Ipatinga: do passado progressista ao presente reacionário
Com o passar das décadas, município passou por uma grande transformação política, que envolve a desindustrialização, o crescimento das igrejas pentecostais e outros fatores
Hoje uma cidade reconhecidamente de perfil conservador, Ipatinga carrega em sua história um passado progressista. A cidade que neste ano elegeria Jair Bolsonaro (PL) como presidente da República (com 65,12% dos votos) é a mesma que, durante os anos 70, 80 e 90, foi marcada pelas lutas sindicais e movimentos alinhados à esquerda. Ou seria quase a mesma?
Para entender toda a transformação política do principal município do Vale do Aço, conversamos com o historiador ipatinguense Sávio Tarso. Ele divide os fatores para essa mudança entre fenômenos nacionais e outros muito próprios de Ipatinga. Além disso, deixa um aviso: pelo menos em um futuro próximo, esse é um cenário irreversível.

Desindustrialização
Antes de iniciar a explicação, Sávio Tarso diz à reportagem que caberia “um estudo sociológico mais aprofundado” sobre o que ocorreu não só em Ipatinga, mas no Vale do Aço, como um todo, e no restante do país.
Especificamente sobre o município, o historiador cita a “desindustrialização” como o primeiro fator relevante da questão. A Usiminas – principal empresa do setor e outrora maior empregadora da região – e suas empreiteiras passaram de 30 mil operários na década de 70 para aproximadamente 4.000 empregos diretos gerados atualmente, diz Sávio. Ele ainda ressalta que o mesmo processo ocorreu em todo o país.
“O Brasil, nesse período, deixou de ter 33% do PIB ligado à indústria para algo entre 9 e 11% nos dias de agora. Então esse é o primeiro grande motivo da mudança do perfil (político da população). Hoje não podemos dizer mais que Ipatinga é uma cidade operária. É uma cidade que, evidentemente, tem como principal fonte de renda a produção siderúrgica – pela importância financeira que tem para o estado e sobretudo ao município – mas é uma cidade onde a maioria da população está ligada ao setor de serviços. É uma população que hoje consegue emprego nas lojas, comércios e empresas que oferecem todos os tipos de serviços à população. Essa é a primeira coisa a ser considerada”, explica.
“O segundo dado, também ligado à desindustrialização, é o processo tecnológico de automatização. Junto com a terceirização, diminuiu a quantidade de empresas na cidade. Apesar de termos várias outras siderúrgicas, que inclusive produzem para o Brasil, esse processo de terceirização e automatização diminuiu muito a quantidade de trabalhadores no setor”.
Um dos efeitos da desindustrialização citada pelo também professor de Comunicação, Filosofia e História foi a transformação do até então operário para o empreendedor. Com isso, diz Sávio, vários ipatinguenses passaram a integrar um grupo definido por ele como “pequena burguesia”.
“E um fenômeno que é muito visível foi o processo de transformação deste operário, que aposentou e virou classe média. Esse operário acaba empreendendo, virando pequeno e médio comerciante da cidade. Se você andar pelos corredores comerciais dos bairros Cidade Nobre, Bom Retiro e Betânia, e conversar com os lojistas, verá que a maioria deles era operário, era metalúrgico da Usiminas, que aproveitou os ganhos da aposentadoria para investir no comércio. Deixou de ser uma classe operária para ser a classe de comerciantes, a pequena burguesia”.

Ficou no passado
Sávio Tarso relembrou, ainda, a primeira vitória do petista Chico Ferramenta nas eleições municipais. Principal nome do campo progressista ipatinguense, ele voltaria a ser eleito em outras duas oportunidades. Mas aquele cenário que consagrou o líder sindical já não existe mais, garante Tarso.
“É óbvio que aquela cidade que o PT ganhou pela primeira vez em 1988, aquela cidade que estava em ebulição em função da luta sindical, envolvidíssima nos movimentos populares, não existe mais. Porque houve uma mudança no perfil demográfico em Ipatinga. Havia uma grande massa trabalhadora, metalúrgica, ligada ao movimento sindical, reivindicando salários, melhores condições de trabalho. Essas lutas não existem mais no dia a dia do município, pautando a imprensa, pautando os grandes debates. Virou uma luta setorial, de uma parcela pequena de Ipatinga”, pontua.
Além disso, o historiador concilia o fenômeno a outro movimento importante: a migração. Mas não só dos estrangeiros, como também de moradores de cidades vizinhas, especialmente agricultores.
“De onde vem esse reacionarismo? E aí eu tô fazendo, evidentemente, uma especulação, baseada em alguns dados que conduzem essa reflexão. Ipatinga foi construída em torno de duas empresas, Usiminas e Acesita, que demandaram uma inteligência de fora. Principalmente a Usiminas, de capital único japonês, recebeu uma colônia imensa de japoneses, mas também gente de toda parte do mundo e também de dentro do Brasil, como o nordeste etc. Mas o grosso da migração não foi de fora, é do entorno daqui, das cidades pequenas. O pequeno agricultor deste milênio, que já tinha valores muito arcaicos…”, completa.

Religião
Se as igrejas pentecostais crescem de maneira cada vez mais firme no país, em Ipatinga o cenário se acentua. Importante base de apoio do atual presidente Jair Messias Bolsonaro, os evangélicos possuem uma presença acima da média nacional no município do Vale do Aço. De acordo com Sávio Tarso, tal fenômeno está conectado, inclusive, com a desindustrialização e a consolidação do comércio citados anteriormente.
“Quando chegamos nos anos 2000, onde há essa desindustrialização e a ascensão do empreendedorismo, você tem outro fenômeno: o crescimento das igrejas pentecostais. O Brasil hoje tem 33% de evangélicos, e Ipatinga, segundo o último dado, chega próximo de 50%, muito maior que a média nacional. E essa nova visão religiosa traz valores que combinam com o mundo dos serviços, do comércio e do empreendedorismo, a famosa teologia da prosperidade. É o famoso PJ, que não se sente mais trabalhador, que não quer mais ser batedor de cartão e não tem consciência de classe. Ele se acha muito mais próximo da ideia de patrão”, enfatiza.
“Esse novo sujeito não tem ligação nenhuma com toda a história nos anos 70, 80 e 90 na nossa cidade e região. Ele é de uma conjuntura totalmente diferente, a conjuntura da estabilidade da moeda, dos mundo dos commodities, da explosão dos serviços. E ele acha muito estranho essa cidade ter tido 20 anos de administração do PT. Não estou nem falando do antipetismo em si, estou falando que ele acha muito estranho essa cidade ter sido governada pelo partido dos trabalhadores. Pois ele não se sente trabalhador!”.
Cenário irreversível?
Questionado pela reportagem se ainda há possibilidade do campo da esquerda recuperar espaço em Ipatinga, Sávio Tarso logo rechaça o termo. Para ele, a luta atual é protagonizada entre aqueles que defendem a democracia e outros que a desprezam.
“Como eu disse para você, acho que um dos grandes problemas desse momento é esse debate de esquerda x direita. Acho que esse debate hoje não existe no Brasil. Temos, na verdade, um setor amplo que defende a democracia e outro que quer destruí-la. O Alckmin é de esquerda? Ele é um líder de centro. Precisamos acabar com esse debate”, exclama.
Logo após, o professor reitera que a mudança no cenário local dependerá, também, do cenário nacional. No entanto, ele admite: é difícil imaginar uma alteração desse contexto.
“Também vai depender muito da conjuntura nacional. Como é que esse novo governo do Lula vai estabelecer alianças, como vai ficar sobretudo a oposição ao Lula, para onde vai o bolsonarismo. Acho que ainda é muito cedo para responder se há chances dos setores progressistas e de esquerda vencerem as próximas eleições em Ipatinga. Hoje eu diria que não. O cenário aqui é mais difícil do que o cenário nacional”.
“Não dá pra fazer futurologia para Ipatinga. Só diria que hoje, nesse contexto, acho muito difícil um partido de esquerda ganhar, precisaria fazer uma grande composição, tal qual foi feita no Brasil, para que pudesse dialogar com esses setores que tradicionalmente não são ligados à esquerda, como os evangélicos”.
Ausência de lideranças e ascensão dos anônimos
Em 2020, quando boa parte do país já demonstrava insatisfação com os “outsiders” que ascenderam nos anos anteriores e voltava a escolher políticos mais tradicionais, Ipatinga tomou rumo contrário.
Um jovem vereador, desconhecido por boa parte da população, se tornou o prefeito mais novo da história do município. Filiado ao PSL, à época o mesmo partido de Bolsonaro, Gustavo Nunes aproveitou o forte apelo reacionário da região e bateu Nardyello Rocha, até então prefeito da cidade, nas eleições daquele ano.
Sávio Tarso explica como a improvável vitória pode ser conciliada ao tema da reportagem, e de que forma ela representa uma recente crise política que se instaurou em Ipatinga nos últimos anos.
“Casa totalmente (com a discussão). Gustavo era quase um anônimo como vereador, muito jovem, 26 anos, e surfou totalmente na onda bolsonarista. Ele se aproveitou do fato de que Bolsonaro ganhou com mais de 70% dos votos aqui em Ipatinga, e todo o apoio reacionário da cidade estava com o Gustavo. Aqui também há um processo de esgotamento total das grandes lideranças, como Chico Ferramenta, Sebastião Quintão e Robson Gomes. Passamos dez anos de muita instabilidade política e isso acabou, de uma forma muito profunda, fraturando os campos políticos que tínhamos ali e eliminando nomes consolidados, nomes que estão acima do bem e do mal. Nardyello Rocha (vencedor em 2016) foi o prefeito menos votado da cidade, com um percentual de abstenção enorme. Estamos vivendo um hiato de grandes lideranças, ninguém ocupou o lugar dos nomes consagrados”, ressalta.

Por outro lado, o professor não acredita que o bolsonarismo se manterá forte durante tanto tempo. Para ele, os ideais defendidos pelo movimento não convergem com o que pensa grande parte da população.
“A gente também não sabe a dimensão dessa onda bolsonarista, se ela vai se confirmar. Eu acredito que o bolsonarismo vai existir, mas não com essa pujança que foi de 2014 para cá. Mesmo porque é um movimento extremista, que defende coisas absurdas, como o armamentismo – que a população já rejeitou e rejeita em todas as pesquisas – o retorno de valores patriarcais, a tortura, coisas que não são do mundo contemporâneo. E aqui é a mesma coisa. A tendência é que essa ala radical se diminua, que ganhe agora seu tamanho exato, porque não tem mais um líder que atice essa massa e a mantenha energizada, enfurecida, com vontade de derrotar um inimigo imaginário. Ou seja, não há lenha para manter essa fogueira acesa. Penso que o que vai acontecer em Ipatinga, assim como no Brasil, é uma diminuição do bolsonarismo. Agora estão em uma posição diferente, não tem mais como controlar isso”, analisa.
Porém, à esquerda não basta apenas uma queda natural do bolsonarismo. Tarso defende que o campo progressista volte a dialogar com setores da sociedade para os quais virou os olhos recentemente.
“O discurso da esquerda está muito obsoleto, ela precisa ter propostas mais claras e canais de diálogo com esses setores. A esquerda tem uma certa indisposição com o empreendedorismo, mas vai ter que conversar, tem uma certa indisposição com setores tradicionais, mas vai ter que ter diálogo. Se não poderá até chegar ao poder, mas não irá mantê-lo”.
Massacre de Ipatinga
Ocorrido em 1963, o Massacre de Ipatinga, no qual vários funcionários da Usiminas foram fuzilados por militares enquanto protestavam por melhores condições de trabalho, também faz parte da radical mudança política da cidade.
À época, Ipatinga era distrito do município que passou a ser dividido entre Timóteo, Ipatinga e Coronel Fabriciano. Mas para além da sua emancipação, o “nascimento” do novo território representou um apagamento da memória do triste episódio.
“Sabemos muito bem que morreram muito mais do que sete operários, há relatos do Padre Avelino, padre da época, de que se viu mais de 90 corpos na fazendinha, onde eles eram recebidos e hoje funciona uma área industrial. Para apagar essa história, houve o planejamento da cidade. Ipatinga é urbanizada, pensada e planejada para se tornar uma cidade muito moderna. E esquecer o episódio”, relembra Sávio Tarso.

Segundo o professor, o Massacre de Ipatinga virou um tabu na região. “Esse episódio ainda é uma história que não pode ser contada. Ele é o traço mais marcante da cultura e da personalidade do homem ipatinguense, que é o silenciamento, o apagamento da memória. Ninguém fala do Massacre de Ipatinga aqui, não é um assunto pautado abertamente na cidade. Eu penso que a cidade continua em seu curso normal, da dificuldade de assumir sua consciência de classe. Gostaria que fosse (uma cidade) mais politizada, mas hoje diria que não é”.
“Aqui, de fato, era um reduto das esquerdas, e foi assim durante um período específico, entre 1988 e o início dos anos 2000. O resto não, e é muito pouco para uma cidade com 55 anos de trajetória. Temos o misto de uma cidade operária, politizada, moderna e avançada. Mas penso que a mentalidade hegemônica aqui é conservadora e reacionária”.
Por fim, a entrevista é concluída com uma pergunta simples e direta: o progresso apagou a memória do ipatinguense? A resposta não deixa dúvidas.
“O objetivo foi esse. O planejamento da cidade foi feito para apagar a memória do Massacre de Ipatinga. Foi todo orquestrado no sentido de esquecer aquele episódio, estávamos no auge da ditadura militar. Para se ter uma ideia, aqui era área de segurança nacional, as pessoas aqui eram vigiadas. Eles modernizam a cidade, para que as pessoas não vejam sentido nenhum naquele passado”.




