UFMG identifica primeira reinfecção de Covid-19 com nova mutação

Segundo o estudo realizado pela UFMG, Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino e Fiocruz, a nova variante da Covid-19 pode aumentar níveis de transmissão e anular ação de anticorpo neutralizante

UFMG identifica primeira reinfecção de Covid-19 com nova mutação
Foto: Reprodução Faculdade de Medicina da UFMG

Pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR) e Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) confirmaram nesta segunda-feira (18) o primeiro caso reinfecção pela nova mutação da Covid-19 originária da África do Sul.

A cepa “E484K” foi identificada no fim de 2020 em uma paciente brasileira, residente na Bahia. Essa nova variante pode aumentar os níveis de transmissão do coronavírus e anular ação de anticorpo neutralizante. A UFMG, em publicação no site da Faculdade de Medicina, destacou que “a descoberta pode ter grandes implicações para as políticas públicas de saúde e estratégias de vigilância e imunização”.

O estudo, intitulado “Genomic evidence of a SARS-CoV-2 reinfection case with E484K spike mutation in Brazil”, foi publicado em versão preprint no início deste mês. Agora, aguarda a revisão por pares da revista científica “The Lancet Infectious Diseases”.

“O Brasil teve, inclusive, uma posição de destaque nessa conversa, por ser um dos únicos países que têm identificado algumas variantes. Além de termos descoberto também essas mutações virais que estão sendo observadas internacionalmente, como a da Inglaterra, a ‘N501Y’, e essa da África do Sul, a ‘E484K’”, afirma Renato Santana, professor e virologista do Instituto de Ciências Biológicas (ICB) da UFMG, um dos responsáveis pelo estudo e que acompanhou uma reunião com a Organização Mundial de Saúde (OMS) e outros pesquisadores internacionais, no dia 12 de janeiro, sobre o tema.

Ameaça

Na publicação em que confirmou o caso de reinfecção pela nova variante, a UFMG destacou que a “mutação descrita foi identificada na África do Sul em outubro, e, no mesmo mês, também começou a circular no Brasil, com registro inicial no Rio de Janeiro e, mais recentemente, em casos de Manaus”.

E completa: “Mas o caso baiano foi o primeiro, em todo o mundo, no qual ela foi associada a uma reinfecção por SARS-CoV-2. E essa variante, especificamente, representa uma preocupação no meio médico. A ‘E484K’ faz parte de um grupo associado ao aumento da transmissibilidade do vírus”.

Segundo Renato Santana, o estudo demonstra que a cepa “E484K” anula a atividade de um anticorpo neutralizante, o Bamlanivimab, que é usado para o tratamento de pacientes graves com Covid-19. “Com essa mutação, o anticorpo neutralizante não consegue se ligar. Assim, mesmo que os pacientes tomem esse remédio, o efeito combativo não será muito grande”, explica.

Entenda

O estudo desenvolvido pela UFMG, IDOR e Fiocruz acompanhou a situação clínica de uma mulher de 45 anos, moradora de Salvador. A paciente, que não possui comorbidades, foi o primeiro caso de reinfecção pelo coronavírus na Bahia.

Em 20 de maio de 2020, a baiana foi diagnosticada com Covid-19 pela primeira vez. No final do ano, em 26 de outubro, ela registrou novamente a doença, mas, dessa vez, com sintomas um pouco mais severos. Em ambos os casos, o diagnóstico foi confirmado por testes RT-PCR.

Além disso, quatro semanas após receber o resultado positivo para a reinfecção da doença, a paciente passou pelo teste IgC, que apontou a presença de anticorpos para o coronavírus em seu organismo.

Ainda segundo o estudo, “por meio da análise genômica das cepas isoladas em laboratório do primeiro e segundo episódios de infecção, os pesquisadores puderam comparar os dados entre si e com outras sequências de vírus isolados no Brasil e no mundo. Essas análises permitiram concluir que a paciente apresentou, em um intervalo de 147 dias, dois episódios de Covid-19, cada um provocado por vírus de linhagem diferentes. A análise da segunda amostra confirmou a presença da cepa ‘E484k'”.

* Com informações da Faculdade de Medicina da UFMG