Matéria publicada na edição 267 da Revista DeFato
Respeitável público, o circo chegou com atrações espetaculares, magia e muita animação! Tem malabarista? Tem sim, senhor! Tem trapezista? Tem sim, senhor! Tem palhaço? Tem sim, senhor! As célebres frases conhecidas do público, principalmente os de meia idade para cima, anunciam que tem atrações no picadeiro. O que nem sempre os espectadores fi cam sabendo é quanto trabalho há por trás das cortinas – e da luta dos artistas por reconhecimento e valorização.
O Circo Broadway, com o Espetáculo das Américas, faz parte dessa história. Após mais de 15 anos viajando por todo o Brasil, retornou a Minas Gerais e fez um tour pelas cidades da região, entre elas João Monlevade, Itabira e Santa Bárbara. A frota de veículos constituída por 14 carretas, trailers, ônibus e carros viaja o ano inteiro em busca de novos sorrisos.
Criado no Rio de Janeiro há mais de 30 anos, o circo de Ronaldo Ramito, 59 anos, atualmente tem sede administrativa em Belo Horizonte. A família é tradicionalmente do circo; já está na sexta geração. São mais de 150 anos. O filho de Ronaldo, Roger Ramito, 30, começa, aos poucos, a tomar frente do negócio. Hoje ele atua como diretor executivo, além de se apresentar no picadeiro.
O Broadway tem mais de 45 funcionários que trabalham tanto nos espetáculos quanto na produção, manutenção e montagem das estruturas. Em cada cidade que o circo chega, um grande número de pessoas é contratado temporariamente para ajudar na montagem, limpeza e demais serviços.
No passado, Ronaldo fazia de tudo, dentro e fora do picadeiro. Hoje o patriarca apenas administra e norteia a equipe dos bastidores. O filho Roger atua em cinco apresentações distintas, além de produzir o show, contratar pessoas e ser responsável pela parte financeira do circo. “Ajudo na montagem, sou eletricista, o que precisar fazer a gente faz. Quando se cresce nessa vida, você desempenha vários papeis ao mesmo tempo”, revela.
Ronaldo construiu toda sua vida no circo. Assim como o filho, mora dentro de um caminhão adaptado com banheiro, cozinha, quarto e sala. “É muito maravilhoso poder viajar por todo o país, conhecer pessoas novas e levar alegria”, conta.
A saudade da família faz parte da rotina. Alguns, como Roger, conseguem resolver esse problema levando a mulher, também trapezista, e os três filhos. “A gente acaba acostumando. O pessoal fala que mora em casa e passa férias no mundo. Nós somos o contrário: moramos no mundo e passamos férias em casa”, diz orgulhoso.
Dificuldades
Mas nem tudo é sorrisos na vida de circo. As dificuldades fazem parte das lutas diárias dos artistas. O fundador do Broadway reclama que os circos no Brasil não são respeitados como em países da Europa. Além disso, não há, na visão dele, um tratamento igualitário entre os circos nacionais e estrangeiros. “Quando chega algum espetáculo de fora o governo e as empresas apoiam, investem. Enquanto isso, nós, brasileiros, não temos o mesmo reconhecimento”, reclama.
A opinião é compartilhada pelo filho e também pelo palhaço Marco Antônio da Silva, 40 anos, o Chameguinho. Roger acredita que o circo foi “absorvido” pela grande mídia. “Tudo foi sendo jogado na televisão. As palhaçadas, o humor, alguns truques”. Para ele, se hoje há teatros e novela, agradeça ao circo.
O avanço da tecnologia é, na visão dos artistas, um grande desafi o. A facilidade de se encontrar vídeos na internet com números circenses é muito grande. “A pessoa não precisa mais ir a um circo para ver algum número. Antigamente, quando não se tinha acesso à televisão e internet, os espetáculos faziam grande sucesso e impressionavam”, conta Roger.
A maior luta do circo, no entanto, continua sendo contra a falta de apoio dos governos, seja em escala municipal, estadual ou federal. As taxas cobradas pelas prefeituras para a instalação da estrutura, por exemplo, são muito onerosas. “A gente precisa pagar quase R$ 6 mil de Imposto Sobre Serviço (ISS). Há semanas que não fazemos dinheiro para cobrir a folha de pagamento dos funcionários”, reclamou o filho Ramito. O patriarca também critica. “O governo dá apoio ao futebol, ao carnaval, ao teatro, à música, mas não dá apoio ao circo. O circo é cultura”.
Há também a dificuldade de se encontrar terrenos para se instalar. Os públicos são cada vez mais raros e os particulares são muito caros. Mesmo assim, eles continuam ativos e movimentam a economia das cidades ondem chegam. São veículos que precisam ser abastecidos, empregos indiretos que são criados, vagas em hotéis que são preenchidas. “A gente trabalha, consome e gasta. 70% do que arrecadamos fica nas cidades”, revela o trapezista Roger.
Vida de palhaço
Palhaço não faz palhaçada apenas. Nos circos itinerantes, ele precisa lidar também com as adversidades, sem desbotar o sorriso. Marco Antônio é o palhaço Chameguinho do Circo Broadway há 25 anos e sabe dessa responsabilidade. “Fazer rir é complicado e o palhaço precisa ser engraçado em sua essência. As pessoas precisam rir só de o palhaço aparecer no picadeiro”, diz. “Não pode entrar com má vontade, pois o público sente. A gente dá o sangue pelo que a gente gosta”, completa.
“O palhaço, independentemente de qualquer problema, precisa ser feliz com o que faz. Pode estar doente, ter brigado com a mulher, mas quando passa da cortina, tudo fica para trás”. E assim, de cidade em cidade, os espetáculos vão espalhando alegria. Tem palhaço? Tem sim, senhor!