Itabirano lidera pesquisa que busca cura do Alzheimer por meio do veneno de jararaca
Samyr Machado Querobino é doutor em Neurociência e desenvolve estudo inédito na Universidade Federal do ABC Paulista

Doença responsável por quase 70% dos casos de demência em todo mundo, o Mal de Alzheimer cresce na mesma proporção que a expectativa de vida aumenta no planeta. Segundo a Organização Mundial da Saúde, a estimativa é de que, a cada ano, cerca de 10 milhões de novos casos sejam registrados. Nessa projeção, seriam 132 milhões de pessoas com o problema em 2050, um novo caso a cada segundo. Somente no Brasil, os cálculos são de que mais de 1 milhão de habitantes sofram da doença atualmente.
Os números são impressionantes e despertam o interesse de cientistas em todo planeta. E, no interior paulista, um itabirano lidera uma pesquisa baseada no veneno de cobras jararacas em busca da cura para o Alzheimer. Samyr Machado Querobino é doutor em Neurociência e Cognição pela Universidade Federal do ABC (UFABC), em São Bernardo do Campo. Na instituição, com a apoio do professor-doutor Carlos Alberto Silva, desenvolve seu método até então inédito.
Samyr é formado em Biomedicina pela Funcesi, especialista em Gestão de Resíduos pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e mestre em Biotecnologia também pela UFABC. Ele defendeu o doutorado no fim de maio deste ano, dando prosseguimento à pesquisa que iniciou durante o mestrado. São 11 anos destinados à vida acadêmica e à pesquisa na área dos fármacos.

Veneno do bem
A pesquisa do itabirano está baseada no veneno da cobra de gênero Bothrops, popularmente chamada de jararaca e bastante comum nas regiões Sul e Sudeste do Brasil. O estudo consiste em isolar uma fração de baixo peso molecular da toxina e retirar dessa parte agentes chamados de Peptídeos Potenciadores de Bradicinina.
Samyr explica que esses agentes foram inicialmente descritos em estudos elaborados na década de 60, por pesquisadores brasileiros do Instituto Butantã. Mais tarde, nos anos 1980, a partir de um desses peptídeos foi desenvolvido o Captopril, primeiro remédio voltado para o tratamento da pressão arterial.
De acordo com itabirano, até 2010 acreditava-se que estes peptídeos retirados do veneno da jararaca atuavam apenas no sistema arterial. No entanto, a partir desta década, outros mecanismos começaram a ser apontados. “Em meu estudo, pela primeira vez, nós demostramos que três destes peptídeos apresentam ação neuroprotetora contra o estresse oxidativo em células neuronais humanas e também em células isoladas do hipocampo de ratos”, comenta Samyr, demonstrando a profundidade da pesquisa.
O hipocampo é uma das áreas do sistema cerebral mais afetadas pelo Mal de Alzheimer. Essa estrutura é considerada a principal sede da memória e é relacionado com a navegação espacial. Lesões no hipocampo impedem a pessoa de construir novas memórias, mesmo que as lembranças mais antigas, anteriores à doença, permaneçam intactas.

Reconhecimento
O trabalho desenvolvido por Samyr tem ganhado repercussão não só entre pesquisadores no Brasil, mas também em publicações especializadas no exterior. Recentemente, a pesquisa foi condecorada como o melhor trabalho apresentado no Simpósio de Pós-graduação em Biosistemas da Federal do ABC e premiada em evento internacional realizado pela Faculdade de Medicina da Santa Casa de São Paulo.
Artigos escritos pelo itabirano foram reproduzidos na revista da National Center for Biotechnology Information (NCBI – em português: Centro Nacional de Informação Biotecnológica), nos Estados Unidos, e no European Journal of Pharmacology.

Continuidade e dificuldades
Samyr é realista quanto à continuidade de seus experimentos. Sabe que entre as fases do estudo e da prática há um longo caminho a ser percorrido. Estrada tortuosa, cheia de dificuldades, ainda mais em um país que não trata o investimento em pesquisas como uma prioridade.
“Pesquisa clínica é um processo bem longo. É extremamente difícil prever datas por causa de problemas que podem ocorrer ao longo do período, inclusive a própria instabilidade do país em relação a verbas de pesquisa. No entanto, a história nos mostra que entre a ideia de um medicamento ser concebida e aprovação para uso demora em torno de 20 anos. É um processo bem longo por causa de todos os testes que têm de ser realizados e o atendimento a todas as normas de órgãos como a Anvisa. É um processo que vai ainda durar muito tempo. Eu que iniciei o processo, não tenho certeza se verei o finalmente”, comenta.
Samyr atualmente está em Itabira. A pesquisa está em fase de redação de artigos e elaboração de projetos. Apesar de já ter concluído o doutorado, ele tem permissão para continuar usando os laboratórios da universidade. O próximo passo será desenvolver uma fórmula farmacêutica capaz de introduzir as moléculas estudadas no sistema nervoso, a fim de que elas atinjam o alvo de ação.

Os detalhes técnicos são muitos e de difícil compreensão para leitos. Para Samyr, o complicado mesmo é vencer a barreira da falta de incentivo. “Infelizmente a carreira de pesquisador e cientista não é prioridade no Brasil”, lamenta o itabirano, que citou recentes reclamações de cortes de verbas em instituições como a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e nas Fundações de Amparo à Pesquisa (FAPs).
“O futuro das pesquisas no Brasil é incerto. Há uma cultura de desvalorização e do não reconhecimento até mesmo por parte da população. Sempre nos deparamos com comentários na web sobre o Brasil não produzir conhecimento ou que bolsa de pós-graduação é um gasto inútil. É um cenário um pouco triste, mas no Brasil são feitas pesquisas de destaque, pesquisas de qualidade e com reconhecimento internacional. Temos um grande potencial de inovação e desenvolvimento”, finaliza.