Protesto, polícia e oração: novela Apac ganha mais um capítulo em Itabira
Manifestantes conversaram com o bispo Marco Aurélio Gubiotti, mas não permitiram entrada de representantes da Apac no terreno da entidade

A polêmica que se criou em torno da construção da sede da Associação de Proteção e Assistência aos Condenados (Apac) em Itabira ganhou mais um capítulo na manhã deste sábado, 20 de fevereiro. Uma celebração marcada para abençoar o terreno onde acontecerão as obras, na localidade de Córrego do Meio, acabou sendo palco para um protesto da comunidade, que é contra a presença da entidade na região. Até a Polícia Militar foi acionada.
O ato ecumênico foi marcado na mesma semana em que os moradores protestaram na Câmara de Vereadores e fizeram passeata no Centro da cidade. Eles também reclamam de uma entrevista do presidente da Apac, Danilo Alvarenga, a uma rádio de Itabira, em que, segundo os moradores, foram ofendidos. O presidente nega que tenha proferido qualquer xingamento contra a comunidade.
O clima ficou tenso. Os manifestantes cercaram a acanhada estrada de terra e não permitiram que os representantes da Apac e os líderes religiosos convidados entrassem na área doada pela União à associação. Houve muita negociação. Primeiro, o bispo Marco Aurélio Gubiotti foi conversar com os moradores. Ele recebeu várias argumentações. Representantes da comunidade questionaram ao líder da Igreja Católica se ele abençoaria o terreno mesmo com os moradores sendo contra a Apac na localidade.
Sempre calmo, o bispo defendeu a Apac e respondeu que abençoaria, sim, a entidade por tudo que ela representa. Interpelado por uma moradora que afirmou que a comunidade prefere no local o Parque Científico Tecnológico, dom Marco Aurélio disse que a área é muito grande e caberia, com tranquilidade, os dois projetos.
Nome na história
O terreno cedido pela União à Apac é pretendido por setores empresariais, governamentais e econômicos para abrigar o Parque Científico Tecnológico. Durante toda conversa, os moradores demonstraram muita clareza sobre o projeto, citando, inclusive, nome de empresas que já teriam manifestado interesse em se instalar em Itabira. “Duvido que a Siemens ou a Microsoft aceitariam vir para ficar ao lado da Apac”, disse uma representante comunitária.
Outro morador perguntou ao bispo se ele gostaria de escrever o nome na história de Itabira como uma das pessoas que atrapalhou a instalação do Parque. Nesse momento, a juíza da 2ª Vara Criminal, Cibele Mourão, também entrou na conversa. Ela defendeu a metodologia da Apac e respondeu a pergunta feita pelo morador ao líder católico: “Quero escrever o nome na história de Itabira como uma defensora da Apac, porque é nisso que eu acredito”.
O mesmo questionamento foi feito ao pastor Renato Rocha, da Igreja Presbiteriana de Itabira. Ele também defendeu a Apac como sendo “uma grande possibilidade de recuperar histórias”, mas mostrou-se mais maleável aos protestos. “Eu entendo a insatisfação de vocês. Se morasse aqui e não estivesse do outro lado, também ficaria apreensivo. Mas precisamos entender melhor os propósitos da Apac”, comentou.
Oração
Havia um combinado dos moradores com a Polícia Militar de que eles deixariam os representantes da Apac entrarem no terreno depois que conversassem com o bispo dom Marco Aurélio. Mas depois de todo diálogo com o líder católico, com a juíza e com o pastor evangélico, eles mudaram de ideia e disseram que se quisessem rezar deveria ser ali mesmo, no meio deles.
A “sugestão” foi aceita. Os representantes e os manifestantes se aglomeraram em um espaço demarcado com faixas pela Polícia Militar e fizeram uma celebração ecumênica. Depois de algum tempo, a maioria dos moradores se dispersou e se afastou um pouco, ficando mais perto de onde já era preparada uma barricada com pneus.
Ao fim da celebração, o presidente da Apac, Danilo Alvarenga, tentou argumentar com os moradores e houve um princípio de tumulto, logo disperso por moradores e representantes da associação. A manhã movimentada terminou com um café preparado pelos diretores da entidade. Enquanto se alimentavam, os moradores continuaram no ponto do protesto, com cartazes, faixas e a sensação de que novos capítulos ainda acontecerão.