Se eles são os autores, por que só ensinamos as mulheres a se proteger?

Enquanto os índices de agressão continuam alarmantes, somos forçados a fazer uma provocação mais profunda e incômoda: quem está ensinando os homens a não serem violentos?

Se eles são os autores, por que só ensinamos as mulheres a se proteger?
Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil
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Em toda campanha de enfrentamento à violência doméstica e familiar, os holofotes se voltam quase exclusivamente para as vítimas. Ensinamos mulheres a denunciar, reconhecer sinais de abuso, buscar ajuda e romper relacionamentos perigosos. Trata-se de uma orientação vital, sem dúvida. Contudo, enquanto os índices de agressão continuam alarmantes, somos forçados a fazer uma provocação mais profunda e incômoda: quem está ensinando os homens a não serem violentos?

Se os homens figuram como os principais autores das agressões, as políticas de enfrentamento precisam alcançá-los de forma direta. A proposta não é humanizar o ato violentador ou justificar o injustificável, mas sim responsabilizar, provocar reflexão e interromper condutas que foram aprendidas, reproduzidas e naturalizadas ao longo de gerações.

É exatamente essa a premissa dos grupos reflexivos para homens autores de violência doméstica. Em Itabira, essa abordagem deixou de ser apenas teoria e tornou-se um caso prático que merece destaque. O projeto Itabira por Eles foi objeto de uma pesquisa acadêmica que analisou o impacto direto dessas intervenções na taxa de reincidência criminal.

Na experiência de Itabira, em um recorte analisado pelos pesquisadores, 14 homens concluíram o ciclo de 16 encontros. Desses, apenas dois voltaram a cometer crimes de violência doméstica — um índice expressivo de 85,7% de não reincidência. Em contrapartida, no grupo dos 20 homens que abandonaram ou não concluíram o programa, sete voltaram a agredir.

O que os dados locais e nacionais nos revelam escancara o tamanho dessa urgência:O impacto da responsabilização em números:

  • Cenário Sem Intervenção: No Brasil, a taxa de reincidência da violência doméstica sem a participação do agressor em processos educativos e reflexivos varia entre 30% e 65%.
  • Cenário Com Grupos Reflexivos: Nacionalmente, nos grupos onde homens cumprem todo o ciclo de encontros — como o Itabira por Eles —, o índice de não reincidência atinge entre 85% e 98%.

A conclusão é que a punição responde ao crime que já aconteceu; a educação e a responsabilização garantem que a violência não se repita.

A responsabilização e educação são ferramentas reais de combate à violência. Ninguém nasce acreditando que controlar as roupas, o celular ou as amizades da parceira são demonstrações de afeto. Ninguém nasce consciente de que um “não” pode ser ignorado. A agressividade, o machismo e o desejo de posse são comportamentos socialmente construídos e, portanto, podem e devem ser desconstruídos.

Os grupos de reflexão atuam justamente sobre esses pilares — masculinidade, relações de poder, gestão de conflitos e respeito. A punição legal continua sendo indispensável, mas atuar apenas na etapa punitiva significa intervir quando o dano já foi causado. Punir isoladamente não garante a interrupção do ciclo.

Atualmente, vivenciamos uma contradição. Enquanto a sociedade incentiva a autonomia defensiva das mulheres — a exemplo de legislações como a Lei nº 15.474/2026, que regulamentou o uso do spray de pimenta para defesa pessoal —, corre-se o risco de confundir autodefesa com prevenção. Um recurso de emergência pode salvar uma vida no momento do ataque, mas não impede que a violência continue sendo gerada.

Mas, por que uma mulher precisa aprender a se defender de um homem que deveria, simplesmente, aprender a respeitá-la?

Enfrentar a violência contra a mulher exige proteger a vítima, punir o agressor e, acima de tudo, educar para que o crime nem aconteça ou não se repita. A experiência de Itabira e os dados em todo o país provam que o debate é urgente e transformador. A verdadeira mudança não se consolidará no dia em que todas as mulheres souberem se defender, mas no dia em que nenhuma delas precisar fazer isso.

Sobre a colunista

Juliana Drummond é esposa, mãe e advogada com mais de 20 anos de experiência na área cível e criminal. Também é especialista em Direitos das Mulheres; pós-graduada em Advocacia Feminista pela Escola Superior de Direito, em São Paulo; capacitada em Advocacia com Perspectiva de Gênero pela Escola Brasileira de Direitos das Mulheres; e representante da OAB Itabira na Comissão Especial Enfrentamento a Violência Doméstica da OAB Minas Gerais.

O conteúdo expresso é de total responsabilidade do colunista e não representa a opinião do portal DeFato Online.

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