Quem assistirá à passagem do último trem da Vale?

Há muito o minério deixou de dar duas safras

Quem assistirá à passagem do último trem da Vale?
O último trem da Vale deixará Itabira daqui a 27 anos- Foto: Divulgação/Vale
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A Vale anunciou, com muita pompa, embora sem circunstância, que continuará morando em Itabira até 2053. Alvíssaras! A mineradora nasceu na terra do poeta Carlos Drummond de Andrade há 84 anos. E nunca mais saiu de cá. A multinacional brasileira, portanto, se manterá na casa materna por mais 27 anos. Um recorde de permanência no aconchego familiar. Desta forma, a velha CVRD só abandonará o lar doce lar em idade provecta.

A extensão da longevidade no abrigo itabirano foi ótima notícia para a cidade. Por simples causa. O tempo extra será suficiente para a sociedade de Mato Dentro adotar outra filha. Ou melhor, outros filhos. Nesta trama, a tal diversificação econômica permitirá o aumento da prole. Até bastardos serão bem-vindos nesta altura do emblemático campeonato. Mas tem crucial detalhe. A exploradora de hematita e itabirito realmente não terá existência eterna nestas paragens. Então, cedo ou tarde, vazará na braquiara. Simplesmente pegará o boné e dará no pé. Sem dó nem piedade. Esta é a dura e irreversível realidade. Há muito o minério deixou de dar duas safras.

O cenário de futura despedida fez com que um trem de nome “trem” invadisse o meu imaginário. Não se espante. O uso da variação linguística é bastante natural. Afinal, sou das Minas Gerais. Defino-me meio ouro-pretano, meio itabirano. Ou vice-versa. No meu tempo de “criança pequena”, lá na eterna Vila Rica, sempre corria à “janela lateral do privilegiado quarto de dormir”. Essa maratona cotidiana tinha objetivo ímpar. O malabarismo era para acompanhar o deslizar do trem de ferro nos trilhos da Barra (um bairro). A minha visão do acontecimento extraordinário era quase mítica. Assistia tudo lá do alto, bem ao lado da Igreja de Nossa Senhora das Mercês de baixo. Observe a contradição barroca. De baixo via do alto. A imagem fascinava-me. A negra locomotiva- com um punhado de vagões- mais se assemelhava a uma serpente encantada. O enigmático “animal”, com as ventas cheia de fumaça, se rastejava lentamente rumo a Mariana.

A expectativa de outro enredo mais perturbador, aqui em Itabira, brota do meu inconsciente em forma de interrogação. Como será o desfile do último trem da Vale pelo mais icônico caminho das nossas vidas (a Estrada de Ferro Minas a Vitória)? Antevê-se algo muito triste de se ver. Mas, sem dúvidas, não terei a oportunidade de derramar “caudalosas lágrimas” por este fim. Esta certeza absoluta é fruto de dois motivos óbvios: já passei dos 17 anos de idade e não tenho vocação para Doutor Colombo.

PS: Nunca andei de trem. Aproveito para confessar o inconfessável. Nunca andei de trem. Apesar de meio itabirano, meio ouro-pretano. Que trem danado!

Sobre o colunista

Fernando Silva é jornalista e escreve sobre política em DeFato Online.

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