Resultado das eleições Argentinas pode afetar relação com o Brasil
As eleições podem também modificar a relação entre os dois países e a posição do governo argentino em acordos internacionais
Especialistas entrevistados pelo site Poder360 afirmam que uma eventual vitória de Javier Milei na Argentina pode impactar a relação entre os governos brasileiro e argentino, em face do alinhamento político e econômico oposto ao presidente do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). As eleições podem também modificar a relação entre os dois países e a posição do governo argentino em acordos internacionais.
A Argentina realizou eleições no último domingo (22) para a escolha do substituto do presidente Alberto Fernández. Javier Gerard Milei (La Liberta Avanza, de direita) e Sergio Massa (Union por la Pátria, de esquerda) se enfrentarão no segundo turno, em 19 de novembro.
Segunda maior economia da América do Sul e vigésima segunda do mundo, com um PIB (Produto Interno Bruto) US$ 632,77 bilhões, segundo o Banco Mundial. A Argentina é também o terceiro maior parceiro comercial dos brasileiros. O Brasil exportou US$ 15,34 bilhões e importou e importou US$ 13,10 bilhões do país vizinho em 2022, com um saldo de US$ 2,24 bilhões.
O diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE), Pedro Rodrigues, acredita que os acordos atuais e futuros entre os países podem ser abalados com a possível eleição de Milei, por causa da falta de alinhamento com o governo brasileiro.
Rodrigues cita como exemplo a construção do Gasoduto Néstor Kirchner, que custará US$ 689 milhões e o governo argentino espera um financiamento do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) para custear o projeto.
“Com a vitória do Milei, acredito que esse projeto possa azedar. O Brasil e a Argentina acabam se ajudando mutualmente. Acho que essas relações ficariam abaladas” E acrescenta: “qualquer tipo de acordo entre os países, que dependa de relação política serão complicadas” .
Volgane Carvalho, mestre em Direito pela PUC-RS e coordenador acadêmico da Abradep (Academia Brasileira de Direito Eleitoral e político), analisa que as propostas de Milei, podem sim, impactar nas relações com o Brasil, mas, ressalta que interesses privados de empresários dos dois lados podem minorar esse quadro.
Para Volgane, a “Argentina não pode prescindir da relação com o Brasil por causa da sua debilitada economia”.
Acordos Internacionais
Outro ponto em discussão é a possível entrada da Argentina na OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), que a Argentina busca a adesão desde 2022, assim como o Brasil.
Ana Saggioro Garcia, diretora do Centro de Estudos e Pesquisas Brics da PUC-Rio (Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e professora de Relações Internacionais da UFRRJ (universidade Federal Rural do Rio de Janeiro), avalia que ser “pouco provável que o país ingresse na OCDE antes do Brasil, especialmente se Massa for o vencedor da eleição em novembro”.
Milei deu declarações contra a continuidade do Mercosul, bloco de integração que congrega a Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai, além da Venezuela, suspensa temporariamente do grupo. Milei se referiu ao bloco como “união aduaneira defeituosa”.
A professora Ana Saggioro explica que “o afastamento da China por Milei poderia significar uma possível aproximação com a Rússia e o presidente Vladimir Putin. A extrema-direita internacional ligada a Donald Trump- ex-presidente norte-americano tem sido hostil à China, mas demonstra uma proximidade com a Rússia, então, o Brics não está tootalmente fora de cogitação”.
Fernando Haddad, ministro da Fazenda, admitiu preocupação com a possível vitória de Milei e acredita que a relação com a Argentina possa ser dificultada: “É natural que eu esteja preocupado. Uma pessoa que tem como bandeira romper com o Brasil uma relação de séculos, preocupa”.
Haddad se preocupa também com “o que pode ocorrer com o Mercosul se o acordo com a União Europeira (UE) não for fechado e a gente tiver um resultado eleitoral exótico no país vizinho”.
A relação com o Brics e com o NDB (Novo Banco de Desenvolvimento), pode também sofrer alterações a depender do resultado das eleições, , já que Milei já se manifestou ser contrário à adesão do seu país ao bloco. Em um dos seus discursos, disse “que não se alinharia a comunistas, mas sim com os Estados Unidos e Israel”.
A proposta de Milei para dolarizar a Argentina pode afetar a relação com a China, maior parceira comercial do país atualmente. Os países possuem um sistema de negociação baseado na moeda chinesa, o yuan, que permite que a Argentina utilize seus dólares para outros compromissos e outras operações.




