“Se fiz algum mal ao Valério, quero em dobro para mim”
Luzardo Drummond terminou seu mandato à frente da presidência do Valério em novembro deste ano
Luzardo Drummond não é mais presidente do Valério. No cargo desde 2011, quando assumiu após renúncia do então mandatário Reginaldo Sá (Nanaldo) e venceu a eleição seguinte para um mandato de quatro anos, sua administração chegou ao fim em 22 de novembro. A principal meta, que era tirar o Dragão da Terceira Divisão, não foi alcançada. Apesar disso, o dirigente considera importante sua passagem, especialmente por avanços em questões documentais e pagamentos de dívidas.
A eleição para definir o novo presidente do Valério acontece em janeiro de 2016. Até lá, o cargo fica interinamente por conta do presidente do Conselho Deliberativo, Sérgio Henrique Gomes. O agora ex-presidente admite que cometeu erros, mas sempre faz questão de frisar que tudo o que fez foi com a melhor das intenções. Valeriano apaixonado, Luzardo analisa que é justamente o sentimento tão forte que atrapalha em algumas decisões. “Sou um dirigente-torcedor e futebol não dá para levar só no amor”, diz.
Luzardo recebeu a reportagem de DeFato Online no gabinete da presidência do Valério nessa terça-feira, 8 de dezembro. Ainda não se acostumou com aquele lugar não ser mais o seu ambiente de trabalho. Emocionado em alguns trechos, falou sobre a temporada de 2015, o abandono em grupo dos jogadores e a disposição dos garotos que ficaram para a última partida. Citou o passado e projetou o futuro. Disse que está ferido, mas reafirmou seu amor ao clube: “Se fiz algum mal ao Valério, quero em dobro para mim”.

Mais uma vez o ano de 2015 terminou sem o acesso para o Valério. Como define a temporada?
O ano de 2015 foi como todos os outros anos. Um trabalho que começou com perspectivas, com a montagem de uma equipe bem itabirana, bem jovem. Trouxemos alguns reforços, montamos um a estrutura interna de concentração. Os jogadores ficaram mais próximos do trabalho. No geral, acho que tivemos nossos erros, como sempre. Não somos perfeitos. Poderia ter sido melhor, mais vitorioso. A gente tentou fazer, foi até um certo tempo bom. Depois não deu certo e não conseguimos o acesso. Mas a gente ganhou mais experiência. Futebol não é fácil. Futebol sem dinheiro não tem condições. Eu diria para você que quem está na Terceirona está no inferno. A Terceira Divisão é muito difícil. Os times que se organizam melhor conseguem chegar, igual fizeram o Uberaba e o Formiga.
Por que o Valério não se organiza também?
Veja bem, o Formiga, por exemplo, tinha 35 diretores acompanhando o dia a dia da equipe. E resultou no acesso. No Valério são poucas pessoas. Mais uma vez, acaba que a gente leva mais na vontade e no amor. E futebol não é isso. Futebol precisa de dinheiro e de uma equipe de trabalho organizada, precisa de diretores atuantes. O presidente, sozinho, dificilmente chega lá. E o Valério, mais uma vez, fica no esquecimento. Fez uma boa campanha na primeira fase e no Hexagonal não conseguiu sustentar a boa campanha. Mas é vida que segue. Espero que o novo presidente faça um trabalho voltado para o Valério, preocupado em resgatar o time. Acho que não é só subir de divisão, nós temos trabalhado muito na parte organizacional, com relação a documentação e negociação de dívidas. Neste tempo todos nós trabalhamos com isso, buscando as certidões negativas, temos vários parcelamentos em andamento. Só que nós temos deficiência financeira. O recurso que entra para o Valério não é suficiente para a gente levar o futebol. Nós buscamos sempre, com boas intenções, recuperar a estrutura do Valério.
Ficou marcado neste ano a saída em bando dos jogadores antes da última partida. Como foi para você essa situação?
Na última partida o pessoal abandonou o barco, ficaram 12 jogadores que honraram a camisa do Valério. Eu nunca tive dúvidas com relação aos garotos. O que os outros fizeram, já havia uma ameaça. Antes de jogar contra o Nacional, em Uberaba, quando nós acertamos a folha de setembro, no dia 22 de outubro, já havia a ameaça. Disseram que se não tivesse o dinheiro, eles não jogariam. Mas eu sempre confiei que teríamos jogadores para atuar. A gente teria que entrar com sete para não ser penalizado, e era o número que nós tínhamos. Mas ainda bem que os jogadores do América ficaram. Eles tiveram compromisso com o Valério, honraram a camisa. Aí tivemos 12 jogadores.
Ficou surpreso com a debandada?
Não fiquei surpreso com os jogadores que foram embora. Isso é típico de pessoas que não têm compromisso. Eles vieram para cá já sem compromisso. Não honraram o profissionalismo. Quando falaram que estava 50 dias atrasado o pagamento, não estava. O pagamento de outubro estava atrasado 15 dias. O de novembro ainda não tinha vencido. Acho que faltou profissionalismo da parte deles. Mas é vida que segue. Desejo sucesso a eles. Que eles vençam as batalhas pela frente. Infelizmente não cumpriram com o Valério a obrigação deles. Quanto aos meninos que ficaram, todos sabem jogar bola. Eles não tiveram a oportunidade que deveriam. E eu sempre falei que esses meninos eram para ser olhados 100%, não era meia boca. E eles provaram em campo que tinham toda condição.
Já acertou os salários dos jogadores?
Estamos trabalhando, buscando recursos para fazer esse acerto. Espero muito em breve estar acertando isso aí.
É difícil fazer as coisas darem certo no Valério?
Tudo que fizemos foi com boas intenções. Buscamos fazer tudo de forma que nunca prejudicasse o Valério. A gente sempre enxerga o Valério com todo respeito. Tudo que a gente procurou fazer foi de forma que beneficiasse o clube. Algumas coisas deram errado. Nem tudo dá certo nesta vida. Mas a questão toda é financeira. Na hora que o Valério terminar de organizar toda parte documental, vai poder buscar recursos fora, no Governo Federal, procurar investimentos para as categorias de base. Muitos clubes, até amadores, buscam esses recursos, mas não têm os problemas que o Valério tem. Coisas do passado, quando deixaram o Valério abandonado
O senhor sempre foi um apaixonado pelo Valério e isso ninguém discute. Mas concorda que o amor nem sempre é o suficiente para fazer as coisas darem certo?
É o dirigente-torcedor, né?! Olha, eu não preocupo comigo. O meu lado de paixão pelo Valério ficou ferido, isso é verdade. Mas eu não tenho que preocupar comigo, eu tenho que preocupar com a instituição Valério. E nós não estamos deixando o clube sucateado, o Valério está vivo. A nossa preocupação sempre foi o Valério. Entra diretor e sai diretor e o Valério continua. Desde quando cheguei aqui, que o Nanaldo me trouxe para ser diretor, eu propus retornar com as categorias de base e ele aceitou. Ele foi um grande presidente. A gente deve muito ao Nanaldo, que manteve o Valério vivo. Em 2011 ele saiu e eu assumi a presidência. Eu não fico preocupado comigo. O torcedor fica chateado e eles têm realmente que criticar. Mas o mal que eu casei ao Valério, desejo em dobro para mim. Se eu tiver causado algum mal, desejo em dobro para mim. Acho que fiz as coisas com transparência. O Valério é muito grande e a gente tem sempre que preservar a entidade Valério.
Por falar em categorias de base, o resgate do Valério não passa por investir nos mais jovens?
Outro dia nós tivemos uma reunião e comentamos sobre o resgate. E, sim, esse resgate tem que passar pelas categorias de base. Tem que ter. Hoje nós temos escolinha, mas é preciso ter a base. Tem que organizar a documentação para buscar os recursos. Sem recurso financeiro é difícil. A estrutura física do Valério é boa, atende para fazer um trabalho bacana. Não tem campo de treinamento, mas isso aí a gente pode conseguir fora. Eu acho que a paixão de muitos vai ajudar com o que o Valério não fique à mercê dessa situação. Com paixão e profissionalismo, acho que o Valério tem tudo para recuperar. O Valério é viável. Agora, tem realmente que ter um projeto. Algo maior, de reestruturação. Eu espero que o próximo presidente faça esse projeto. Se precisar de mim, estarei à disposição.
Sobre este projeto que está sendo anunciado pela cidade, o Novo Valério, o que pode comentar sobre isso?
Tentar uma solução para o Valério é melhor que cruzar os braços. Isso é o entendimento da diretoria. Na forma que nós fizemos (o acordo com o grupo português que assumiu a parte social do clube), foi muito profissional. Fizemos duas reuniões, fomos aos conselheiros, conversamos com o Conselho Fiscal e com o Conselho Deliberativo. É uma proposta vantajosa para o Valério, para recuperar mesmo a estrutura. Todos nós falamos que o Valério é uma vitrine. Mas uma vitrine quebrada? O Valério não tem um espaço físico que atenda ao associado. A nossa preocupação é melhorar as condições. O espaço físico é bom, tem tamanho e possibilidade de investimentos. Deixamos tudo bem amarrado, há um cronograma que precisa ser cumprido. De três em três meses esse cronograma será avaliado por uma equipe do conselho juntamente com a empresa responsável pela formalização da parceria, que é a Fort Imóveis. Se ele cumprir o cronograma, ótimo. Se não cumprir, adeus. É um acordo com a intenção de recuperar a estrutura. O projeto é muito bom, quem viu os folders percebeu isso. Campo de tiro, minigolfe, boliche. Uma série de coisas que precisa ter em Itabira e que é interessante para o associado. Eu espero que não fique apenas na promessa, na demonstração de folder. Espero que realmente venha a acontecer. O contrato tem três meses de carência, que está chegando ao fim. A partir do primeiro trimestre de contrato é que começa a cair receita para o Valério. Estou torcendo para dar certo. Para o Valério será muito bom. O Valério e Itabira precisam disso.