Uma novela longe do “final feliz”

Até a última reunião, promovida pela Comissão de Legislação Participativa da Câmara Municipal de Itabira, realizada no plenarinho da sede do Poder Legislativo, em 28 de setembro, os moradores da Vila Paciência se mostravam desunidos em relação à postura das famílias diante das negociações de imóveis com a Vale. Nesta terça-feira, 20 de outubro, sem desentendimentos […]

Até a última reunião, promovida pela Comissão de Legislação Participativa da Câmara Municipal de Itabira, realizada no plenarinho da sede do Poder Legislativo, em 28 de setembro, os moradores da Vila Paciência se mostravam desunidos em relação à postura das famílias diante das negociações de imóveis com a Vale. Nesta terça-feira, 20 de outubro, sem desentendimentos entre si, os chefes de famílias compareceram ao salão da Associação Comunitária local para ouvir um profissional do mercado imobiliário contratado pela empresa, mas não saíram animados depois das conversações.
 
Desta vez, o que ocorreu foi uma palestra de José D’Ávila, administrador e representante da Bolsa de Imóveis do Rio de Janeiro (Birj), que tentou mostrar para os moradores da Vila que a metodologia utilizada pela empresa é a mais correta e visa a fazer um pagamento justo pelos imóveis da chamada Zona de Amortecimento. Presente na reunião, também, outra administradora da Birj, Maria Augusta Steinhoff e, pela Vale, Mariana Diniz, de Relações com a Comunidade, Roberta Matias, da Assessoria de Imprensa e Maria da Glória, da Área de Patrimônio. Os moradores locais, reforçados pela diretoria completa da entidade, somaram 68 participantes que assinaram a lista de presença.
 
A HORA DO BIRJ
 
A Vale contratou e trouxe a Itabira os administradores José D’Ávila e Maria Augusta. A palestra, ilustrada com slides, do administrador, a princípio atraiu a atenção de todos. Inicialmente, ele contou a história da instituição em que trabalha, o Birj, que completou, recentemente, 70 anos de existência e experiência no mercado imobiliário, tem sede no Rio de Janeiro e filial em São Paulo desde 1967. Criada para negociar, já um ano depois de sua atuação, a Birj deixou a comercialização de imóveis para dedicar-se exclusivamente às avaliações.
 
“A Birj não é uma empresa imobiliária, não está ligada a qualquer entidade do ramo e nem tem interesses diretos no mercado”, disse D’Ávila, que calcula terem sido feitas acima de 200 mil levantamentos em todo o território nacional pela sua organização. E disse mais: “Nesses 70 anos, através do rigor de sua conduta, a Birj criou um conceito no mercado de avaliações, com probidade e proficiência, garantindo aos seus trabalhos seriedade e isenção”.
 
Primeiramente, a teoria, o administrador procurou definir os termos “valor de mercado em condições normais”, “valor” e “valor de mercado” para, em seguida explicar a metodologia, ainda teoricamente, com suas definições comparativa direta e evolutiva. Depois de alongar por um bom tempo nas explicações, José D’Ávila iniciou o processo que poderia ser chamado de prático, ou seja, comparando os preços de imóveis em Itabira, na utilização de informações levantadas pela Vale nos bairros Bela Vista, Jardim dos Ipês, Gabiroba, Amazonas e São Pedro.
 
Apesar do pedido de parte da plateia, que queria que o profissional vindo do Rio de Janeiro concluísse a sua fala, houve constantes interrupções dela pelos moradores, que discordavam do método comparativo. A interferência da comunicadora Roberta Matias fez com que as explicações do palestrante fossem concluídas com clareza.
 
DISCÓRDIAS
 
Um a um, os moradores apresentavam as suas razões de discórdia. “A Vila Paciência é quase dentro do centro de Itabira e não pode ser comparada com bairros distantes”, afirmou Celino Eduardo Soares, um dos líderes da Zona de Amortecimento, cuja tese defendida até a última reunião, ao lado do advogado Marcial Antônio Peixoto de Melo, ausente nessa reunião, é de indenização de todas os imóveis da área.
 
Para o consultor financeiro Rogério Possa, morador da Vila Paciência, o representante da Vale é competente e fez uma palestra brilhante, porém “fora da realidade nossa daqui da Vila”, afirmou. “Em todo processo de negociações existe um monte de pessoas querendo vender e um monte de pessoas querendo comprar; em nosso caso específico, existe um monte de pessoas querendo vender e apenas uma interessada querendo comprar”, ilustrou a sua fala.
 
Vários moradores se pronunciaram e discutiram diretamente com o administrador José D’Ávila. Mas os argumentos de ambas as partes se desencontravam sempre. Presente pela primeira vez em relação aos últimos encontros, o presidente da Associação Comunitária da Vila Paciência, José Eduardo dos Passos Guerra, não se pronunciou publicamente, apenas discutiu com outras pessoas o seu ponto de vista. Em nome da associação falou a secretária Brígida Linhares, que enalteceu o esforço da empresa em encontrar um denominador comum para a questão, mas que acredita ser necessária a definição da empresa sobre o futuro do bairro em primeiro lugar.
 
Por exemplo, como será a Vila Paciência depois de adquiridos todos os imóveis da Zona de Amortecimento? A esta altura, restarão os moradores do lado de baixo da avenida France de Paula Andrade, onde reside a maior parte. “A parte de baixo sofrerá o impacto de maior desvalorização de seus imóveis”, afirmou um presente, que não se identificou.
 
A vereadora Martha Mousinho, moradora da Vila, chegou à reunião com pequeno atraso, e não se pronunciou publicamente. A DeFato ela informou que até o momento a Vale não deu resposta a um ofício enviado pela Câmara Municipal como conclusão da reunião de 28 de setembro. Os vereadores da Comissão de Legislação Participativa, em comum acordo com moradores da Paciência, querem da empresa:
 
— um documento, assinado pela Diretoria da Vale, que garanta, publicamente, que não vai minerar na Vila Paciência;
— definição do projeto de áreas de lazer que seria implementado na Vila Paciência;
— exigência de anexação da Vila Cisne à Vila Paciência ou explicação do motivo de ambas serem consideradas separadamente pela empresa;
— qual o critério está sendo usado pela empresa para avaliação dos imóveis?
— o que a Vale está pensando em fazer do lado direito (ou de cima) da avenida France de Paula Andrade?
 
PÓS-REUNIÃO
 
As reuniões polêmicas quase não terminam em silêncio e o encontro da Vila Paciência não fugiu à regra. Grande parte dos moradores ouvidos por DeFato afirmaram que a situação piorou, ou seja, “ficamos mais confusos depois dessa reunião”. O morador Rogério Possa, comedido, declarou: “Não vou dizer que houve piora nas negociações, mas não saímos do lugar”.
 
A moradora da Zona de Amortecimento, Nadir Batista, 74 anos, cujo marido, Sebastião Batista, de 81, está doente e não se locomove da cama, e tem três filhos que a ajudam nas lidas domésticas, chamava a atenção de todos nas suas declarações. “A Vale me procurou e me ofereceu R$ 154 mil pela minha casa; não tem conversa, porque em uma região como a que moro não existe imóvel deste preço”, disse, em tom de claro nervosismo.
 
Celino Soares voltou bater o pé no método que utilizou e mostrou, recentemente, aos moradores da Vila Paciência. Ele considera, entre todos os fatores, como o mais importante, a proximidade da região com serviços de bancos, saúde, educação e dispensa de transporte coletivo.  “A própria empresa revelou que em bairros distantes os preços são mais altos do que os oferecidos a nós”, reforçou a sua argumentação.
 
O próximo capítulo da novela ninguém ainda soube precisar como será. Ficou claro, sim, que a Vale quer resolver o impasse o mais rápido possível e ainda mais claro o pedido de uma moradora da Vila Paciência, que bradou em bom tom: “Itabira inteira deveria se interessar pelo nosso problema porque daqui a algum tempo pelo menos o bairro do Pará e o Centro da cidade serão zonas de amortecimento”. E fez uma pergunta: “Por que todas as associações de bairros não se unem a nós?”