No mês das mulheres, DeFato preparou uma matéria especial com três dedicadas mães de família que resolveram trocar a comodidade do lar para trabalhar. Seja para ajudar em casa ou buscando o bem-estar do próximo, elas deixam aqui uma lição de determinação, amor e superação. Parabéns às três Marias e também às muitas outras mulheres que fazem a diferença em nossa sociedade.
Maria Helena – Amor
Nos eventos que acontecem no Parque de Exposições de Itabira, Maria Helena Fernandes, 66 anos, está sempre presente. Ela é responsável por uma barraca de alimentos e bebidas bastante frequentada. A mulher que prepara o feijão tropeiro e o macarrão na chapa (as duas comidas mais vendidas), conta uma história marcada pelo amor incondicional à família.
Itabirana, Maria Helena casou-se aos 16 anos. “Se a mulher chegasse aos 20 sem casar, era malfalada”, comenta. Na época do nascimento das crianças, o marido de Maria Helena trabalhava como motorista para o então prefeito Virgílio Gazire. Em janeiro deste ano, o casal completou 50 anos de casados.
Ela teve 12 filhos: 11 homens e uma mulher. “Cada filho que nasce é uma emoção diferente”, afirma. As mais tristes lembranças que tem são o falecimento de dois deles: um aos dois anos de idade, outro, poucas horas depois de nascer. Devido à dor da perda, ela afirma ter ficado sem sair de casa por 22 anos, até que os filhos crescessem. “Saía para fazer compra uma vez por mês”, lembra.
Segundo Maria Helena, um dos filhos teve gigantismo (crescimento mais rápido que o normal). Uma cirurgia foi feita e, em seguida, uma radioterapia. Felizmente, o filho se recuperou bem e hoje tem 40 anos.
As despesas para o sustento da família eram grandes: “Gastava 60 kg de arroz, 60 kg de feijão e 15 kg de macarrão por mês.” Como gostava de cozinhar e os filhos estavam crescidos, resolveu investir na venda de alimentos.
Em sua barraca no Parque de Exposições, ela comercializa, além do tropeiro e do macarrão, bebidas, espetinho de frango e sanduíche de pernil. A comerciante acrescenta que valoriza muito o fato de ter a própria renda. “Gosto de ganhar meu dinheiro”, afirma.
Quando criança vendia pastéis que sua mãe fritava. Também vendia esterco e entregava marmitas. Ela conta que, em breve, nascerão gêmeas na família, aumentando para 13 seu número de netos. Entre os sonhos que nutre estão a vontade de chegar a ter bisnetos, conhecer uma escola de samba no Rio de Janeiro e viajar para o sertão nordestino. “O local chama muito minha atenção: vejo as reportagens e tenho vontade de ir para ajudar”, comenta.
Maria Gorete – Determinação
Determinação, doação e independência são termos facilmente encontrados no dicionário da vida de Maria Gorete Santiago Viana, de 53 anos. Nascida em Dionísio, aos sete mudou-se com a família para a capital mineira à procura de melhor condição financeira.
Ainda na adolescência, já apontava os caminhos que seguiria como voluntária na prestação de serviços comunitários. Sempre que podia, buscava ajudar as pessoas humildes do seu bairro. Ela conta que os pais trabalhavam pesado para garantir o sustento da família, que era grande. Ela e os nove irmãos faziam questão de ajudar nas despesas da casa. Vendiam painéis para bater laje, além de geleias e sabão.
A família era a prioridade dos pais. “Nossa casa sempre esteve pronta a acolher os parentes que tentavam a sorte na capital”, diz, saudosa.
Em 1977, ela veio morar com o marido Antônio Ângelo, em João Monlevade, no bairro Industrial, onde criou suas três filhas. As duas mais velhas, Elzeline e Giliane, já concluíram seus estudos (Educação Física e Turismo, respectivamente) e a mais nova, Júlia, está prestes a se formar em Veterinária.
Ela destaca um fato ocorrido em 1991, que deu o impulso de que necessitava para ingressar no trabalho voluntário. “Prometi à Santa Rita de Cássia que dedicaria minha vida ao próximo se ela me curasse de uma doença”, revela.
Assim, a convite de uma vizinha, ela começou a prestar serviços à Pastoral da Criança do bairro. Hoje, a entidade tem sede própria no bairro Industrial, onde são assistidas 30 famílias. “Graças a Deus e ao trabalho com outras entidades, o número de crianças desnutridas caiu consideravelmente na cidade”, ressalta a incansável cidadã, que ainda atua nos conselhos municipais de Saúde e Tutelar.
Militância política e estudos
Desde 2003, Maria Gorete integra o Partido dos Trabalhadores e atua na militância. “Sempre que posso, contribuo para o crescimento do partido na cidade. Ultimamente estou um pouco distante devido à dedicação aos estudos”, afirma.
Após mais de 30 anos longe das salas de aula, ela decidiu recomeçar. Nos últimos três anos, ela não somente concluiu o primeiro grau como já planeja a sua formatura (este ano) no curso técnico em Administração de Empresas, pela Escola Estadual Manoel Loureiro.
Emocionada pela conquista, ela narra a experiência. “Iniciar uma nova etapa da vida e saber que podemos buscar o melhor é muito gratificante. É uma satisfação estar com os professores e ver a dedicação deles. Isso nos estimula a continuar promovendo mudanças em nossas vidas”, ensina.
Instruída muito cedo pela escola da vida, ela filosofa, dizendo que ainda não descobriu o que busca. “Mas sei que não consigo me aquietar. Sei também que ainda terei outras coisas por fazer. Ainda sonho com uma faculdade em Assistência Social”, comenta.
Com o livro do seu futuro ainda por ser escrito, Maria Gorete planeja seguir com o trabalho. “Não me vejo longe da comunidade. Trabalhar com as crianças é uma realização. Entrei para a pastoral para ensinar as famílias a sobreviver e agora trabalho numa atividade remunerada, em que as crianças e adolescentes necessitam buscar diariamente a sobrevivência. Lá há pessoas carentes de afeto e família, que precisam de mim”, frisa.
Maria Francisca – Superação
Repleta de trabalho, garra e vitórias. Assim tem sido a vida da aposentada Maria Francisca de Assis, 71 anos, conhecida como Dona Neném. Mãe de uma filha, a pedagoga Luciana Santos de Assis, 37 anos, e avó de três netas, Maria Francisca é uma mulher guerreira que precisou batalhar por tudo o que conquistou.
Terceira de dez irmãos, ela nasceu em Nova Era e se mudou para Itabira aos sete anos, quando seu pai, feitor de turma da Vale, foi transferido para a cidade para ajudar na construção da estrada de Ferro Vitória/Minas. Antes de chegar a Itabira, a família de Maria Francisca residiu em Oliveira Castro, Capoeirana e Laboreaux – localidades de Minas Gerais onde o pai trabalhou.
Quando veio para Itabira, a Vale havia construído seis casas para os trabalhadores que chegaram à cidade. “Para irmos ao hospital, onde hoje funciona o Senai, precisávamos ir a pé, pela linha”. A aposentada lembra com carinho de sua infância e ressalta que aos cinco anos já trabalhava em casa. “Minha mãe tinha uma pensão que servia aos trabalhadores da Vale e eu a ajudava. Calcei sapatos pela primeira vez aos 13 anos”, conta, emocionada.
Maria Francisca cresceu aprendendo o valor do trabalho e fez dele a ferramenta fundamental para conquistar tudo em sua vida.
Aos 34 anos, ela foi para São Paulo buscar melhores condições de vida. Trabalhou em uma fábrica e também como empregada doméstica. Seis meses após ter sua filha, voltou para Itabira a pedido do pai e comandou, com sua mãe, um restaurante.
Quando o restaurante fechou, começou a fazer salgados para festas. Depois comprou uma máquina de tecer tricô. Chegou a ter uma loja de aviamentos, fabricou calcinha, soutien e uniformes. “Nunca escolhi trabalho. Ficar parada é algo que nem imagino. Só quando Deus me levar! Até para ver televisão eu preciso está fazendo algo, nem que seja um fuxico. O trabalho parece que me faz voltar no tempo, sinto-me muito bem, disposta e feliz. Estou sempre de alto-astral”, confessa.
Maria Francisca criou a sua própria filha e hoje ajuda a educar as três netas. Ela conquistou sua casa própria e ainda ajudou no estudo dos irmãos. A cada minuto de sua vida, procura aprender algo e transmitir seus conhecimentos e experiência de vida às pessoas. Há pouco tempo, formou-se no projeto Tecendo Itabira, que consiste em ensinar técnicas de reciclagem de sacos de cimento, jornal, garrafas PET e caixas de leite, além de costura, bordados e aplicações em crochê. “O projeto me fez muito bem, revi pessoas que não via há muitos anos, fiz novas amizades e adoro ensinar tudo o que sei para quem quiser aprender”, conta.
Hoje, ela trabalha fazendo reformas de roupas, tricô, crochê, bordando, e o que mais achar útil e interessante. “O que não se pode é ficar parada”, enfatiza.
Diante de tanto ânimo e lições de vida, é visível o alto-astral e saúde de Maria Francisca, que afirmou raramente precisar de médico. A aposentada faz questão de dizer que conta para as netas suas experiências de vida e procura ensiná-las sobre a importância do trabalho. “Quero que elas saibam valorizar o que têm e queiram estudar e trabalhar para conquistar tudo o que desejarem, assim como eu consegui, conclui”.