
Falta de dinheiro, de documentos ou de consciência. Qualquer que seja o motivo, os dias podem estar contados para as fazendas rurais de Minas, imóveis que carregam parte da história do estado. O valor patrimonial das construções, asseguram os especialistas, é equivalente ao da arquitetura urbana, mas a atenção recebida dos órgãos de preservação é bem menor. Sem o interesse dos próprios donos em manter e restaurar as características tradicionais, parte da memória do povo se desfaz aos poucos sob a ação do tempo. Por ser o local em que se concentram as principais forças representativas, na cidade, os casarões são tombados e recebem verba para reestruturação. O meio rural acaba ficando em segundo plano.
Sobre o tema, o professor itabirano Santos de Souza Guerra lançou, em 2007, o livro “A identidade do espaço rural itabirano: percursos novos em caminhos antigos”, em parceria com a Funcesi e o Ministério da Cultura. Foram dois anos de pesquisa que abrangeram, entre outros assuntos, o aspecto arquitetônico rural de Itabira. O livro reúne fotos, relatos e documentos de diversos casarões antigos, alguns dos séculos XVIII e XIX. A obra fez sucesso e já rendeu uma segunda versão, lançada em 2010.
Segundo o professor, só em Itabira são mais de 80 imóveis rurais com valor de preservação. Apenas um deles é tombado pelo Conselho Consultivo Municipal do Patrimônio Histórico e Artístico de Itabira (Comphai): a Fazenda Santa Cristina, que está em ruínas.
O que muitos suspeitavam também foi constatado pela pesquisa de Santos. Poucos são os atuais proprietários dessas casas que se interessam em preservá-las ou restaurá-las. “Como se trata de zona rural, por motivos diversos, muitos vendem suas propriedades e se mudam para áreas urbanas, em busca de oportunidades”, diz. Outros não abrem mão da vida na roça, mas reestruturar construções com 100 ou 200 anos não compensa financeiramente. Os materiais usados, como madeiras, que atualmente são protegidas por lei, são difíceis de encontrar e custam caro. A mão de obra também exige profissionais especializados.
Tombamento
Um meio – talvez o único – de preservar a importância histórica desses bens é o tombamento patrimonial, que pode ser feito em âmbito municipal, estadual ou federal. Ele impede que a arquitetura seja alterada ou substituída por uma construção mais moderna. Mas não significa que o dono receberá recursos da união, do estado ou do município para manter seu casarão em boas condições.
Ao tombar um imóvel, o município aumenta a pontuação do ICMS Cultural e recebe mais verba do estado. O dinheiro poderia ser aplicado na reestruturação das fazendas, mas é insuficiente. Para se ter um exemplo, Itabira recebeu R$ 131.653,47 de ICMS Cultural em 2009, divididos em 12 parcelas. Só a Toca do Leão, casarão antigo da rua Tiradentes, no centro, custou R$ 154.781,65. E o município tem 60 imóveis protegidos pelo Comphai. O tombamento sozinho não resolveria o dilema das fazendas, mas constituiria um importante avanço.
Obstáculo
A chefe da seção de Patrimônio Cultural da Prefeitura de Itabira, Wilma Terezinha di Lellis Almeida, afirma que o maior obstáculo para proteger os casarões rurais é a falta de documentos. “Não se pode tombar um imóvel sem saber a procedência dele. É preciso comprovar sua importância histórica”, explica.
Dentro da zona urbana, Itabira se tornou referência para o Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (Iepha) quando aprovou a Lei 3.797/2003, que criou o Programa de Revitalização do Patrimônio Cultural do Município. Atualmente, dos cerca de 60 bens imóveis tombados, 17 foram revitalizados com um total de investimentos de R$ 932.249,44. No entanto, nenhum deles é rural.
Para o futuro, não há boas previsões. No entendimento do professor Santos, as fazendas que não forem transformadas em pousadas ou adquiridas por pessoas com alto poder aquisitivo e consciência cultural, vão cair. Fica a esperança de que alguma iniciativa do setor público, privado e não governamental – ou a parceria deles – não deixe tais riquezas desaparecerem.