Algumas pessoas da cidade, por sua maneira de ser e agir, acabam se destacando em meio à multidão. Divertidas, de bem com a vida e carismáticas, esses cidadãos são facilmente reconhecidos nas ruas por adultos e amados pelas crianças, integrando-se à comunidade. Foi desse jeito que Serafim Flamenguista, Tetéia, João do Beco e Luiz Menezes caíram na boca do povo em cidades da região. Talvez você já tenha esbarrado com algum deles por aí, mas conhece a história desses “caricatos”?
Luiz Menezes
Conhecido pela maneira excêntrica de anunciar seu produto, o vendedor ambulante Luiz Menezes, 52, é sucesso por onde passa em Itabira. Não há quem não escute o famoso grito rouco, demorado, com entonação estranha, e não identifique imediatamente quem está chegando. “Aê picolé Pinguim”… Esta é sua marca.
Nascido em Belo Horizonte, Luiz é o quarto de sete irmãos. Começou a trabalhar cedo, aos nove anos, lavando carros e como vendedor de picolé, em Contagem. Aos 11, comprou um carrinho de vender frutas e comercializava seu produto no Mercado Central de Belo Horizonte e num mercado em Contagem. Foi nesses locais que deu os seus primeiros gritos. “Eu chegava ao mercado às 4h da manhã e via o pessoal gritando, oferecendo suas mercadorias, então eu comecei a fazer o mesmo. Se não gritar, não vende”, diz.
Luiz Menezes veio a Itabira pela primeira vez em 1980, para conhecer alguns primos. Acabou conseguindo trabalho como açougueiro e em Itabira ficou por dois anos. Depois, morou em várias outras cidades, como Vitória, Ipatinga e João Monlevade. Morou também São Paulo, onde se casou e se separou.
Após várias idas e vindas, em dezembro 2002, Luiz, pai de quatro filhos, retornou a Itabira para se casar de novo, e para ficar de vez. Alguns meses depois, conheceu Geraldo Jiló, que também vendia picolé e o indicou para trabalhar na Sorveteria Pinguim. Desde então, há nove anos, Luiz Menezes percorre os bairros de Itabira anunciando, com seu jeito irreverente, o picolé que lhe tornou famoso.
Luiz adora o trabalho e diz que é muito respeitado. “Tem um condomínio fechado aqui em Itabira, que só eu como vendedor de picolé tenho permissão para entrar. Quando chego, o lugar pode estar vazio, mas é só gritar ‘Aê picolé Pinguim’, que rapidamente fica cheio de crianças e adultos querendo comprar”.
Mas a forma de anunciar já lhe rendeu problemas. Certa vez, Luiz apanhou de uma senhora que havia acabado de colocar o neto para dormir. “Ela veio com um cabo de vassoura e eu levei uma paulada nas costas. Veio gritando que eu tinha acordado o neto dela e que o menino tinha custado para dormir. Levei na brincadeira”.
João do Beco
O centenário João Arthuso Filho é figura marcante em São Domingos do Prata. Viúvo por duas vezes, o patriarca de uma família formada por 12 filhos, sete noras, quatro genros, 44 netos, 49 bisnetos e sete tataranetos é motivo de orgulho para a população da cidade. Apaixonado por Carnaval, João do Beco está sempre presente nas festas com fantasias irreverentes, samba no pé e muita disposição. “Apesar de as pernas estarem fracas, eu ainda acompanho os blocos”, garante. Ele integra a Velha Guarda do Bloco do Sujo, reconhecido por animar o Carnaval de rua dos pratianos. Neste ano, o aposentado participou, em João Monlevade, do concurso de blocos carnavalescos, conquistando o primeiro lugar.
O segredo para tanta jovialidade ele tem na ponta da língua: “Pegar o sereno da manhã, não apanhar o da noite, beber uma pinguinha no almoço, outra no jantar e duas morenas para dançar”, receita. O apelido vem de sua época de moço, quando, ao se casar pela primeira vez, foi morar em uma fazenda de nome Bequinho. Religioso que é, frequenta as missas de domingo e participa das festas da paróquia, como teatros. Somente o sacerdote Caifá, um dos responsáveis por entregar Jesus aos seus carrascos, ele interpretou em 35 Semanas Santas.
Brincalhão e sem temer a morte, João do Beco participa de todos os velórios que pode no município, com a intenção de “ganhar praça”, para quando chegar sua hora. “Pai deseja ser velado na Igreja Matriz (São Domingos de Gusmão) e já até escolheu morrer em um sábado”, conta a filha Ana Lúcia Arthuso Vasconelos, 64 , com quem João vive. Mas pelo jeito, esse dia ainda demora a chegar.
Atuante na comunidade, João do Beco é conhecido também por benzer animais e pessoas. Ele afirma ter aprendido com um cunhado. “Na verdade eu amaldiçoo os bichos (bernes)”, esclarece. Todavia, quando começou a ajudar a vizinhança, a dúvida o atormentou. Ele só ficou aliviado ao falar com o padre, que, após tomar conhecimento das palavras que usava em sua “benzeção”, o absolveu. “O padre disse que, se era em nome de Jesus que eu fazia as minhas orações, eu podia continuar ajudando”, afirma.
De bem com a vida, o viúvo permanece “fogoso” e planeja se casar novamente. Ele conta que até chegou a conversar com mulheres que estão viúvas na cidade. “Nenhuma teve coragem de se casar mais. Só querem a minha amizade”, conforma-se. Mas a filha Ana Lúcia revela que ele não desiste e que acredita “dar conta do recado”.
Serafim Flamenguista
O aposentado José Serafim Soares Filho, 62, o Serafim Flamenguista, é conhecido em João Monlevade por sua devoção ao Clube de Regatas do Flamengo. Desde a infância, ele perambula pelas ruas da cidade devidamente caracterizado com as cores do time do coração. Ficou famoso com o seu bugue personalizado. Sua casa é toda pintada de preto e vermelho.
Geladeiras, freezers, cama, teto, paredes, banheiro e até o sofá receberam um toque flamenguista. Muitos artigos que enfeitam sua casa são presentes de amigos. A coleção é tão vasta que Serafim ainda não teve ânimo para contar as peças. Objetos do dia a dia são personalizados, como os canecos de chope, a chopeira, o rádio, capacetes e qualquer outra coisa que possa vir a ser alvo de sua “obsessão”.
Serafim é casado com a cabeleireira Luzia de Oliveira Miranda Soares, 64, e pai de três filhos. A família convive com sua paixão pelas cores rubro-negras, respeitando a sua excentricidade. Mas o flamenguista confessa que, às vezes, passa do limite. Ele chegou a comprar uma caixa com 24 unidades de extrato de tomate só porque os copos traziam o escudo do time. “Joguei tudo fora e fiquei só com os copos”, detalha.
Sua fama vai além de João Monlevade. De acordo com o aposentado, por onde passa com seu bugue, municípios do Médio Piracicaba a Região Metropolitana de Belo Horizonte, chama a atenção e faz amizade. As pessoas costumam pedir para tirar fotos com ele no bugue. O seu maior sonho é voltar ao Rio de Janeiro em seu bugue para assistir ao clássico Flamengo x Vasco ao lado de amigos, curtindo as belezas da cidade maravilhosa.
Tetéia
Há 18 anos, o cambista Amaro Cândido Ferreira, de 63 anos, saiu de Bela Vista de Minas, onde reside, para trabalhar nas ruas de Nova Era vendendo bilhetes da Loteria. A maneira divertida de abordar as pessoas ao tentar vender os bilhetes lhe rendeu o apelido de “Teteia”, maneira como o próprio dono do codinome se referia às moças bonitas da cidade. Entre uma brincadeira e outra, Teteia conquistou não só a clientela, mas a admiração e amizade de todos que convivem com ele.
Carismático e comunicativo, ele é visto na cidade como um grande exemplo de vida. Isso porque, aos 20 anos, foi vítima de um acidente que provocou graves sequelas. O Jeep ano 62 que conduzia bateu na lateral de um caminhão na saída de João Monlevade para Bela Vista. Ele ficou inconsciente por 35 dias num hospital de Belo Horizonte. Ao despertar, notou que havia perdido a visão do olho esquerdo. No direito, possui apenas ¾ da visão. O lado direito do corpo ficou semi-paralisado, com a audição totalmente perdida desse lado.
Teteia se acidentou em 1968, num momento importante da vida, quando se preparava para viajar para a capital e tentar a sorte como jogador profissional de futebol. “Infelizmente, o acidente pôs fim ao meu sonho. Faria um teste no América”, diz. Mesmo assim, ele não ficou sentindo pena de si mesmo. O rapaz bonito e boa praça que arrancava suspiros das moças belavistanas não perdeu a fé e foi à luta, aceitando sua nova condição com serenidade e a missão de espalhar alegria.
Aposentado aos 22 anos, ele aprendeu cedo a se virar. Atualmente é arrimo da família e sua popularidade lhe rendeu o título de Cidadão Honorário de Nova Era. “Sou feliz, pois aonde vou sou reconhecido. Os encontros com as pessoas são sempre muito agradáveis e marcados por brincadeiras saudáveis”, assegura. A balconista de lanchonete Valquíria das Graças Moreira, 32 anos, o considera um guerreiro. Ela o atende todos os dias e, enquanto ele toma seu café, os dois colocam o papo em dia. “É um batalhador, porque comprova que a deficiência não impede ninguém de trabalhar honestamente. Teteia é muito querido, principalmente pelas crianças. É um verdadeiro patrimônio de nossa cidade”, conta a nova-erense.
Em meio às pessoas, Tetéia é mais um. A diferença deles e de tantos caricatos para o resto da multidão, é que, apesar de serem pessoas comuns, é impossível não percebê-los. Todos têm estampada de forma nítida na própria figura uma invejável alegria de viver. Que assim continuem…