Subida histórica

Rua Santana é uma das vias mais históricas da cidade

Subida histórica

Reportagem publicada na edição 262 da Revista DeFato

A rua Santana, em Itabira, é uma das vias mais históricas da cidade. Foi por ali que a cidade surgiu, nas beiradas do córrego da Penha. Com pouco mais de 600 metros de comprimento, o logradouro representa parte do início do desenvolvimento da terra de Carlos Drummond de Andrade. Drummond, aliás, que fez questão em registrar em poema a importância da rua que faz a ligação entre o Centro e os bairros Penha e Campestre.

A ocupação de Itabira deu-se nas duas primeiras décadas do século XVIII. O relato do cônego Raimundo Trindade, por volta de 1705, conta que padre Manoel do Rosário e João Teixeira Ramos descobriram ouro de aluvião nas proximidades do Córrego da Penha. Sendo assim, ergueu-se uma capela e logo depois as primeiras casas pertencentes aos exploradores do ouro surgiram em torno do córrego.

O desenvolvimento da cidade chegou ao final do século XVIII, quando as lavras de Conceição, atual Cauê, foram descobertas. A exigência de técnicas de explorações fez surgir companhias de mineração, e nesse período, os arruamentos de Santana, do Rosário e dos Padres surgiram seguindo os passos do crescimento.

O poema “Uma Casa”, de Drummond,retratado em uma daquelas placas dos Caminhos Drummondianos, mesmo escrito há décadas, poderia ser usado para descrever a rua nos dias atuais. “A mesma rua. O tempo, diferente…O que é passado torna-se presente…Esta casa, que vejo tão mudada na aparência, na essência não mudou”.

Drummond previu o futuro? Ou a rua parou no tempo? Hoje, casas antigas com as fachadas próximas às ruas disputam espaço com modernas residências e até prédios. Mesmo assim, os pontos de modernidade espalhados em sua extensão não retiram o charme do estreito morro. A simplicidade das casinhas e dos moradores parece a mesma de anos atrás.

Quase que inteiramente residencial, a rua Santana abriga, ainda, o tradicionalíssimo Colégio Nossa Senhora das Dores, fundado em 1923; a sede da Tv Cultura de Itabira; e alguns poucos comércios.

Antônio Borges do Carmo, de 60 anos, o Toninho da Sapataria, mora há 30 anos na rua, e ganha a vida consertando calçados. Em uma pequena porta no seu imóvel funciona o seu comércio, no qual trabalha há longos anos. Ele se diz bastante conhecido e que os clientes gostam muito de seu serviço. “Vem gente de outros lugares só para consertar sapato, além disso os clientes são fiéis”, destacou.

Toninho cresceu ouvindo e vendo a história se fazer. Ele se lembra de quando o calçamento era de pedras de minério. “Escorregava demais, se chovesse então, complicava muito de subir”, contou. Hoje a rua é de bloquetes.

“A rua Santana é bastante tranquila”, ele conta. Com a restrição de tráfego para caminhões pesados, melhorou ainda mais. “As pessoas são tranquilas, a rua é calma. Tem alguns problemas, mas é normal. A gente sempre viaja, passeia por aí, mas a saudade bate é daqui”, revelou.

Um dos problemas apontados pelo sapateiro é a largura da rua. Muito antiga, a via não foi projetada pensando no fluxo atual de veículos, que nem existia na época. Atualmente metade da rua é mão única, apenas subida, e depois se transforma em mão dupla, justamente onde fica mais estreita.

Mas Toninho acredita que grande parte do problema é devido à falta de bom senso dos motoristas e moradores. “A rua sempre foi mão dupla, então os motoristas precisam saber onde encostar o carro, como encostar, para não atrapalhar o fluxo, principalmente da escola”, opina.

Outro problema ajuda a complicar o trânsito são as rampas de garagens que invadem as ruas. Toninho já fez reclamações na prefeitura, mas nada foi feito. “Eu acho que isso é errado, mas eles falam que não”, consentiu.

 

Mas essas pequenas dificuldades não atrapalham de viver ali. Toninho gosta tanto da rua que não quer sair nunca da lá. Saber que a cidade começou na região é motivo de muito orgulho. “É como se eu fizesse parte da história. Fui criado aqui, vi muita coisa e sei bastante daqui”, disse o sapateiro.