Um ano após tragédia, moradores lutam para manter vivas lembranças de Bento Rodrigues

Moradora exibe camisa de protesto contra a tragédia em Mariana

Um ano após tragédia, moradores lutam para manter vivas lembranças de Bento Rodrigues

Cinco de novembro de 2015. Essa data ficará para sempre na história de Mariana. Por volta das 15h30, a barragem de Fundão, controlada pela mineradora Samarco, se rompeu e despejou um mar de lama sobre comunidades vizinhas. O local mais afetado foi o distrito de Bento Rodrigues, distante cerca de 35 quilômetros da sede do município. Moradores foram mortos, quase todas as casas foram destruídas.

Um ano depois, entre acordos judiciais e briga por direitos, os atingidos também lutam para manter vivas as memórias do distrito. No centro da polêmica está a construção de um dique da Samarco que alagaria boa parte dos escombros de Bento Rodrigues. A ação é colocada pela empresa como emergencial para impedir que mais rejeitos da tragédia voltem a poluir o rio Gualaxo e, consequentemente, o rio Doce, mas é questionada pelo Ministério Público de Mariana e pelos moradores.

Os moradores querem que a empresa construa um acesso para que eles possam entrar livremente na parte que será preservada do que restou de Bento Rodrigues. O caminho tradicional será interditado pela empresa, que já conseguiu autorização do governo do estado para construir o novo dique, denominado S4. Nessa quinta-feira, 10 de novembro, uma comissão dos atingidos, o promotor Guilherme Meneghin, o juiz Rafael Niepce Verona Pimentel e advogados da Samarco, da Vale e da BHP Billiton fizeram uma inspeção judicial no local.


Inspeção judicial levantou possibilidades para acesso de moradores ao que restou de Bento Rodrigues

O dique

Segundo a Samarco, o dique S4 integra o sistema emergencial de retenção de sedimentos composto pelos diques S1, S2 e S3, além das barragens Eixo 1 de Fundão e Nova Santarém. Ele será feito por um alteamento com pedras, construído em recuo já existente um pouco abaixo de Bento Rodrigues, e ampliará a chamada área de clareação dos rejeitos. O dique S4 será o segundo maior do complexo e terá capacidade de 1,05 milhão de metros cúbicos.

Com a construção do dique S4, parte da área impactada de Bento Rodrigues será alagada. A empresa garante que vai preservar o muro colonial que ainda existe no local e também as ruínas da capela de São Bento e do Cemitério.  


Samarco prepara construção de novo dique na área onde era o distrito de Bento Rodrigues

Impasse

A obra é polêmica e não é bem vista pelos moradores atingidos. Eles continuam indo ao distrito e costumam até passar noites no local. Bento Rodrigues hoje é considerado perigoso por causa da instabilidade dos sedimentos. Mesmo as casas da parte alta da comunidade, que não foram atingidas pela lama, não podem ser habitadas.

Os moradores querem continuar tendo acesso ao que restou do distrito, ainda que o dique seja construído e alague boa parte do terreno. Para isso, eles exigem um acesso que garanta a entrada para a comunidade. O problema é que técnicos da Samarco não estão encontrando viabilidade técnica para essa proposta. Foi sugerido um acesso pelo distrito de Santa Rita Durão, o que foi prontamente rejeitado pelos atingidos por causa da distância.

O comerciante Mauro Marcos da Silva, 47 anos, nascido e criado em Bento Rodrigues, tinha uma casa no distrito, onde passava os finais de semana e feriados com a esposa e o filho. O pai dele também morava no local. Ele argumenta que preservar o que restou da comunidade é uma maneira de respeitar a memória de todos os que residiam em Bento e que tiveram as vidas completamente alteradas pela tragédia. “A gente trabalha, vive em Mariana durante a semana, mas é aqui que a gente recarrega as baterias. Só estar aqui para a gente é o bastante”, comenta.


Comissão de moradores acompanhou inspeção judicial no distrito atingido por lama da barragem

Vidas alteradas

Mauro relata que a vida dos moradores não é mais a mesma desde o dia 5 de novembro de 2015, “mudou do avesso”, diz o comerciante. “A gente está numa situação que os nervos estão à flor da pele. Qualquer desentendimentozinho já é motivo para uma briga de grandes proporções. O psicológico está abalado. No meu caso, eu não perdi só os bens materiais, mas perdi a minha origem, o lugar em que nasci. Foi onde aprendi a brincar e onde tive minhas primeiras noções do que é viver. É complicado demais”, lamenta.

No fim deste mês, uma audiência entre o Ministério Público e a Samarco começará a discutir a construção do novo Bento Rodrigues. O local já foi escolhido pelos moradores. Será numa área na localidade de Lavoura, a cerca de 10 quilômetros da sede de Mariana. Para Mauro, no entanto, uma nova comunidade não suprirá a necessidade de manter viva a memória do antigo distrito.

“Não vai ser a mesma coisa. A gente necessita ter esse local preservado para ter o vínculo. Pensamos no futuro, mas, para isso, precisamos ter o respaldo do passado. Um povo sem história é um povo sem memória. A gente precisa ter isso aqui preservado para poder tocar a vida em frente, mesmo em outra comunidade. Que seja tudo 10 mil vezes melhor do que era aqui, mas jamais vai ter o clima que a gente tinha aqui. Lá estaremos rodeados de pessoas, mas não teremos o principal, que é o lugar. O ar que a gente respira aqui é diferente de qualquer outro lugar”, diz o comerciante.

Enquanto aguardam a construção do novo distrito, os moradores atingidos pela tragédia de Bento Rodrigues permanecem em casas alugadas pela Samarco. Eles já tiveram parte dos bens materiais ressarcidos, graças a acordos homologados pelo Ministério Público dias após o rompimento da barragem. Faltam ser discutidas as indenizações por danos morais, que serão mais impactantes. Até lá, os moradores continuarão lutando para que a tragédia do dia 5 de novembro de 2015 não fique registrada apenas nos livros de história.

    

DeFato esteve em Mariana e entrevistou o promotor Guilherme Meneghin, que atua para garantir os direitos dos atingidos desde quando aconteceu a tragédia. A entrevista poderá ser acompanhada na edição 287 da Revista DeFato, em breve nas bancas e nas casas dos assinantes.