“Ser empresário é mais do que apenas querer ganhar dinheiro”

Para Salej, empresários precisam ter sonhos e persistência para que os negócios prosperem

“Ser empresário é mais do que apenas querer ganhar dinheiro”

De atendente de lanchonete à presidência de uma das maiores entidades empresariais do país. A vida do esloveno Stefan Bogdan Barenboim Salej, 72 anos, mudou muito desde que chegou ao Brasil, há 55 anos, fugindo do clima hostil que se instalou na Europa após o nazismo alemão. Minas Gerais foi o local escolhido pela família para recomeçar a vida. A partir daí, teve início uma história de muita persistência.

Na Eslovênia, a mãe de Salej chegou a ser presa, a irmã desapareceu e ele passou um ano em reformatório. Sofreram até conseguirem embarcar de navio para o Brasil, onde o pai já estava há 11 anos. Chegaram pelo Rio de Janeiro, fizeram fotos no Cristo Redentor e depois seguiram de trem para Belo Horizonte. O principal cartão postal carioca está eternizado na memória do esloveno. Lembra a infância difícil e o sucesso empresarial. Uma das empresas dele foi a responsável por iluminar o Cristo Redentor.

Salej foi atendente de lanchonete, vendedor e representante comercial. Hoje, é relações públicas, administrador de empresas e cientista político. Foi presidente do Conselho Deliberativo do Sebrae Minas (1991-1994), onde criou a Escola Técnica de Formação Gerencial (ETFG). Em seguida, tornou-se o 11º presidente da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg) (1995-2001). Também já foi diplomata pelo governo da Eslovênia e representante da União Europeia junto aos países da América Latina. Nos últimos anos, dedicou-se à carreira acadêmica na África do Sul.

No fim do mês passado, Stefan Salej esteve em João Monlevade para uma palestra em evento do Sebrae sobre inovação. O sucesso empresarial, segundo ele, vem da persistência e dos sonhos. Para o esloveno, o principal erro que um empresário pode cometer é pensar só no dinheiro. “É o caminho para o fracasso”, sentencia.

Inovação, situações empresariais, a Escola de Formação Gerencial, o panorama político-econômico do Brasil e até uma crítica pesada a Itabira estão na entrevista que Setefan Salej
concedeu a DeFato.  

Ainda é muito alto o índice de empresas que fecham as portas antes mesmo de completarem cinco anos. Por que isso acontece?

Nem todas as iniciativas na área empresarial dão certo na primeira vez. Tem que tentar e persistir. Mas também a isso se juntam dificuldades fiscais que são enormes, volatilidade de mercado e falta de capital, seja de conhecimento ou financeiro. Mas há outro fator: as pessoas querem ser empresárias para ganhar dinheiro. Não têm sonhos, não têm projeto e não têm compromisso a não ser ganhar dinheiro. É o caminho certo para o fracasso. Ser empresário é algo mais do que ganhar dinheiro.

Em tempos de crise, como o que vivemos, é comum ver várias pessoas despertarem para uma atividade própria. O brasileiro ainda liga o empreendedorismo ao impulso do desespero, ou essa mentalidade já mudou?

É a alternativa que se apresenta às pessoas. Eu mesmo comecei com negócio próprio porque não conseguia emprego. Não há nada de mau nisso. O que precisa ter é mais do que só impulso ou desespero. Precisa ter um sonho, um projeto, estar disposto a sacrifícios e persistência. Aliás, quando é negócio de família, todos têm que estar dispostos a colaborar.

Como avalia os investimentos em inovação no Brasil?

Temos alguma inovação, mas o pior é que não seguimos e aproveitamos bem as inovações que o mundo nos oferece. Nós investimos pouco e gastamos muito em inovação e tecnologia. Fala-se e escreve-se demais e faz-se pouco. Há um hiato que continua ser preenchido com discurso ao invés de ações, que é distância que separa nossos centros acadêmicos e de pesquisa do mercado.

Itabira é uma cidade extremamente dependente da mineração. É mais difícil empreender em ambientes como esse?

Não. Itabira não é único caso no mundo que depende de um produto só. O problema é que outros conseguiram desenvolver e Itabira, mesmo com muito apoio da Vale, não consegui. E talvez o maior problema de vocês é que nem sabem o porquê. Ou se sabem, não reagiram. Itabira é um retrato na parede. Vocês aceitaram e estão aceitando isso. E onde está o plano para reverter?

Em artigo publicado pela Fiemg (“Do guarda-chuva no dia de sol”), o senhor aborda a importância do planejamento nos municípios. Falta visão empresarial nas gestões públicas?

Falta mesmo nas gestões públicas é visão pública. Falta planejamento que transborde as fronteiras de planejamento urbano. E os eleitores não cobram isso. Não conheço um município mineiro que tenha plano de desenvolvimento. Tudo é política de esperar que os governos estadual ou federal façam. É a política local do ‘dá cá e recebe lá’. Nenhum compromisso com futuro de vida dos seus cidadãos. Acho que entidades empresariais poderiam ser mais ativas e, junto a outros segmentos, apresentarem planos e liderarem desenvolvimento. E a oportunidade é na próxima eleição.

Uma das medidas do pacote de ajuste fiscal do governo brasileiro é reter até 30% da receita do Sistema S como forma de cobrir os rombos nas contas públicas. O que o senhor pensa disso?

O sistema tem suas excelências. Em Minas, tanto Sebrae como outras entidades têm sua excelência. Mas não é igual em todo Brasil. O sistema precisa ser mais transparente. Você já viu balanço de alguma entidade? Precisa ter mais compromisso, não com seus dirigentes, mas com seus clientes, que, aliás, pagam as contas. Mas repudio a maneira que o governo fez. Esta eficiência do sistema pode ser obtida através de diálogo. E se é para reduzir a contribuição, que se reduza para as empresas e que os trabalhadores participem deste dialogo.

O que o motivou a criar a Escola Técnica de Formação Gerencial? O senhor se baseou em algo?

Simplesmente que nossa maior obrigação é dar educação, oportunidade de aprender aos nossos companheiros e nossos sucessores. Este é o mantra da minha vida. E daí partimos para o planejamento. O trabalho continua sendo um sucesso graças a alguns sucessores, como Gilman e Roberto Simões, da Faemg, e em especial funcionários de carreira do Sebrae Minas.

O senhor viveu em vários países, esteve recentemente na Europa e na África do Sul. Que lições traz do exterior?

Que o Brasil é maior do que suas crises. Que o empresário brasileiro, e em especial o mineiro, precisa pensar menos em apoio e ajuda do governo e dos políticos, e se focar no mercado, cliente, produto ou serviço.