Crescimento econômico e desenvolvimento sustentável
Reportagem publicada na edição 266 da Revista DeFato Pensar o futuro, planejar o futuro. O que deveria ser o mantra de todo governante, muitas vezes é deixado para segundo plano. Projetos duradouros, que causarão impactos em gerações que estão por vir, são substituídos por ações imediatistas, geralmente para contornar alguma crise de última hora. O […]
Reportagem publicada na edição 266 da Revista DeFato
Pensar o futuro, planejar o futuro. O que deveria ser o mantra de todo governante, muitas vezes é deixado para segundo plano. Projetos duradouros, que causarão impactos em gerações que estão por vir, são substituídos por ações imediatistas, geralmente para contornar alguma crise de última hora. O resultado disso é um crescimento desordenado, cujos reflexos, claro, serão sentidos lá na frente.
Em Itabira essa é exatamente a noção que se tem. A cidade parece ter perdido muito tempo. A arrecadação sempre foi alta, mas o desenvolvimento não acompanhou a pujança econômica na mesma velocidade. É o que avalia o Fórum Permanente de Desenvolvimento, Sustentabilidade e Inovação, coordenado pela Associação Comercial, Industrial, de Serviços e Agropecuária de Itabira (Acita). O projeto, iniciado em 2012, pretende equacionar essa disparidade.
O principal objetivo do Fórum é propiciar um ambiente favorável à proposição, discussão, análise e implantação de medidas que venham colaborar para o desenvolvimento sustentável de Itabira. É uma verdadeira força tarefa, que chama para o trabalho as entidades representativas do município. Foram convidadas mais de 100 instituições. Desse total, 72 aceitaram o chamado. “Seria muito difícil fazer um fórum aberto ao cidadão, então, muito mais fácil convidar as entidades. E o cidadão, por meio dessas entidades, tem a participação garantida”, explica o publicitário Eugênio Müller, vice-presidente da Acita e membro da comissão de coordenação do Fórum.
Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE) norteiam a atuação do Fórum organizado pela Acita. Em 2012 (último ano divulgado pelo órgão), o Produto Interno Bruto (PIB) de Itabira somava R$ 4,05 bilhões, o 13º maior de Minas Gerais e 161º de todo país. A renda per capta atingia R$ 36,3 mil. Naquele ano, o PIB do município correspondia a 1% de toda riqueza somada no estado.
Mas antes mesmo de 2012 a Acita já identificava a desconexão entre o enriquecimento econômico e o desenvolvimento sustentável. “Em 2010 a cidade viveu um boom econômico importantíssimo. Naquele ano, Itabira, sozinha, respondeu por quase 20% das exportações de Minas”, aponta Eugênio Müller. “Então, isso gerou um crescimento econômico que já vinha na última década, especialmente com o projeto Itabiritos. Ao mesmo tempo, a gente identificou que não tinha o mesmo nível de desenvolvimento. Cresce muito a economia, mas a cidade não se desenvolve”, completa.
União faz a força
A ideia do Fórum é fazer várias cabeças pensarem ao mesmo tempo. Por isso o convite a dezenas de entidades. É o conceito de “cidadania plural”, onde a sociedade, representada por instituições organizadas, pode apontar a direção que deseja seguir. Outro benefício é a garantia de um projeto que tenha movimento, para não morrer na praia como outros que o antecederam.
Uma das experiências anteriores foi o “Itabira 2025”, também idealizado pela Acita. O projeto colocava uma data como o limite da atividade mineradora no município (2025) e pensava alternativas econômicas para depois desse prazo. A ideia foi lançada com entusiasmo, mas se perdeu algum tempo depois. Agora, os organizadores do Fórum Permanente de Desenvolvimento, Sustentabilidade e Inovação querem evitar que o projeto da vez tenha o mesmo destino do anterior.
Para Eugênio Müller, o grande entrave do “Itabira 2025” estava na própria origem do projeto. O vice-presidente da Acita acredita que a ideia nasceu do pessimismo do fim da mineração e, por isso, não deu certo. “Todos nós vamos morrer. Mas se eu pensar na minha morte, eu não faço nada”, analisa. Outro fator foi o isolamento. “Aquele era um projeto muito da Acita. Hoje, a Acita, muito mais madura, trabalha com as entidades”, argumenta o publicitário.
O Fórum tenta vencer pela união. O projeto reúne entidades fortes, como a Interassociação de Bairros, Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Polícia Militar, Polícia Civil, Lions, Rotarys, casas maçônicas, Crea e outras. Tem também as instituições de ensino: Funcesi e Unifei. Ou seja, um vasto “tecido social”, como gosta de dizer o vice-presidente da Acita. “Um projeto da sociedade itabirana”.
“A gente não vê hoje outro movimento tão forte na cidade. O Fórum é um convite permanente à participação. Então, todas as entidades que têm seus projetos trazem para que o Fórum abrace, a partir de uma definição de prioridades. É uma forma de estar todos juntos, o que é uma coisa que Itabira nunca desenvolveu”, afirma Eugênio.
Projeto em etapas
O Fórum é dividido em três etapas: mobilização, diagnósticos e apresentação. A primeira começou em 2012, quando a Acita elaborou o projeto e foi atrás das entidades para agregar participações. A segunda fase, que teve início em outubro de 2013, foi marcada pela elaboração do Diagnóstico Municipal para o Desenvolvimento Sustentável, que é uma leitura da realidade local. Esse diagnóstico é uma ferramenta que possibilita a elaboração de estratégias e planos para superar problemas, aprimorar uma área específica e, principalmente, construir um projeto no município que esteja de acordo com o desejo da comunidade.
Para a elaboração do diagnóstico foram definidos seis segmentos: desenvolvimento econômico; educação; saúde; defesa social e segurança pública; meio ambiente; e cultura, esporte e lazer. Para condensar e tornar o desenvolvimento mais prático, cada segmento elegeu duas prioridades a serem trabalhadas pelos grupos temáticos.
A terceira etapa começou em novembro de 2014 e foi marcada pela participação do poder público municipal. A Prefeitura teve a oportunidade de mostrar para a comunidade o trabalho que está sendo feito em cada secretaria e os projetos e ações que ainda serão realizados. Os secretários estiveram em seminários do Fórum e informaram sobre políticas implantadas ou em andamento e que estão em convergência com as 12 prioridades estabelecidas no diagnóstico.
“A gente entendeu que seria muito desarmônico o Fórum não ouvir o poder público. As informações precisam ser alinhadas. O poder público mostra o que está fazendo e o grupo de trabalho estabelece um plano de ação, para que fique harmonizado”, comenta Eugênio Müller. O vice-presidente da Acita elogiou a postura do prefeito Damon Lázaro de Sena, que, segundo ele, abraçou o projeto.
Ao fim da terceira etapa, em maio deste ano, a intenção é produzir um projeto a partir das 12 prioridades para que seja enviado à Câmara de Vereadores e se tornem leis. Paralelo a isso, será montada uma plataforma na internet para que a sociedade acompanhe o cumprimento do que foi estabelecido. Assim, todos poderão acompanhar o objetivo, as metas traçadas e os indicadores de desempenho. Também será possível saber se o que foi apontado como prioridade está atrasado ou adiantado, ou se está funcionando ou não.
Desenvolvimento sustentável
O “X” da questão do Fórum é propor uma forma de desenvolvimento sustentável para Itabira. Ao contrário de projetos anteriores, que pensavam em como será a cidade após a mineração, a ideia agora é pensar o município se desenvolvendo no mesmo compasso do crescimento econômico proporcionado pela atividade extrativista.
“O que queremos é fazer emergir um novo PIB, para que não se tenha mais aquela ideia de substituir a atividade mineradora, mas fazer a economia crescer ainda mais enquanto existe essa atividade. A perspectiva que a gente tem é que essa economia cresça, mas traga a reboque o desenvolvimento. Porque nas últimas décadas isso não existiu”, explica Eugênio. “A economia cresceu muito mais rápido que o desenvolvimento. O PIB, nos últimos 12 anos, multiplicou por quatro, e o desenvolvimento, se a gente for aferir pelo IDH, não teve o mesmo acompanhamento”, completa.
Muito tem se falado em crise. Por todo país, economistas alertam que 2015 será um ano difícil. Para Itabira há um fator complicador, que é a queda no preço do minério que é vendido para o exterior. Com a commodity em queda, a Prefeitura tem adotado medidas de contenção de despesas. Apesar disso, a visão que o Fórum tem de futuro é otimista.
Para os organizadores, Itabira tem ferramentas para organizar projetos e chegar ao desenvolvimento sustentável. O município tem recursos, atores sociais, conhecimento e matérias primas em abundância. Falta organizar tudo isso para alcançar o resultado satisfatório. E é aí que entra o Fórum Permanente de Desenvolvimento, Sustentabilidade e Inovação, um forno de ideias para que esses ingredientes se tornem um grandioso bolo.
“Temos que vencer uma frase que Drummond tem no Confidência do Itabirano , que acha que explica Itabira demais: a tal vontade de sofrer que tanto me diverte. Nós temos que romper com isso. A gente tem condições de fazer esta cidade virar referência nacional. E a gente tem todas as condições possíveis. Falta, realmente, é transformar isso em ação”, finaliza o vice-presidente da Acita.