dia 28 de março começou a se sentir indisposta, com uma leve dor de garganta. Ainda assim ela manteve sua rotina, que era exclusivamente de casa para o trabalho e vice-versa. “Não viajei, não tive contato com ninguém que estivesse gripado. A última vez que viajei foi em janeiro, ainda assim para Belo Horizonte. Então não identifiquei que poderiam ser sintomas do coronavírus” explicou. Em poucos dias os sintomas evoluíram para náuseas, vômito e falta de apetite. “Fui ao médico ciente de que poderia ter um diagnóstico para labirintite”, declarou.

Já no consultório particular, o médico pediu uma série de exames, como hemograma e tomografia do pulmão. Foi aí que se acendeu o alerta. “Foi diagnosticado um alto número de anticorpos e minha tomografia deu alteração, como se eu estivesse com bronquite. Meu médico então pediu que eu fizesse o teste rápido. Em Monlevade ainda não tinha, então fui até São Gonçalo do Rio Abaixo, acompanhada, porque estava indisposta para dirigir. Em um laboratório particular paguei R$270,00. O resultado saiu logo depois. Testei positivo para o coronavírus”, declarou.

Questionada se o resultado a assustou, ela disse que sim.

“Não viajei, não tive contato com ninguém doente. A transmissão foi comunitária. Peguei o covid-19 em Monlevade”, disse.

A partir do resultado, o médico e a Secretaria Municipal de Saúde foram notificados. E quando se divulgou o boletim informativo, que confirmou o primeiro caso de coronavírus na cidade, teve início mais um desafio para a paciente: lidar com a exposição e julgamentos.

Invasão de privacidade

No boletim não consta o nome da paciente, sua ocupação ou qualquer forma de identificação. A DeFato, em todas as suas publicações sobre os casos confirmados e suspeitos, mantém a mesma postura de preservá-los. Ainda assim, vários internautas começaram a divulgar e opinar sobre a situação, já tendo identificado quem era a paciente.

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“Falaram sobre o local onde moro, meu local de trabalho, minha família. Começaram a expor a situação de uma forma totalmente desnecessária, sem qualquer utilidade pública, apenas por curiosidade. O desrespeito a mim e à minha família foi algo que me assustou muito”, desabou. 

Ainda segundo a mulher, a mãe dela, que já é idosa, teve picos de pressão alta diante da situação.

“Começaram a julgar meus hábitos, minha rotina. Antes de ser diagnostica, eu já cumpria todos os protocolos da Organização Mundial da Saúde. Minha mãe eu via do portão de casa, a uma distância de três metros. Como foi muito especulado sobre minha identidade e boa parte da população já sabia, alguns tratavam minhas irmãs e minha mãe com preconceito e desrespeito. Me ligavam não por solidariedade ou preocupação, mas por mera curiosidade”, disse. 

Recuperação

Para poder se recuperar, a paciente seguiu à risca as orientações médicas. Inicialmente ela ficou de repouso absoluto e a única medicação que tomava eram antitérmicos prescritos pelo médico. Importante destacar que em momento algum ela precisou ser internada. Além disso, as pessoas com as quais ela conviveu neste período, nenhuma testou positivo para o covid-19. “Eu só me preocupava em alimentar bem e seguir as orientações. Tive o acompanhamento do meu médico e da Vigilância em Saúde. E claro, o apoio à distância dos meus familiares e da minha chefia”, disse.

Mais de duas semanas depois ela voltou ao médico e só voltou a trabalhar após liberação dele e da Visa. Questionada se ainda sente algo, ela afirmou que sua função cardio-respiratória ainda não está normalizada, mas que retomou a rotina de antes do diagnóstico de coronavírus. “Continuo saindo quando necessário, utilizo máscara o tempo todo e não visito ninguém. É de casa para o trabalho e do trabalho para casa”, enfatizou.

Mais solidariedade

Ao final da entrevista, a mulher deixa uma mensagem a todos.

“Me julgaram como se eu tivesse trazido o covid-19 para João Monlevade. É preciso termos mais solidariedade e respeito ao próximo. Queria muito que aqueles que expuseram a mim e à minha família com tanto afinco, utilizassem essa mesma força de vontade para ajudar os que precisam, levar uma cesta básica, uma informação de qualidade. Tomara que todos tirem algo de positivo dessa situação. Meu relato é justamente para isso: para fazer da minha experiência um real serviço de utilidade pública”, finalizou a mulher. 

 

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