“Voltamos a viver”: tratamento com cannabis medicinal muda rotina de família no Sul de Minas
Há quatro anos, Maria Isabel iniciou o uso de medicamentos à base de cannabis medicinal para auxiliar no tratamento da demência
O que antes era marcado por crises de agressividade, agitação e isolamento familiar deu lugar a encontros, viagens e momentos de convivência. Às vésperas do Dia das Mães, a história de Maria Isabel, de 86 anos, e da filha Luciane Csizmar de Oliveira Mariano, de 49, revela como o tratamento com cannabis medicinal mudou a rotina da família em Alfenas, no Sul de Minas Gerais.
Há quatro anos, Maria Isabel iniciou o uso de medicamentos à base de cannabis medicinal para auxiliar no tratamento da demência. Segundo a família, a mudança foi significativa tanto para a paciente quanto para os familiares que conviviam diariamente com os desafios da doença. “Cannabis é vida, paz, amor e harmonia familiar. Cannabis é simplesmente voltar a viver”, resume Luciane, que atua como gestora de obras.
Antes do tratamento, a idosa utilizava cerca de 14 medicamentos diferentes para controlar sintomas como alterações de humor, agressividade, agitação e episódios severos de desorientação. A família conta que situações simples do cotidiano, como sair de casa ou frequentar ambientes diferentes, costumavam provocar crises intensas.
O primeiro contato com a possibilidade do tratamento aconteceu de maneira inesperada, durante uma conversa em um salão de beleza. A partir disso, Luciane buscou acompanhamento especializado em Varginha e decidiu iniciar o tratamento da mãe.
Melhora gradativa
De acordo com ela, a melhora foi percebida gradativamente. Maria Isabel voltou a participar das conversas, demonstrar interesse pelos encontros familiares e interagir novamente com o marido e os seis netos. “Hoje temos qualidade de vida. Não apenas para ela, mas para todos nós. Antes, não conseguíamos sair de casa. Hoje conseguimos ir a restaurantes, festas, passeios e até viajamos para a praia”, relata.
A família também enfrentou receios e preconceitos no início do processo. Luciane lembra que havia medo dos possíveis efeitos do medicamento. “No começo pensamos: ‘Será que ela vai ficar dopada?’. Mas aconteceu justamente o contrário. Dopada ela estava antes, com tantos medicamentos convencionais”, afirma.
Cannabis medicinal e redução da polimedicação
A médica Mariana Maciel, fundadora da Thronus Medical, explica que a redução da polimedicação é um dos principais benefícios observados em pacientes neurológicos e idosos. “É comum encontrarmos pacientes com demência utilizando múltiplos medicamentos simultaneamente para controlar sintomas comportamentais, ansiedade, insônia e agitação. Em muitos casos, isso aumenta o risco de sedação excessiva, quedas e perda de autonomia”, explica.
Segundo dados da Organização Mundial da Saúde, mais de 55 milhões de pessoas vivem atualmente com demência em todo o mundo, com cerca de 10 milhões de novos casos registrados anualmente. A médica afirma que estudos recentes têm investigado o potencial dos canabinoides no controle de sintomas comportamentais associados às doenças neurodegenerativas, como alterações de humor, distúrbios do sono, agressividade e agitação.
Para Mariana Maciel, o avanço da informação sobre a cannabis medicinal contribui para reduzir o preconceito em torno do tratamento.
“Quando conseguimos devolver conforto, participação social, convivência familiar e dignidade, estamos falando de saúde em seu sentido mais amplo. Muitas vezes, o maior resultado não aparece em um exame, mas no momento em que uma família consegue voltar a viver junto”, conclui.