Aumento da criminalidade em João Monlevade

Comércio funciona trancado por grades na avenida Getúlio Vargas, em Carneirinhos, coração de Monlevade

Aumento da criminalidade em João Monlevade

Basta uma volta pelas ruas e avenidas centrais de João Monlevade para constatar que as pessoas estão sofrendo de insegurança. Entre moradores e lojistas, o assunto é o mesmo: o medo causado pela criminalidade. Em novembro, a situação que já não era confortável, parece Monlevade com medo. O estopim foi a morte de um comerciante em plena luz do dia. A população, assustada, saiu às ruas para pedir mais segurança. Querem a Monlevade pacata de volta. A morte aconteceu no dia 3 de novembro, por volta das 13h. Inácio Alves Viana, 57 anos, foi morto dentro da ótica Pontual, de sua propriedade, na avenida Getúlio Vargas, em Carneirinhos, coração comercial de João Monlevade. Dois ladrões – menores de idade – invadiram o local e anunciaram o assalto. A vítima reagiu e acabou sendo morta a tiros.

As histórias de comerciantes vítimas de ladrões são muitas. Alguns, semter o que fazer, mudam de endereço, fecham os estabelecimentos e até pensam em mudar de atividade. No caso do comerciante Inácio, por exemplo, ele próprio já havia sido vítima de assalto há pouco mais de um mês antes de ter um fi m trágico. Por toda a região comercial, é fácil encontrar quem já passou por terror semelhante. 

Insegurança e protestos

João Monlevade é uma cidade com 75 mil habitantes e considerada tranquila até então. Hoje, a sensação de insegurança pode ser explicada pelos números. De acordo com dados da Secretaria de Estado de Defesa Social (Seds), nos últimos quatro anos o número de crimes contra o patrimônio (roubos e assaltos) só aumenta. Em 2012 foram 96; em 2013, 115; em 2014, 180; e em 2015, apenas entre janeiro e setembro, já são 215 ocorrências registradas. A criminalidade cresce e causa uma inversão nos papéis. Hoje, em Monlevade, são os comerciantes que estão indo para atrás das grades. Trancar as portas e passar cadeados é uma das soluções encontradas para impedir que o estabelecimento seja mais um a receber “visitas” de bandidos. Foi o que fez uma lojista, que preferiu não se identifi car, proprietária de uma relojoaria. Desde a morte de Inácio, passou a atender com grades e os clientes só entram se forem identifi cados. “Hoje os assaltantes estão destemidos demais. Eles não querem saber se está de dia ou se tem polícia na rua. São muito audaciosos”, diz.

No dia seguinte à morte de Inácio, os comerciantes fecharam as portas de seus estabelecimentos por 10 minutos. Foi o primeiro protesto contra a insegurança. No dia 11, houve nova manifestação, bem impactante. Mais de 500 pessoas, entre empresários, funcionários e estudantes, realizaram uma passeata até a Câmara de Vereadores, exigindo mais ações contra a criminalidade.

Causas e soluções

Todos buscam entender onde estão as falhas que têm permitido o aumento da criminalidade em Monlevade. O presidente da Câmara dos Dirigentes e Legistas (CDL) da cidade, Luiz Eugênio Oliveira Santos, acredita que a alta pode ter a ver com a atual crise econômica do Brasil. “Nossa cidade sempre esteve dentro de um índice de normalidade criminal, mas todo o país começou a passar por uma situação de inconstância, então aqui aconteceu também”, analisa.

“Espero que a polícia, com seu esforço e patrulhamento, logo tenha condições de restabelecer a situação para que a sociedade possa viver de uma forma mais tranquila possível”, completa. O comerciante e vice-presidente da CDL, Luiz Valente, tem uma loja no centro da cidade e há dois meses instalou câmeras e uma grade no estabelecimento. “Nunca fui assaltado, mas sou prevenido. Até que o Poder Público faça um serviço de qualidade, vamos nós mesmos fazendo um pouquinho para nossa segurança”, comenta.

Para o presidente da Associação Comercial e Industrial de João Monlevade (Acimon), Carlos Arthuso, não existe uma causa exclusiva no fenômeno da criminalização, muito menos uma única solução. “Se existe algum ‘sistema’ que deve ser reformado ou substituído, com certeza seria o sistema de intervenção estatal. Mudando políticas voltadas para a educação, cultura, saúde e geração de empregos”, diz Carlos.

A geografia pode ser uma das causas para a intensifi cação dos crimes, segundo o comandante da 17ª Companhia Independente da Polícia Militar, major Jayme Alves da Silva. Monlevade está situada às margens da BR-381 e temfácil acesso para criminosos de outras cidades e uma rota de fuga escancara-

da. “Vem muita coisa boa pela BR, mas muita coisa ruim também. Tivemos um assalto em um restaurante às margens da rodovia e os indivíduos eram de Contagem. Eles passavam por aqui e decidiram praticar o assalto”, conta o major.

De acordo com o comandante da PM, 38% dos roubos ocorridos nas últimas semanas em João Monlevade se relacionam a celulares e pequenos comércios, como padarias e mercados. “Uma loja de vitaminas e lanches foi alvo de um cidadão dependente químico, que assaltou o local com uma faca. Levou apenas R$ 50. É um valor baixo, mas já é o sufi ciente para impor medo na sociedade”, diz. Nas redes sociais, os monlevadenses passaram a enumerar os crimes ocorridos na cidade. Programas de trocas instantâneas de mensagens também ajudam a espalhar as informações. Para o major Jayme, essa interação é positiva, mas, muitas vezes, também transmite boatos. “Entrei nos grupos e pedi a gentileza de multiplicarem somente o que tiverem certeza”, disse. “Gerou um fenômeno que chamamos de ‘medo do crime’, porque a comunidade se sente acuada e começa a ver coisas que não estão acontecendo”, conta Jayme.

“Monlevade Viva”

Diretores da CDL e da Acimon participaram de uma reunião na Câmara de Vereadores, no dia 3 de novembro, para a apresentação do projeto “Monlevade Viva”, que visa a instalação de 41 câmeras de alta resolução em 17 pontos da cidade, todos levantados pela Polícia Militar. O sistema está avaliado em R$ 849.560,00 e deverá ser custeado por uma parceria público-privada. O projeto vai ajudar a prevenir crimes na área comercial da cidade.

Até conseguirem verba para implantar o “Monlevade Viva”, a Polícia Militar prepara um projeto semelhante e emergencial, em parceria com os comerciantes da cidade. O major conta que os comerciantes das avenidas Getúlio Vargas e Wilson Alvarenga poderão ceder o sinal das câmeras deles para a PM. “Vamos receber as imagens e monitorá-las”, explica. Segundo Jayme, o projeto custará cerca de R$ 20 mil e terá de 30 a 40 câmeras instaladas. “Já temos diversos comerciantes participando e um técnico da Prefeitura fazendo o projeto”, diz Jayme.

A parceria com os comerciantes é uma forma de combater a impunidade. Os autores do latrocínio do lojista Inácio – adolescentes de 15 e 16 anos – só foram apreendidos graças a imagens de câmeras de um estabelecimento vizinho. “Os menores entraram, atiraram e fugiram. Eles tinham mais de 12 passagens pela polícia. Nós só conseguimos identifi cá-los pelas fi lmagens. Fizemos um print e conseguimos chegar até eles”, narra. Os dois foram levados para um Centro de Ressocialização para Menores Infratores e fi carão lá pro 45 dias. A participação de adolescentes em crimes, aliás, é algo comum nas ocorrências em Monlevade. Com a sensação de impunidade, os menores voltam rapidamente para as ruas, criando um ciclo que sempre acomete novas vítimas. A polícia sabe quem são os assaltantes, tem detido alguns, mas pouco pode fazer, além de esperar que atinjam a idade sufi ciente para responder em tribunal.

O major Jayme conta que está realizando um trabalho em conjunto com a Polícia Civil, buscando apoio do Ministério Público e da Justiça para conseguirem acautelar esses menores. “Assim que conseguirmos fazer a apreensão de oito ou dez menores, a sensação de segurança vai melhorar. Hoje eles não têm sensação de impunidade, eles têm certeza da impunidade”, lamenta o major.

A luta contra a impunidade é árdua, mas precisa ser travada. Os monlevadenses querem de volta a tranquilidade. Querem ter, realmente, uma Monlevade viva. Mas que viva sem medo.