Poesia das ruas
Versos e rimas fazem parte do dia a dia na terra de Carlos Drummond de Andrade. Se de um lado os poemas e memoriais relembram a arte do Poeta Maior, do outro o rap, ou movimento hip hop, ganha forças e toma conta das praças de Itabira. Muito além de elaboração de músicas, o crescente […]
Versos e rimas fazem parte do dia a dia na terra de Carlos Drummond de Andrade. Se de um lado os poemas e memoriais relembram a arte do Poeta Maior, do outro o rap, ou movimento hip hop, ganha forças e toma conta das praças de Itabira.
Muito além de elaboração de músicas, o crescente movimento não se limita apenas à criação de versos com conteúdo, mas também busca promover a construção de igualdade social por meio de ações. Jeff erson Lucas, conhecido como Lukinha DDG, 22 anos, e Thiago Martins, o Thiago Skp, 25, atualmente são os principais nomes do rap na cidade. Mesmo jovens, já possuem algum tempo de carreira e usam da música como instrumento educativo.
Thiago começou a gostar do estilo ainda quando novo, ao ganhar de sua tia uma fi ta do cantor Gabriel O Pensador. Em 2006, o rapper começou a escrever suas poesias e criou o grupo Underground CIA. Em 2012, Thiago passou a cantar sozinho. O nome “Skp” vem da adolescência, apelido que usava em jogos nas lan houses.
Lukinha começou a gostar da música ainda jovem, aos cinco anos. Racionais MC’s foi o primeiro contato que ele teve com o rap. Também em 2006, ele fez parte de um grupo denominado Discípulos do Gueto, de onde vem a sigla de seu nome (DDG) e a partir de 2009 partiu para a carreira solo.
Não é apenas a trajetória que é comum entre os dois. Mesmo com carreiras distintas, os dois possuem a mesma visão sobre a música: educação, socialização e igualdade social. Thiago compara as ideias passadas pelas letras das músicas aos bons costumes ensinados por pais e professores. “A essência dos ensinamentos é a mesma, porém a forma como é passada na música faz com que os jovens se identifi quem”, disse. Skp destaca, também, que o conteúdo das músicas proporciona reflexões sobre situações cotidianas.
Em outubro, durante comemorações pelo aniversário de Carlos Drummond de Andrade, Lukinha, Thiago e outros rappers itabiranos subiram ao palco ao lado de Gabriel O Pensador. Para Skp, que começou na música por causa de uma fi ta do cantor, era a realização de um sonho. Para ele e todos os outros aquilo foi um baita incentivo para continuar a fazer rimas e poesias.
Em suas músicas, os itabiranos buscam expressar seus sentimentos perante situações do cotidiano. Lukinha conta que compõe de acordo com seu humor. “Falo sobre a vida, o amor, o romantismo, protestos. Escrevo o que o coração manda”, explica. Thiago não é diferente. Para ele não há rótulos sobre o estilo. “O rap é poesia e não fala só de protesto ou problemas sociais. A vida é poesia. E na vida a gente fica feliz, triste, protesta, ama, briga, e isso tudo entra no contexto da música”, conta.
Dentro desse contexto, os rappers se movimentam para oferecer, a partir de suas músicas, boas influências para os mais jovens. Em parceria, os dois idealizaram um projeto em 2011, que acontece até os dias atuais, chamado Amostra do Sarau Essência, que ocorre mensalmente em praças da cidade. O objetivo central é levar entretenimento de conteúdo a áreas de vulnerabilidade social e cultural.
O projeto ainda arrecada livros para serem distribuídos nas comunidades carentes levando literatura, palestras, workshops e entretenimento de uma forma diferente nas escolas e comunidades. “Qualquer ser humano tem direito ao acesso à cultura, mas ainda temos jovens que não estão nessa realidade, nunca sequer entraram dentro de um teatro “, afirmou Lukinha. Para ele ainda falta uma maior penetração nas comunidades, com auxílio de investimentos, para “ajudar a reencontrar a valorização da vida”.
Os poetas de rua vão mais além e acreditam na música como forma de combate à violência. Com o número de jovens infratores cada vez maiores nas cidades, os rappers veem a falta de cultura, entretenimento e oportunidades como parte das causas dos problemas. “Não tem papo de vítima, mas muitos moleques não têm informação sobre as coisas. Nas palestras tento passar não só o caminho da arte, mas falar sobre cursos profi ssionalizantes. Levamos conteúdo e informações”, indica Thiago.
Skp defende que a cultura é uma importante arma contra a criminalidade. Enquanto o jovem está ocupado produzindo algo, não há tempo para pensar em crimes. “A meta é levar conteúdo pensante, colocar um livro na mão do jovem pra que ele não tenha uma arma apontada para o seu ouvido”, afirmou.
O saldo é positivo e cada vez mais pessoas aderem ao movimento. As praças de Itabira, aos poucos, foram ganhando vozes ditadas por rimas. A seriedade do trabalho e a facilidade para uma maior divulgação contribuem para esse crescimento. “A persistência nos projetos, aliada a divulgação de materiais, videoclipes, músicas na internet, facilitou o aumento de participantes”, apontou Lukinha.
No entanto, a luta ainda não terminou, e o preconceito contra o gênero musical ainda dura e é forte. O fato de a música mostrar o que a sociedade não quer ver, ou se incomoda, pode ser um fator que ajude a manter esse tabu, pensa Thiago. “Julgam pela aparência e pelas origens do hip hop. O preconceito social e racial existe no Brasil e não podemos fechar os olhos para isso”, exclama.
Os jovens itabiranos ainda sonham com um maior espaço para o rap na grande mídia. O objetivo é fazer a mensagem chegar para que atinja cada vez mais pessoas, gerando mudanças e reflexões. “O mais importante é deixar a música com conteúdo em evidência, assim como as fúteis. Colocá-las como opções de escolha para os jovens”, defende Thiago Skp.
Em Itabira, os que se interessam pelos ideais do movimento, certamente encontrarão o som de uma batida acompanhado de rimas e poesia ecoando nas praças.
Itabira, terra de poetas.