Pesquisa na Unifei: do entulho para a construção civil

Professor Carlos Augusto coordena pesquisas de materiais na Unifei Itabira

Pesquisa na Unifei: do entulho para a construção civil

Entrevista publicada na edição 269 da Revista DeFato.

Desde que chegou à Universidade Federal de Itajubá (Unifei), campus Itabira, o professor/doutor Carlos Augusto de Souza Oliveira tem se empenhado em notáveis pesquisas sobre o aproveitamento de resíduos da construção civil. Professor do curso de graduação em Engenharia da Mobilidade, ele leciona as disciplinas de Materiais de Construção Civil I e II, Geologia e Técnicas Construtivas.

Desde fevereiro de 2011, Carlos Augusto desenvolveu com os alunos pelo menos três pesquisas que visam transformar entulhos, gesso e pneus velhos em agregados (areia e brita), que podem ser usados na construção de casas, pavimentação de ruas, entre outras aplicações. São materiais encontrados em abundância no aterro de inertes do bairro Bela Vista, interditado em janeiro deste ano devido ao limite de estocagem, que podem servir de matéria-prima para novas edificações.

Carlos é doutor em Engenharia Metalúrgica e de Minas, na área de Concentração em Ciência e Engenharia de Materiais, e graduado em Engenharia Civil pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Satisfeito com os resultados alcançados até agora nos testes feitos em laboratório, tem esperança de que os projetos caiam nas graças dos investidores, e o lixo se transforme em oportunidade.

De maneira geral, quais pesquisas são desenvolvidas sob a coordenação do senhor aqui na universidade?

Desde que ingressei na Unifei, venho desenvolvendo projetos voltados ao aproveitamento de resíduos na construção civil, cujo objetivo é dar um destino ambientalmente correto e uma viabilidade técnica a materiais considerados como lixo. Basicamente, desenvolvemos produtos alternativos para a indústria da construção civil. Iniciei com o aproveitamento de resíduos, ou entulhos, na produção de areia e brita para a própria construção civil. Esses agregados podem ser empregados na produção de argamassas ou concretos, de acordo com sua granulometria. Pode ser um material aplicado na construção de habitações, inclusive populares, e pavimentações de bairros e favelas. Desenvolvemos também um projeto de aproveitamento de resíduos de gesso para a produção de revestimento na construção. Os estudos já estão avançados. Tenho um trabalho, patrocinado pela Fapemig, uma fundação que apoia pesquisa em Minas Gerais, cujo relatório já foi entregue. Temos também um trabalho com o aproveitamento de pneus inservíveis que podem ser transformados em agregado miúdo, ou areia, como é conhecida, para produção de argamassas, revestimento ou assentamento.

Tudo isso é testado dentro do laboratório com a participação de alunos?

O beneficiamento, a caracterização e o desenvolvimento do produto são feitos dentro do Laboratório de Materiais de Construção Civil da Unifei. São trabalhos de iniciação científica desenvolvidos com os alunos do curso de graduação. Praticamente todas as pesquisas foram publicadas em revistas e apresentadas congressos especializados.

São pesquisas inéditas em Minas Gerais?

Em Itabira, sim, mas no Brasil há outros estudos relacionados ao assunto. Essas pesquisas desenvolvidas aqui visam contribuir para a consolidação do uso desses resíduos na indústria da construção civil. E, pelos resultados, sabemos que a aplicação é viável. Os materiais foram testados e verificados de acordo com as exigências técnicas das normas brasileiras.

Estamos falando inclusive de construção de prédios?

Sim, mas para isso tem que haver um controle tecnológico, porque as características dos entulhos variam de região para região e de acordo com as frações de materiais presentes na sua composição. Em alguns casos pode haver muito pedaço de telha, cerâmica, ou muitos restos de concreto. Então, tem que tomar cuidado na caracterização do material quanto ao seu emprego, fazer os devidos testes de resistência, porque o material não é homogêneo como no caso das britas convencionais.

O senhor vê interesse das empresas e instituições em explorar esse tipo de material?

Em Belo Horizonte e São Paulo as prefeituras já instalaram usinas de beneficiamento de resíduos da construção civil. Esses materiais estão sendo empregados na recuperação de pavimentos, em vilas, favelas, em obras populares. Em Itabira já houve a procura de representantes da prefeitura com relação ao estudo também. Aqui há uma disponibilidade grande de material. Ouvi falar, inclusive, que o aterro de inertes da prefeitura, localizado no bairro Bela Vista foi fechado [o fechamento aconteceu em janeiro deste ano porque não comportava mais descarregamento de entulho]. Então, outra área para estocagem de resíduos precisa ser viabilizada. E isso pode acarretar em danos ambientais. Diante disso, o estudo visa dar um emprego para esses resíduos, evitando possíveis impactos ambientais e preservando o meio ambiente.

Produtos ecologicamente corretos costumam ser mais caros que os convencionais no Brasil. É o caso?

Não fizemos um estudo de viabilidade econômica ainda, de implantação de uma usina de beneficiamento. Mas pelo histórico das usinas instaladas em Belo Horizonte e outras cidades, o material ecológico, neste caso, é até mais barato. E tem também que pensar muito no ganho ambiental, porque você vai preservar os recursos naturais, evitando a exploração de areia em rios, jazidas, pedreiras e aí por diante. O nosso próximo passo é estudar o emprego do entulho na construção de pavimento de concreto, semelhante ao usado na implantação do Move, em Belo Horizonte. Esse estudo está avançado e deve ser concluído em julho. Tem uma aluna do curso de Engenharia de Mobilidade que está desenvolvendo o trabalho e já submeteu parte dele a um congresso que vai ser realizado em outubro desse ano, em Bonito (MS). Os resultados são animadores.

O que falta para disponibilizar a pesquisa às empresas interessadas?

A primeira etapa é verificar se nossos agregados têm viabilidade técnica e determinar suas aplicações: seja um concreto, argamassa, bloco de concreto ou telha. Atendendo às normas da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), que especifica exigências mínimas ou máximas, o produto está pronto para ser usado. Basta haver interesse do investidor em aderir ao projeto. Neste meio tempo, tem as patentes, quando trata-se de produto inovador. Mas, como o resíduo da construção civil é um trabalho que vem sendo desenvolvido por outros pesquisadores no Brasil, no meu entendimento, ele não é considerado um produto gerador de patente. O que estamos fazendo aqui é um aperfeiçoamento.

Em relação ao gesso, como é feito o reaproveitamento?

O gesso é considerado um produto não reciclável e muito prejudicial ao meio ambiente. Uma vez utilizado, suas reações químicas são estabilizadas. Mas se esse material for reincorporado a outro, ou até mesmo ao próprio gesso, conseguimos reduzir também sua área de estocagem. Imagine um concreto: é possível incorporar o gesso na mistura para dar volume, sem gerar risco ao usuário. Com isso, reduz-se a área de descarte. A incorporação não pode acarretar em perda de desempenho, precisa atender às exigências recomendadas pelas normas da ABNT.

Há pesquisas, desenvolvidas só por professores?

A iniciação científica tem por objetivo preparar o aluno para desenvolver mestrado e doutorados, despertar ou até mesmo contribuir para melhorar o lado científico dele. A nível de mestrado e doutorado também são desenvolvidos trabalhos que podem ser relacionados a algum problema na região, ou desenvolver um novo produto; são trabalhos mais elaborados. E todos têm o acompanhamento de um professor/orientador. Nisso, são geradas, em conjunto professor e aluno, pesquisas que são divulgadas no meio acadêmico e que, algumas delas, refletem diretamente na comunidade. No caso da pesquisa que estamos falando, dos resíduos da construção civil, caso seja construída uma usina de beneficiamento em Itabira, teremos geração de empregos, menos exploração das jazidas de rochas e menos poluição ambiental. Mas há também estudos desenvolvidos só por professores/pesquisadores. Eu mesmo sou líder de um grupo de pesquisa, composto por professores de Engenharia de Materiais da Unifei, professores da Engenharia Mecânica e de Mobilidade. Além disso, os professores pertencentes a este grupo desenvolvem trabalhos com professores de sua instituição de origem e de outras universidades. Tem um trabalho que desenvolvi com o aproveitamento de fibras de bambu e cana-de-açúcar na confecção de concreto. Verifiquei qual a influência da incorporação desses materiais no seu desempenho, em conjunto aos professores da Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG) de João Monlevade.

Por que o conhecimento gerado dentro das universidades demora a ser aplicado no dia a da das pessoas? Como encurtar essa distância?

Trabalhos que têm uma abrangência regional, geralmente publicados em congressos, deveriam ser também divulgados em revistas locais, jornais, rádios e outros meios de comunicação para a comunidade ter ciência. É importante que as pessoas saibam o que a universidade está propo ndo e o que isso vai refletir na qualidade de vida do cidadão. Temos trabalhos aqui de alunos, desenvolvidos com outros professores, sobre a descentralização dos bancos em Itabira, sobre o transporte coletivo, entre outros. Mas às vezes as pessoas não ficam sabendo.

Como devem proceder empresas interessadas em utilizar os laboratórios da Unifei para testar ou desenvolver algum produto?

É possível que empresas de Itabira e região analisem materiais ou até desenvolvam produtos em conjunto com a universidade. Para isso, é preciso firmar parcerias através de contratos junto à instituição. Tem todo um trâmite legal, e isso não acontece de um dia para o outro. É bom começar o processo com certa antecedência, mas é possível. O laboratório também está aberto à comunidade para conhecimento, pois é um espaço público, de todos.

O que mais gostaria de ressaltar?

Gostaria de ressaltar a importância da participação da comunidade na vida acadêmica. Aqui no laboratório foram desenvolvidas quatro edições do curso de Aperfeiçoamento da Mão de Obra da Construção Civil. Cerca de 500 profissionais passaram por aqui, aprenderam coisas novas e saíram mais qualificados para o mercado de trabalho. O objetivo dos cursos de aperfeiçoamento é melhorar a qualidade dos serviço prestados, aprimorando os conhecimentos, visando a redução do desperdício no canteiro de obra e a geração de produtos e serviços de melhor qualidade.

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