Valia a pena trabalhar na velha Cia. Vale do Rio Doce (CVRD)?
Persistia, então, uma dúvida perturbadora. Quem mandava mais em Itabira? O prefeito ou o superintendente das Minas?

Cia. Vale do Rio Doce (CVRD). O nome era imenso e de simbologia intensa. A sigla CVRD soava como música. A logomarca da instituição mexia com o imaginário coletivo. O símbolo era uma intervenção gráfica na bandeira nacional. O conjunto estético, portanto, tinha um charme especial. Com o tempo, a nomenclatura se apequenou e virou apenas Vale.
A partir da década 1990, a ex-estatal sofreu consistente metamorfose. Transformou-se e caiu no colo da iniciativa privada. O Estado Nacional ainda detém considerável naco do empreendimento. A história da privatização da “joia da coroa” reserva capítulos escabrosos. O processo foi bizarro. O patrimônio do povo brasileiro foi negociado pela bagatela de R$ 3,34 bilhões. Uma escandalosa mixaria. Como se vê, leilão foi simples eufemismo para doação. A suposta venda aconteceu no Governo FHC. Na ocasião, em 1997, o país convivia com outro modelo de polarização política. Petistas e tucanos se insultavam nas avenidas, praças, ruas e becos. Era “infantil” briga ideológica entre mortadelas e coxinhas, mas havia alternância de poder sem maiores traumas.
E como funcionava a tão cobiçada multinacional brasileira? A velha Vale era extremamente paternalista. Na verdade, uma genuína mãe, segundo avaliação do senso comum. O ambiente de trabalho era tranquilo, quase familiar. Não existia tanta tensão no chão de fábrica. Uma circunstância fundamental possibilitava esta harmonia. A palavra demissão não atormentava as noites de sono do proletariado. Nesta época, Itabira e Cia. Vale do Rio Doce se completavam. Ninguém conseguia definir exatamente onde terminava a cidade e começavam as minas. Ou vice-versa. Neste cenário misturado, sociedade e mineração se confundiam. O poder político era compartilhado. Persistia, então, uma dúvida perturbadora. Quem mandava mais em Itabira? O prefeito ou o superintendente das Minas (o cargo máximo da empresa no município)? A imponência do prédio do Areão — o escritório da Superintendência — dirimia a dúvida. Mesmo porque, a prefeitura sempre ocupava improvisadas espeluncas.
Um panorama social resta muito claro. Nas décadas de 1960 e 1970, a terra do Poeta Maior parecia um gigantesco acampamento a céu aberto. O maior do planeta. As ruas mais movimentadas do centro eram de chão batido avermelhado. Uma densa nuvem negra de poeira cotidianamente envolvia a atmosfera. A paisagem urbana conservava feição medonha. Era impossível a prática de uma respiração com qualidade neste meio ambiente. As peles das pessoas cintilavam de tão incrustadas de pó da hematita.
E o mais incrível. Durante 24 horas, um exército de operários desfilava pelos logradouros públicos. Essa turma vestia grossos vestuários de brim amarelo. A chefia trajava camisas diferentes. O tom era um marrom de péssimo gosto. Milhares de capacetes, das mais diversas cores, enfeitavam as cabeças da massa trabalhadora. Cada tonalidade correspondia a uma categoria profissional específica. O azul escuro distinguia os operadores das usinas de beneficiamento de minério. Os mecânicos usavam cor laranja. Os eletricistas se protegiam com uma cobertura amarela. Engenheiros e supervisores usavam capacetes brancos. A vestimenta diferenciada servia para distanciar os “mandarins” da peãozada.
Os funcionários da velha CVRD se trajavam desta forma dia e noite. O uniforme praticamente se transformou em mais um órgão do corpo humano. Homens (e poucas mulheres) — com esta indumentária típica — andavam por todos os lugares. Em lojas, igrejas, cinemas, botecos, restaurantes, festas, cemitérios e na zona do Sozinho, na famosa Curva da Estação. Era a eterna onipresença de seres naturalmente onipresentes.
E valia apena trabalhar nesta Babel industrial? Valia. E como valia. Valia muito. Sob todos os aspectos. A remuneração era generosa, acima da média nacional. A estatal pagava 15 salários por ano. Além do 13°, havia duas gratificações adicionais nos meses de julho e dezembro. E os privilégios não acabavam aqui. A “mãe generosa” ainda oferecia atraentes (e surrealistas) benefícios. O Hospital Carlos Chagas, por exemplo, atendia exclusivamente aos “colaboradores” da exploradora de minério. As mordomias não tinham limites. A CVRD foi proprietária de armazéns onde os trabalhadores compravam fiado. Anotavam-se os débitos nas tradicionais cadernetas. Existiam convênios com várias entidades e estabelecimentos comerciais. Diante de tantas regalias, a maioria dos itabiranos sonhava entrar na Vale.
Esta crônica pode ser lida como um necrológio. Afinal, a “produtora de cavas” vive seus derradeiros dias em Itabira. Veja, então, a seguinte ilustração. A mulher do cantor e compositor Toquinho encontrava-se no oitavo mês de gravidez. Estava prestes a dar à luz. O músico resolveu prestar prévia homenagem ao filho Pedro e compôs a sublime canção “Ao Que Vai Chegar”. Não tenho talento mínimo, mas se pudesse escreveria uma letra sobre o atual momento da Vale em Itabira. O título da obra seria provocativo: “À Que Vai Partir”. E ponto final.
P.S.1: os antigos itabiranos já nasciam com predestinação bem traçada: trabalhariam na CVRD. A sequência começava com os pais e chegava aos bisnetos. A década de 1970 marcou o início do fim desta continuidade hereditária. Aí os muros da cidade lamentaram: “CVRD: Meu pai 30 anos, e eu?”.
P.S.2: Os ônibus da empresa Cisne circulavam 24 horas com trabalhadores da CVRD. Só se viam capacetes dentro dos coletivos. Então, dá até para contextualizar parte do “Poema de Sete Faces” de Carlos Drummond de Andrade:
“O ônibus passa cheio de capacetes
Capacetes brancos, pretos, amarelos
Para que tanto capacete, meu Deus? Pergunta meu coração
Porém, meus olhos
Não perguntam nada”
P.S.3: Por falar em Drummond, esta crônica, intitulada “Valia a pena trabalhar na velha Cia. Vale do Rio Doce?”, é fruto da capa do jornal Diário de Itabira, publicada em 9 de agosto de 2025.
Sobre o colunista
Fernando Silva é jornalista e escreve sobre política em DeFato Online.
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