Sobre duas rodas
Originais de fábrica ou com adaptações para suportar caixas, baús, botijões de gás entre outros apetrechos, as motos deixaram de ser simplesmente um meio de transporte para se transformar num veículo e tanto para os mais versáteis serviços de entregas rápidas. Em Itabira, elas somam 7.451, de acordo com dados da Delegacia de Trânsito, […]
Originais de fábrica ou com adaptações para suportar caixas, baús, botijões de gás entre outros apetrechos, as motos deixaram de ser simplesmente um meio de transporte para se transformar num veículo e tanto para os mais versáteis serviços de entregas rápidas. Em Itabira, elas somam 7.451, de acordo com dados da Delegacia de Trânsito, atualizados em junho deste ano. É verdade que de lá para cá, muitas outras motocicletas e motonetas foram vendidas por aqui, mas como ilustração, serão usados estes dados oficiais, já que são os mais recentes.
Não há como ignorar a importância do serviço de motoboy dentro do sistema econômico de uma cidade, principalmente no comércio. Prova disso é a presença quase obrigatória de pelo menos um motoqueiro em empresas dos mais variados ramos e portes. São eles que buscam e levam documentos em tempo recorde, entregam o lanche aos domicílios antes de esfriarem e atendem com rapidez à dona de casa quando acaba o gás ou o remédio de controle da vovó. Para trabalhar com tanta eficiência assim, é preciso conhecer bem os endereços, ter domínio da máquina e enfrentar corajosamente as adversidades do dia-a-dia: trânsito congestionado, falta de estacionamento, situações climáticas desagradáveis, etc.
Mas a vida sofrida de um motoboy não para por aí. Talvez o desafio mais difícil para os profissionais das tele-entregas seja lidar diariamente com a imagem nem um pouco razoável, criada pelo generalizado conceito de imprudência, irresponsabilidade e uso da moto em tráficos de drogas e assaltos, que acaba refletindo em todos. Em Itabira, o fator é ainda agravado com os dados estatísticos das autoridades. De acordo com a Transita, são registrados, em média, três acidentes com vítimas por dia envolvendo motociclistas, mesmo com a fiscalização intensa da Polícia Militar com as operações Cavalo de Aço e Corredor de Segurança, em ação desde o ano passado.
Agnaldo José Pereira, profissional do ramo há cinco anos, conta que quem está de fora não conhece a dura rotina de quem ganha a vida sobre duas rodas, e critica muitas vezes com base em informações distorcidas. “Acho que nada justifica a imprudência, mas quem trabalha no serviço de entrega tem de atender o cliente em tempo recorde, o mais rápido possível. O mesmo vale para mototaxi: quando alguém pega uma corrida é porque está atrasado e não pode perder o horário. Nesse tipo de trabalho, a gente ganha por produção, então se trabalha pouco, produz pouco e automaticamente recebe pouco no fim do mês”, justifica.
Agnaldo trabalha como mototaxista de dia e como entregador de pizzas e sanduíches à noite, numa rotina diária de aproximadamente 14 horas. “Nas primeiras semanas, é doído, mas depois vai se adaptando. A gente sofre também com as adversidades que exigem atenção redobrada na parte de direção defensiva. Motoqueiro sofre muito com o frio, com a chuva, com a serração, com os buracos nas vias e iluminação precária em alguns bairros”, narra o trabalhador, ao ressaltar que a maioria dos colegas são pais de família e pessoas de bem.
Altamiro Alves de Alvarenga, patrão de Agnaldo, reafirma a importância dos serviços. “Trabalho com tele-entrega há 15 anos. Visamos sempre o melhor atendimento e conforto aos nossos clientes, com rapidez e economia, além de gerarmos empregos”, diz.
Seis motos por um caminhão
Apesar de toda a discussão sobre o fato de os motociclistas serem ou não os vilões do trânsito, a questão é que a economia de tempo e dinheiro faz com que os empresários das áreas de comércio e serviços optem cada vez mais pelos seus serviços. Atento a essa necessidade, a empresa Tricilos Katuny, de João Monlevade, está ganhando dinheiro com uma nova invenção, patenteada como triciclo, que é, na verdade, uma moto transformada.
A empresa existe há apenas dois anos, mas já vendeu cerca de 200 unidades, de acordo com o sócio-fundador Sebastião Nunes. Pelo menos três comerciantes de Itabira já adquiriram os produtos, que prometem sucesso em Minas e em outros estados, pela sua eficiência em transporte de cargas. “Consigo levar no triciclo, de uma só vez, a quantidade de mercadoria que gastaria três motos convencionais”, afirma Gilson Figueiredo, do Sacolão Amazonas. Segundo ele, o veículo faz o serviço de um carro pequeno e gasta muito menos.
O idealizador do projeto conta que diversos testes foram feitos e as máquinas aguentam até 500 quilos – mesmo que o conselho seja não colocar mais que 250. Toda documentação, de acordo com Sebastião, é legalizada junto aos órgãos competentes. “É muito mais barato para o empresário. Com o dinheiro que gastaria para comprar um caminhão de porte considerável, ele consegue comprar uns seis triciclos, que gasta muito menos, é muito mais viável para entregas em pequenas distâncias e não precisa de ajudantes”, detalha o monlevadense, ao informar que o cliente tem opções de comprar com carrocerias abertas ou fechadas, rodas de moto ou de carro.
Dentro de 40 dias, a Tricilos Katuny pretende lançar também um triciclo para passageiros, que comporta quatro pessoas e dispensa o uso de capacetes para os caroneiros. O objetivo é despertar o interesse de mototaxistas – aproveitando que a profissão está sendo legalizada – e de profissionais ligados a cidades turísticas. Os valores dos veículos variam entre R$ 11.300 e R$ 15 mil. Pode ser a nova onda do transporte urbano.