Projetos ambiciosos fazem da Unifei a principal saída para a diversificação econômica do município

Projeto é para que Itabira não tenha apenas um campus universitário, mas um novo ponto turístico no município

Projetos ambiciosos fazem da Unifei a principal saída para a diversificação econômica do município

O ano era 2008. Depois de muitas negociações, acordos políticos e fruto de uma união até então inédita no país, nascia em Itabira o campus da Universidade Federal de Itajubá (Unifei). O começo foi complicado. Sem estrutura adequada, os primeiros alunos precisaram ser verdadeiros desbravadores. As aulas das turmas iniciais aconteceram na Funcesi e depois migraram para o iTec (onde ainda funcionam algumas salas). A resistência da sociedade, então, era enorme. Foi impactante ver moças e rapazes de caras pintadas abordando carros e pedindo moedas no meio das ruas.

Agora é 2015. Passado o tempo de adaptação e de maturação, a Unifei se consolida como o principal projeto que Itabira tem para conquistar a tão almejada diversifi cação econômica. Ou “emancipação econômica”, como gostam de dizer os diretores da Associação Comercial, Industrial, de Serviços e Agropecuária (Acita). Sete anos depois do período complicado, de pouca estrutura, os sonhos são grandes. Com propostas audaciosas e números impactantes, a Unifei quer mostrar para Itabira que é mais do que uma escola, mas uma alternativa de futuro.

Fantasia e concretude são duas palavras muito usadas pelo professor-doutor Dair José de Oliveira, empossado no fim de junho como diretor do campus itabirano da Unifei. Para ele, uma coisa não pode se dissociar da outra. É preciso sonhar, mas também é necessário planejar para que os sonhos saiam do papel. Segundo Dair, o projeto da universidade proporcionará ganhos futuros para Itabira, tanto financeiros quanto intelectuais, mas é preciso conter a ansiedade.

“Às vezes, a gente tem muita ansiedade, o que é uma coisa natural do ser humano. O amadurecimento da nossa comunidade e a convivência com a universidade ajudam a expandir os horizontes. É um caminho que estou vendo com muito bons olhos, é algo muito positivo”, comenta o diretor, que analisa também a importância da Unifei ter mais interação com os itabiranos. “Se eu me sinto parte, eu me sinto responsável. Eu me sinto dono”, argumenta.

Alternativa econômica

Não é segredo para ninguém que Itabira passa por uma intensa crise financeira. O preço do minério de ferro nunca esteve tão baixo nos últimos dez anos e a Vale, empresa que mais acrescenta para a receita do município, viu suas vendas despencarem em 2015. Mais um período de difi culdade econômica que escancara a necessidade da diversificação.

Essa situação é debatida exaustivamente no Fórum Permanente de Desenvolvimento, Inovação e Sustentabilidade, encabeçado pela Acita e que reúne Poder Público e diversas entidades representativas de Itabira. Por lá, o termo usado não é nem “diversificação”, mas “emancipação econômica”. A ideia é ter uma cidade independente, que não fique à mercê de crises esporádicas.

É nesse contexto que a Unifei se apresenta como a principal alternativa econômica à dependência da Vale. Atualmente, a universidade conta com cerca de 2 mil alunos distribuídos em nove cursos de graduação, 138 professores, 74 servidores técnicos-administrativos e 80 funcionários públicos anistiados do Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM). Segundo dados da própria Unifei, isso significa uma injeção de R$ 3,97 milhões por mês na economia de Itabira. A maior parte desse valor tem origem em despesas mensais, com moradia, transporte, alimentação, lazer e outros serviços: cerca de R$ 1,2 mil por aluno.

Em uma conta simples, com base no cenário atual da Unifei em Itabira, pode-se afi rmar que a universidade, ao fi m do ano, terá injetado cerca de R$ 47,64 milhões na economia do município. Como base de comparação, a Compensação Financeira pela Exploração dos Recursos Minerais (Cfem), neste ano de crise, se mantiver a média mensal de R$ 4,8 milhões apresentada no primeiro semestre, não deve ultrapassar os R$ 57 milhões.

As cifras ficarão maiores conforme o projeto avance em Itabira. A implantação plena prevê que o campus receba 10 mil alunos, distribuídos em cursos de graduação e pós-graduação, além de professores e servidores. Os cálculos são de que a contribuição para a economia local alcance R$ 22 milhões por mês, ou R$ 264 milhões por ano. Novamente comparando com o royalty da mineração (Cfem), esse valor superaria os R$ 195 milhões que Itabira arrecadou em 2013, recorde nos últimos anos.

Projeto audacioso

O projeto da Unifei em Itabira é grandioso. O terreno cedido pelo município, no Distrito Industrial II, tem 600 mil m². Desse total, 110 mil m² serão de área construída. A arquitetura foi desenvolvida pelo escritório Gustavo Penna Arquiteto e Associados, de Belo Horizonte. Segundo os criadores, o campus se baseia na mesma fi losofi a que já caracteriza a universidade: ser uma instituição de referência tecnológica e acadêmica.

O projeto reflete a ideia de sustentabilidade defendida e ensinada pela instituição. Mais do que uma sede de escola, o campus será um local de visitação, um verdadeiro ponto turístico com plataforma cultural, centro esportivo, paisagismo natural, lago, espaços para caminhada e outros atrativos. “Teremos, com certeza, o campus universitário mais bonito do Brasil”, exaltou o diretor Dair, em recente reunião do Fórum de Sustentabilidade, na Acita.

Para se ter uma ideia da dimensão, o campus de Itabira é projetado para ser maior que o de Itajubá, que já está na plenitude. Na sede da instituição, no Sul de Minas, o terreno tem 450 mil m² e área construída de 80 mil m². Por lá, o número total de alunos é de 8 mil, dois mil a menos que o estipulado para Itabira.

Dez mil alunos é a meta inicial do projeto para Itabira. Porém, de acordo com o diretor Dair Oliveira, pode ser que esse número seja até ultrapassado. “Pode ser que lá na frente a gente ache interessante expandir. Isso é o tempo que vai dizer”, comenta.

Mas antes de pensar em ultrapassar a meta, é preciso chegar até ela. O projeto da Unifei Itabira ainda está no início, prestes a ter inaugurado o segundo prédio, ainda chamado de “Prédio L”. O primeiro, nomeado José Alencar Gomes da Silva, em homenagem ao ex-vice-presidente da República, foi inaugurado em 31 de outubro de 2011. Ao todo, R$ 241 milhões já foram investidos no campus, sendo R$ 63 milhões da Prefeitura de Itabira na construção dos edifícios, R$ 38 milhões da Vale em equipamentos para os laboratórios e R$ 140 milhões do Governo Federal em materiais didáticos e custeio de folhas salariais de professores e servidores administrativos.

As cifras são altas, mas ainda estão distantes do que foi orçado apenas para construção completa do campus, sem levar em conta investimentos com equipamentos e folha salarial. O projeto está estipulado em R$ 393 milhões e tinha a previsão inicial de estar concluído em até oito anos, mas esse planejamento já está atrasado. A ideia era de que todos os processos de licitação estivessem na praça em novembro do ano passado. Segundo a Prefeitura de Itabira, isso não aconteceu por causa da crise econômica.

De acordo com dados apresentados pelo ex-diretor do campus de Itabira, professor Marcel Parentoni, em participação na reunião semanal da Câmara de Vereadores, o Governo Federal terá investido cerca de R$ 500 milhões no projeto quando a Unifei alcançar a média de 7 mil alunos no município.

Parque Tecnológico

A ideia de ter a Unifei como a principal alternativa para a diversificação econômica de Itabira ganha ainda mais força quando é exposto o projeto do Parque Científico Tecnológico. O pensamento é grande: atrair para o município empresas renomadas, especializadas em pesquisa, desenvolvimento e alta tecnologia.

A discussão para trazer um Parque Científico Tecnológico para Itabira vem de longa data. Começou em 2005, entre lideranças políticas e a Vale. Um dos mentores do projeto é o engenheiro itabirano Kleber Guerra, que respondia pela gerência de manutenção elétrica da mineradora naquela época. Segundo ele, quando o planejamento começou a ser feito, grandes empresas sinalizaram positivamente para integrar o Parque, mas havia um grande entrave: a cidade não tinha uma universidade.

Com a Unifei, esse problema está resolvido. Mas o próprio engenheiro alerta que é preciso que a universidade esteja com o campus na sua plenitude para que se pense no Parque Científico Tecnológico. Enquanto o projeto da escola avança, o aconselhável é que o município já prepare os processos burocráticos, como documentação do terreno e criação de leis específicas para esse tipo de atividade.

Uma área para a edificação do Parque já foi apontada. O empreendimento seria construído no terreno do Posto Agropecuário, na região do bairro Candidópolis. Segundo Kleber Guerra, esse local é ideal por três motivos: primeiro porque tem um relevo favorável; segundo porque é distante apenas 3,5 quilômetros do campus Unifei; e terceiro porque já pertence ao Governo Federal. O terreno está documentado em nome do Ministério da Agricultura Pecuária e Abastecimento. Dessa forma, haveria a necessidade de uma transferência para o Ministério da Educação para que fosse incorporado aos ativos da universidade.

Kleber contou que entre as empresas que se posicionaram favoravelmente a atuar no Parque Científico Tecnológico de Itabira, em 2005, estavam multinacionais como Siemens, Microsoft, SKF e GE Healthcare. “O Parque Científico Tecnológico será o principal empregador no futuro, abrindo oportunidades para os itabiranos, ofertando empregos de alto nível qualitativo. A universidade estará presente, como já está atualmente, ampliada em sua dimensão, preparando esse pessoal”, afirma.

O engenheiro diz não ter dúvidas do futuro do empreendimento e nem dos benefícios que a Unifei trará para Itabira. “Assim como o sonho do Itabirano sempre foi o de trabalhar na Vale, ele passará a ser, doravante, de estudar na Unifei e trabalhar no Parque Científico Tecnológico, produzindo tecnologia para o mundo. O futuro nos mostrará excelentes engenheiros e pesquisadores itabiranos”, exclama.

Segundo o diretor Dair Oliveira, o projeto da Unifei inclui um Parque Tecnológico dentro do próprio campus. O professor afirma que a universidade ainda não sabe se manterá o planejamento, tendo em vista que atuará como protagonista no Parque Científi co Tecnológico que é pensado pelo município. “Tudo vai depender do desenrolar das coisas e da quantidade de recursos que vamos ter. A gente tem a universidade, tem o parque e tem a relação dos dois. Podemos ter uma estrutura intermediária , como um centro de tecnologia aplicada, e que faça a ligação entre a universidade e o parque, com grupos de pesquisas e incubadora de empresas”, projeta o diretor.

Mestres e doutores

Mesmo que seja vista como uma grande alternativa econômica ainda mais em uma cidade tão ávida por diversifi cação como é Itabira – a tarefa principal de uma universidade, obviamente, é educar. E a Unifei leva isso a sério. A instituição tirou nota 5 (máxima) no Índice Geral de Cursos Superiores (IGC) 2011 do Ministério da Educação (MEC) e fi gurou entre as dez melhores universidades do Brasil. Em 2013, a universidade recebeu o prêmio Sparks Award Brasil, concedido pela Microsoft, como a melhor instituição de ensino empreendedor do país.

Em Itabira, o planejamento da recém-empossada diretoria é fazer da Unifei referência não só em graduação, mas também em pós-graduação. A meta é que a proporção seja de um para um: para cada aluno de graduação, um de pós. “A gente acredita que é essa a vocação desse campus. Universidades como Harvard e MIT possuem uma relação acima de um para um. A gente colocou uma meta ousada e que será feito em médio e longo prazo”, explica Dair Oliveira. Atualmente, a Unifei possui doutorado e mestrado nas áreas de Química e Engenharia de Materiais.

A itabirana Ana Cristina Tolentino Cabral foi a primeira aluna a defender uma tese de mestrado na Unifei Itabira. Ela encarou a banca com uma pesquisa de ponta, que carrega um nome complicado: “Síntese e Caracterização de Nanoestruturas de Óxido de Cério dopado com Praseodíneo”. Traduzindo: é uma pesquisa aprofundada sobre materiais cerâmicos que podem ser usados no aperfeiçoamento de equipamentos eletrônicos, próteses dentárias, craqueamento de petróleo e em diversas outras aplicações. Era o último requisito para obter o título de mestre em Ciências em Materiais para Engenharia.

Ana Cristina possui graduação em Química pela Universidade Federal de Viçosa e em Engenharia de Materiais pela Unifei. Agora, ela cursa Doutorado no campus de Itabira. Para a estudante, a qualifi cação é fundamental até mesmo para as instituições de ensino. “A Funcesi, por exemplo, traz professores de Belo Horizonte para lecionar em Itabira. Nossa cidade não tem profissionais suficientes com qualificação para trabalhar lá e nem na própria Unifei. As escolas precisam trazer muita gente de fora e alguns não se adaptam à cidade. As pós são importantes, pois possibilitam aos próprios habitantes procurarem cursos de mestrado e doutorado para poder atuar nesta área”, argumenta.

Pacto pelo futuro

A importância do projeto Unifei para Itabira foi expressa em uma carta de intensões assinada por integrantes do Fórum Permanente de Desenvolvimento, Inovação e Sustentabilidade, na Acita, no dia 1º de julho. No documento intitulado “Carta de Itabira em prol da diversificação do município”, os participantes manifestam a crença no projeto da Unifei e do Parque Científico e Tecnológico como as iniciativas com maior potencial para promover a diversificação, expansão e desenvolvimento do município.

A carta foi assinada pelo prefeito Damon Lázaro de Sena; pelo presidente da Acita, Marco Aurélio Garcia Matos; pelo diretor da Unifei, Dair Oliveira; pelo gerente-geral de operação das minas da Vale em Itabira, Fernando Carneiro; pelo presidente da Câmara de Vereadores, Solimar José da Silva; pelo coordenador do Fórum de Sustentabilidade, José Antônio Reis Lopes; e pelos demais representantes de entidades que participam das discussões pela diversificação econômica do município.

O presidente da Acita, Marco Aurélio Garcia Matos, destaca que grandes oportunidades surgem em momentos de crise. “É a hora de inovar, de buscar outras soluções”, disse. Já o vice-presidente da instituição, Eugênio Müller,  afirma que a carta é um compromisso de que os projetos serão levados adiante. Para ele, a cidade precisa se preparar para uma transformação gigantesca. “É um marco histórico. É a consolidação de vários projetos e de vários sonhos, uma junção entre passado, presente e futuro”, comemorou.

O prefeito Damon fala com empolgação sobre os projetos e diz que vai tirá-los do papel “custe o que custar”. “Não podemos fi car estacionados, só sonhando. Às vezes as coisas não acontecem com a celeridade com que gostaríamos, mas não podemos desistir”, afirma o chefe do Executivo. Damon, sempre que fala da Unifei, faz questão de colocar a escola em alto patamar. “Temos vocação grandiosa para a educação e a necessidade urgente de diversifi car. A Unifei representa esses dois polos e dispensamos a ela toda atenção necessária”, completa.

O gerente-geral da Vale, Fernando Carneiro, comenta que a “Unifei é um diferencial competitivo para o município”. Ele destaca os investimentos que a mineradora faz no projeto e chama atenção para a celeridade nas obras do campus. “Antes de pensar em qualquer novo passo, precisamos concluir o campus, ter a universidade em sua plenitude”, pontua. Não tem mais volta. Abandonar o projeto e abortar essa missão passa a ser descumprir o pacto firmado pelo desenvolvimento da cidade. Os números e as propostas ambiciosas mostram que isso é impensável. O futuro é logo ali e reponde pelo nome de Unifei.

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