Seu Jorge sofre ataques racistas durante show em Porto Alegre
Polícia abre investigação, solicita imagens do show e tenta identificar suspeitos do crime
Na última sexta-feira (14), o cantor carioca Seu Jorge se apresentou em uma festa particular, em Porto Alegre. Durante o encerramento do show no clube Grêmio Náutico União, o artista teria sofrido ataques racistas de pessoas na plateia. Nessa terça-feira (18), ele usou seu perfil no Instagram para se manifestar sobre o caso.
Em um vídeo de nove minutos, o artista falou sobre os ídolos gaúchos que se tornaram referências para ele. Além disso, ressaltou a boa relação que construiu com o público do Rio Grande do Sul e da alegria de voltar a se apresentar na capital gaúcha com um trabalho solo. “A verdade é que eu estava bastante empolgado, porque fazia bastante tempo que não me apresentava com minha banda”, disse.
Ele destacou ainda as mensagens carinhosas e de apoio que recebeu desde que sofreu os ataques. Sentado em um banco, com a bandeira do estado sulista ao fundo, Seu Jorge confirmou ter escutado vaias e xingamentos.
“Quando chego atrás do palco, começo a escutar muitas vaias e xingamentos. E, por conta disso, percebi que não era possível voltar para fazer o “bis”. Mas, sozinho, retornei ao palco, de maneira respeitosa agradeci a presença de todos, me despedi e me retirei do local do show. […] Não era a cidade que eu reconheci, a cidade que eu comecei a amar e respeitar. Não era a cidade que eu conhecia. […] O que eu presenciei foi muito ódio gratuito e muita grosseria racista”, afirmou.
O artista também citou como as ofensas de algumas das pessoas presentes no evento contribuíram para a vergonha alheia dos demais presentes, que se manifestaram por meio de mensagens de repúdio ao ato e de apoio a ele. “É muito bom saber que, ao menos, depois de tudo isso, nossa conexão não se rompeu e nem se romperá. E, agora, estaremos bem mais fortes e unidos na luta intensa contra o racismo, toda forma de preconceito e discriminação”.
Ainda no vídeo, Seu Jorge afirmou que não viu pessoas negras entre os convidados do evento, apenas entre funcionários do clube. “Particularmente, não vi nenhuma pessoa negra no jantar. E as pessoas negras que eu encontrei foram somente os funcionários que, uma coisa que me causou muita espécie, eu ouvi dizer que estavam proibidos de olhar pra mim ou falar comigo quando eu chegasse no local do show”, frisou dizendo que depois pôde atender e conversar com essas pessoas.
Ao final do pronunciamento, o cantor se dirigiu diretamente às pessoas negras do Rio Grande do Sul. “Quero dizer que amo todos vocês, e admiro, respeito. E digo também que estamos mais unidos do que nunca e que vamos vencer essa guerra que segrega o nosso povo à miséria e à falta de oportunidade no Brasil”, sustentou.
Reconhecido mundialmente por seu talento, o carioca também fez questão de falar sobre o combate ao racismo e ao preconceito.
“Estaremos na luta denunciando e combatendo todo tipo de tipificação da nossa gente e respondendo com excelência, preparo, coragem, sabedoria e diplomacia. Nunca, jamais, nos curvaremos ao racismo e à intolerância, seja ela qual for. Não cederemos um milímetro sequer ao ódio, e cobraremos das autoridades que a justiça prevaleça e os criminosos sejam devidamente punidos. A lei é para ser cumprida”, afirmou.
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Sobre a investigação
O caso todo aconteceu na sexta-feira (14), quando Seu Jorge se apresentou no clube Grêmio Náutico União, na reinauguração do Salão União, que passou por reformas este ano. A Polícia Civil teve acesso a um vídeo que mostra o encerramento do show, momento em que teriam acontecido os ataques racistas ao cantor.
A delegada Andrea Mattos, titular da Delegacia de Polícia de Combate à Intolerância, conta que inúmeras denúncias foram encaminhadas à Polícia Civil. Segundo ela, a investigação ajudará a entender a dinâmica dos acontecimentos. “É possível ouvir, no vídeo, o momento em que alguém grita “macaco” e também quando pessoas começam a imitar o animal. Óbvio que só com desenrolar das investigações, nós teremos confirmação de que houve o delito de racismo e não de injúria”, detalhou.
Na segunda-feira (17), a Polícia Civil fez uma solicitação formal ao clube para que entregue as imagens de câmeras de segurança do espaço. O objetivo da delegada é identificar suspeitos do crime de racismo. Ela informou ainda que o dirigente do clube será intimado a depor e também fornecer dados, como a identificação dos organizadores do evento.
O que diz o clube
Por meio de nota, o Grêmio Náutico União informou que está apurando internamente os fatos e que, se for comprovada a prática de ato racista, os envolvidos serão responsabilizados. Leia na íntegra:
“O Grêmio Náutico União está apurando internamente os fatos ocorridos em evento realizado no dia 14 de outubro, durante apresentação do cantor Seu Jorge. Se for comprovada a prática de ato racista, os envolvidos serão responsabilizados. Afirmamos que o União, seguindo seu Estatuto e compromisso com associados e sociedade, repudia qualquer tipo de discriminação. Ressaltamos que Seu Jorge foi o artista escolhido para realizar show com a presença de associados e não-associados do Clube, considerando sua representatividade na cultura nacional e pelo reconhecimento internacional, e destacamos nosso respeito ao profissional e ao seu trabalho“.
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