Silêncio e cumprimento frio marcam despedida entre Luiz Carlos e Dulce Citi na Câmara

Em uma Casa onde as palavras sobram, a ausência delas pode representar mais do que um discurso inteiro. E, na política, o silêncio raramente é neutro.

Silêncio e cumprimento frio marcam despedida entre Luiz Carlos e Dulce Citi na Câmara
Foto: Guilherme Guerra/DeFato

A política costuma dizer muito nos discursos. Mas, às vezes, diz ainda mais nos gestos, ou na ausência deles. Foi exatamente isso que ocorreu na despedida da vereadora Dulce Citi Oliveira (PDT) da Câmara Municipal de Itabira, na última sexta-feira (16), ao se licenciar do mandato para assumir a Secretaria Municipal de Governo.

Em um plenário marcado por discursos, cumprimentos de despedidas e manifestações públicas, Luiz Carlos de Souza (MDB) foi o único parlamentar que não parabenizou, não se despediu e não dirigiu uma palavra sequer à colega que se licenciou do mandato para assumir a pasta de Governo e que irá ter responsabilidade de intermediar as conversas entre Câmara e Prefeitura. Logo após o discurso de Dulce, houve um gesto rápido entre os dois: um cumprimento frio, sem palavras e sem qualquer tentativa de disfarçar o distanciamento político entre as partes.

O contraste se torna ainda mais evidente diante do teor do discurso de Dulce Citi. Ao anunciar sua saída temporária, a vereadora havia dito: “Divergir faz parte da política; desrespeitar, não”, cravou. No fim do texto, ainda recorreu a um ditado popular que, embora não direcionado nominalmente a ninguém, soou como um recado claro em um plenário atento: “Nem todo barulho é sinal de trabalho. Às vezes, um cão que ladra não morde”.

Em uma Casa onde as palavras sobram, a ausência delas pode representar mais do que um discurso inteiro. E, na política, o silêncio raramente é neutro. No caso de Luiz Carlos, ele carrega um histórico que ajuda a compreender o peso do gesto.

Sem apresentar qualquer tipo de comprovação documental ou formal, o vereador já afirmou que a Câmara Municipal teria cometido “graves e inaceitáveis desvios”, citando uma suposta “farra indecorosa com diárias”, “gastos excessivos com passagens aéreas e hospedagens”, “irregularidades orçamentárias” e “descontrole de gastos”. As acusações vieram acompanhadas da afirmação de que os relatórios oficiais do Legislativo seriam “superficiais e enganadores”, sem, contudo, a apresentação de dados concretos ou provas que sustentassem tais declarações.

Em outro episódio polêmico, Luiz Carlos afirmou à imprensa que colegas mentiriam sobre viagens institucionais a Brasília, chegando a alegar que vereadores itabiranos teriam contratado prostitutas durante uma dessas viagens. Questionado diretamente sobre a existência de provas, o próprio parlamentar recuou, afirmando que “não estava denunciando”, mas apenas “falando o que viu”. A resposta, longe de encerrar o assunto, reforçou o caráter controverso e frágil das declarações. 

À época dessas falas, Dulce Citi presidia a Comissão de Ética da Câmara. Ainda assim, apesar da gravidade das acusações e da recorrência de episódios envolvendo declarações ofensivas, ataques pessoais e denúncias sem lastro comprovável por parte de Luiz Carlos, nenhum processo disciplinar foi instaurado. O histórico acumulado levantou questionamentos internos e externos sobre os limites entre a liberdade de expressão parlamentar, a responsabilidade institucional e o papel efetivo da Comissão de Ética diante de condutas que tensionam o ambiente político e desgastam a imagem do Legislativo.