Sem os filhos há 5 anos, haitiana busca ajuda para reunir a família em Itabira
Há cinco anos, todos os dias, Hernante Valcourt, de 33 anos, acorda com o mesmo desejo: rever os filhos Ivanot Jean, de 13 anos, e Jowendy Sajoux, de 16. As crianças estão no Haiti, há 4.311 km de distância da mãe, que vive hoje em Itabira (MG). Hernante veio para o Brasil em 2014 com […]


Há cinco anos, todos os dias, Hernante Valcourt, de 33 anos, acorda com o mesmo desejo: rever os filhos Ivanot Jean, de 13 anos, e Jowendy Sajoux, de 16. As crianças estão no Haiti, há 4.311 km de distância da mãe, que vive hoje em Itabira (MG). Hernante veio para o Brasil em 2014 com a esperança de conseguir trabalho e, assim, oferecer uma vida melhor para os filhos. O plano, desde a chegada no novo país, sempre foi juntar dinheiro suficiente para conseguir trazer as crianças e ter a família reunida novamente. Infelizmente, depois de muito sacrifício, esse sonho ainda está longe de ser concretizado.
Para que Hernante possa reencontrar os filhos após tantos anos, ela precisa lidar com dois desafios: vencer a burocracia jurídica e arrecadar recursos financeiros para arcar com a viagem dos dois. “Meu marido veio primeiro, em 2001. Ele arrumou emprego e mandou dinheiro para que eu conseguisse vir. Na época, não consegui trazer os dois, porque era muito caro”, disse a mãe aflita. Hernante conta que, ao pisar no Brasil, logo começou a buscar ajuda para poder trazer os filhos. Porém, as barreiras impostas por não dominar o idioma local, as leis brasileiras e, ainda, não conseguir um emprego deixaram cada vez mais distante o sonho de rever Ivanot Jean e Jowendy Sajoux.

Idiomas
A haitiana nasceu em Plateau Central, uma pequena cidade na fronteira com a República Dominicana. Lá a língua predominante é o crioulo haitiano, uma derivação do idioma francês. Hernante também domina, além do crioulo, o castelhano, língua parecida com o espanhol. Ela aprendeu o dialeto após viver cinco anos na República Dominicana. Já o português, idioma do Brasil, nunca fez parte da comunicação da haitiana.
Hoje, Hernante busca aprender mais o português para conseguir se comunicar melhor e, assim, alcançar ajuda para trazer os filhos. Com apenas o 3° ano do ensino fundamental completo, ela voltou a estudar no programa de Educação para Jovens e Adultos (EJA), na Escola Municipal Cornélio Penna.
Burocracias
Antes de chegar ao Brasil, Hernante lutou para conseguir pagar pelo passaporte e visto, protocolos necessários para viagens internacionais. Das três tentativas de conseguir a documentação, duas delas foram golpes. A haitiana chegou a conseguir arrecadar o dinheiro e entregá-lo para agenciadores internacionais, prática comum no Haiti. Contudo, ela não recebeu o passaporte nem o visto.
Ao buscar assessoria jurídica com um advogado, a haitiana foi vítima de outra cilada. O documento de identidade que precisava para embarcar estava com a assinatura falsa. “Ele fez isso comigo para me cobrar mais dinheiro quando voltasse lá. Eu poderia ter sido presa”, conta Hernante. Depois de muito sufoco e de pagar 4.500 dólares para outro agenciador, Hernante embarcou para o Brasil. A haitiana veio para Itabira com o objetivo de encontrar com o marido, lnez Jean, de 45 anos. Ele havia conseguido um emprego na cidade e já estava há 3 anos no país.

Ao chegar aqui, os caminhos burocráticos se estenderam para os filhos. Com o objetivo de buscar ajuda, Hernante procurou a Secretaria de Assistência Social de Itabira. A assistente social Uades Oliveira acolheu o caso e, desde então, vem assessorando a haitiana. “Ela veio aqui falando que gostaria muito de ter os filhos com ela e que não sabia como fazer. Eu entrei em contato com a Embaixada do Haiti e a primeira coisa que eles falaram é que as crianças precisam de passaporte”, conta a assistente social. No contato a Embaixada não informou o valor de cada documentação e o prazo necessário para conclusão. Segundo o site brasileiro, Haiti Aqui, a taxa para emitir cada documento é de R$ 660.

Na última quarta-feira (3), Hernante junto com a assistente social, foi até o mutirão realizado em Itabira pela Defensoria Pública da União para conseguir uma resposta. A defensora pública Sabrina Nunes Vieira tomou conhecimento do caso e vem buscando alternativas para conseguir ajudar Hernante. Até o final da reportagem, ainda não houve um posicionamento.
Finanças
Hernante e o marido moram no bairro Penha, região central de Itabira. Ambos trabalham de carteira assinada. Ela de salgadeira e ele em um lava-jato. Os salários são responsáveis por pagar as contas básicas, como aluguel, luz e água. O que sobra é encaminhado para o Haiti para sustentar os filhos. “Todo mês eu vou em Belo Horizonte depositar o dinheiro no banco Western Union, o único que aceita. Quando tem alguma emergência e eles me ligam, saio correndo procurando alguém para levar o dinheiro para a capital”, conta Hernante.
Atualmente, Ivanot Jean e Jowendy Sajoux moram com a tia, cunhada de Hernante. “Eu mando dinheiro para escola, roupa, comida e o que eles precisarem”, ressalta a mãe. Quando a haitiana veio para o Brasil, as crianças haviam ficado com a avó paterna. Infelizmente, a sogra de Hernante veio a falecer e a tia assumiu a responsabilidade de cuidar dos dois. Ivanot Jean e Jowendy Sajoux vivem com a tia e mais três primos.
Caso a haitiana consiga a documentação necessária para trazer os filhos, outro impasse é a compra das passagens. Cada bilhete para embarcar de Porto Príncipe, a capital do Haiti, até o Rio de Janeiro custa, em média, R$ 2.800. Como despesa inicial, Hernante teria que ter no bolso cerca de R$ 6.920 (R$ 1.200 dos dois passaportes e R$ 5.600 das duas passagens), realidade distante da haitiana.
O reencontro
“Eu fico pensando em todas as dificuldades que eu passei. Nada mais importa porque o que eu sinto mais falta, o que me dá mais saudade, são meus filhos”, conta Hernante emocionada. Ela relembra que no dia 12 de maio deste ano, Dia das Mães e aniversário dela, a dor pela ausência dos filhos ficou ainda maior.
Devido a dificuldade na comunicação, pela primeira vez em cinco anos, a mãe não conseguiu conversar com os filhos. “Fiquei muito triste, muito triste porque não consegui falar com eles. A gente tem que ser forte e fingir que não está sofrendo, mas eu estou, e muito”, lamenta a haitiana. Hernante disse que o maior desejo é trazer os dois de uma vez e tê-los juntos em família. “São cinco anos sem vê-los. Toda mãe sabe o que eu estou dizendo. Não é fácil”, expressa. A luta diária de Hernante requer força e coragem, combustíveis que não faltam para uma mãe que ama incondicionalmente os filhos.
Dados
De acordo com a PUC Minas, não há um número exato de quantos haitianos vivem em Minas Gerais. Mas, segundo a Secretaria de Direitos Humanos e Participação Social da instituição, a população haitiana pode chegar até a 10 mil.