Hora de voar

Jésus Henrique nasceu em Belo Horizonte, mas diz a todo mundo que é itabirano

Hora de voar

Entrevista publicada na edição 265 da Revista DeFato

O sonho de ser um artista reconhecido pulula mentes de muita gente por aí. Mas não era o que movia Jésus Henrique de Souza. Pelo menos não até ele faturar concursos culturais em sequência na escola e descobrir um talento que até então não sabia que tinha. A partir daí, passou a acreditar que poderia ser um cantor. Hoje, aos 30 anos, ainda luta para realizar o sonho de viver da música.

Vários degraus já foram subidos, é verdade. Nessa escalada rumo ao reconhecimento, Jésus formou bandas, tocou em barzinhos, agitou bailes e carnavais. Desde 2007, quando participou pela primeira vez do programa Ídolos, passou a se aventurar por realitys shows em emissoras de TV. O passo mais longo veio no fim do ano passado, quando conquistou a admiração do cantor Daniel e chegou à semifinal do The Voice Brasil, na TV Globo.

Na atração da emissora com maior audiência no país, Jésus foi chamado de sabiá. O apelido partiu da cantora Luíza Possi, que acrescentou que o artista “cantaria qualquer coisa que pedisse a ele”. E canta mesmo. A versatilidade, aliás, é um dos pontos que o cantor acredita que o fez chegar tão longe no programa.

Jésus Henrique nasceu em Belo Horizonte, mas diz a todo mundo que é itabirano. Chegou à terra de Drummond quando tinha sete anos. Por aqui deu os primeiros passos na música, conheceu a esposa e fez a vida. Hoje, ainda concilia os shows com a profissão de marceneiro, mas a ideia é ser apenas cantor. Um grande passo foi dado, e ser chamado de sabiá é um grande incentivo. Já que cantou, chegou a hora de voar. Leia, a seguir, entrevista com Jésus Henrique.

Como começou na música?

A partir de um festival na escola. Para poder ganhar uns pontos, a gente juntou para cantar. Na verdade, o primeiro foi um festival de inglês, mas era só para fazer dublagem. Aí a gente fingia, ia lá e dançava. Mas aí, no ano seguinte, veio o festival de português e eu resolvi cantar. Eu gostava de música, ouvia, mas nunca tinha cantado. Eu participei do festival e meio que de brincadeira ganhei o primeiro lugar. No ano seguinte teve outro festival, participei de novo e ganhei. Veio o terceiro e eu ganhei também. A partir daí eu formei uma banda de forró, que na época era a moda. O forró pé de serra era como se fosse o que o sertanejo é hoje. Formamos a banda Forró Danado e a partir daí eu fui fazendo shows profissionalmente, tocando nos bairros e em outras escolas. Depois de algum tempo eu integrei a banda Exporta Brasil, onde fui vocalista por uma boa parte de tempo. A gente tocava em carnavais em Itabira e em outras cidades. Cantei também em bandas de baile e depois fui caminhando. Vieram os barzinhos… A luta começou desta forma e ainda continua.

Além do The Voice, você participou do Ídolos, teve destaque, chegou longe…

No Ídolos, na fase em off, apesar de ter havido muita seleção consegui chegar longe. Quando passou para a fase popular, de abrangência nacional, não fui tão longe, mas colhi bons frutos. Não foi da magnitude do The Voice, mas me deu visibilidade para a partir daí trabalhar mais e fazer mais shows.

O que aprendeu daquela vez, que você acha que tem que intensificar nesta? Algum erro que não pode se repetir?

Acho que não teve erro tantono Ídolos quanto no The Voice. Acredito que você deve primeiramente confiar em Deus, e ter sorte, é claro. Nesses programas a gente encontra muita gente que canta do mesmo nível ou melhor que você, e aí você fica ali na seleção concorrendo com um monte de gente. Tem quem cante pior também. No Ídolos, e também no The Voice, teve aqueles cantores que não se destacaram tanto quanto outros. Mas no meio dessa seleção entre os melhores você precisa ter um pouco de sorte para entrar para o time. Competência, é claro, também é necessário. Ter uma certa experiência de palco e cantar de tudo um pouco me ajudou.Acho que nas três edições que participei do Ídolos (2007, 2008 e 2009) não era meu momento. Talvez não era pra ser, mas não creio que houve erros. Acredito que seja isso. O que mudou do Ídolos para o The Voice é que a estrutura e visibilidade do programa são diferentes. Não desmerecendo as outras emissoras, mas a Rede Globo tem mais audiência, o horário do programa contribui, além de que os músicos são mais evoluídos e o formato do programa é totalmente diferente.

O que já mudou depois do The Voice?

Em primeiro lugar o reconhecimento. Aonde você vai sempre tem um que te reconhece, que sabe quem é você e o qual seu trabalho. Antes eu andava pelas ruas como uma pessoa comum, hoje as pessoas já me conhecem como o Jésus do The Voice. Isso é muito bacana! Claro que todo mundo quer ganhar o programa. Quem não quer ganhar R$ 500  mil e gerenciamento de carreira? Mas, além disso, a visibilidade que o programa dá ao participante não tem preço que pague. Se você não participar de um reality, ou concorrer a alguma coisa, pagar para se apresentar em um programa de rede nacional é muito caro. Então só de você estar ali participando do programa, e de graça, é inexplicável.Em segundo lugar é o aumento de trabalhos que faço hoje. A quantidade de shows aumentou, tem o carinho dos fãs que você acaba conquistando. Minha vida mudou da água para o vinho. Não financeiramente, mas em questão de trabalho e reconhecimento.

De agora para frente quais são os planos?

Você tem que entrar num programa desses com os pés no chão. Apesar de tudo que rolou comigo, a preferência do Daniel por mim, como era visto pelo público, não quer dizer que ele vai me pegar ali. Até porque essa foi a terceira edição e muitos candidatos passaram pelo time dele. Tem que ver isso. Cada ano ele se identifica com algum artista do grupo. Se ele for me pegar pra produzir ele teria que pegar também os outros com quem ele simpatizou durante o programa nas edições anteriores. Peguei uma amizade muito grande com o produtor do Daniel  a gente troca e-mails, conversa e tudo mais, mas a gente tem que esperar acontecer. É claro que tem que ter pé no chão, continuar trabalhando, buscando oportunidades e agarrar aquelas que chegam. Pode ser que me chame (o produtor) pra conversar. Ele gostou muito do meu trabalho, deixei meus contatos para que inclusive quando o Daniel estiver em Minas eu possa dar uma palinha nos shows.Também fiz amizade com o produtor da Cláudia Leitte. Um cara gente fina que me disse que quando ela estiver em Belo Horizonte e eu tiver disposição de ir dá uma palinha pode rolar. Estou buscando meu espaço, mas não tenho aquela ambição de entrar pra mídia e ser um pop star. Procuro ser um artista respeitado mesmo que não esteja na mídia. Isso não impede que eu participe de outros realitys também daqui pra frente. Até porque a visibilidade que o The Voice me deu também me ajuda a ser mais conhecido na música.

Quanto é mais difícil para uma pessoa que sai do interior, como Itabira, alcançar o sucesso?

Quem é da cidade grande tem mais possibilidades. Itabira não suporta a quantidade de casas de shows como Belo Horizonte. Então, quanto mais casas de shows tiver mais você vai poder mostrar seu trabalho em cada ponto. Assim você não fica em um só ponto. Em um mês você consegue fazer muito mais shows com públicos diferentes. Também tem os estúdios, onde você conhece outros artistas que podem dar uma força. Interior é uma coisa mais fechada. Tem uma certa cultura, mas a quantidade de eventos não suporta. Em relação a realitys eu vejo que não há diferenças entre artistas da capital ou interior. O problema é quando há votação com envolvimento do público. Aí já complica. Não tem como comparar a quantidade de habitantes de Itabira com o Rio Grande do Sul, de onde era meu concorrente no The Voice. A abrangência de votos é bem maior. Mas não quer dizer que outras pessoas que não sejam de Itabira não votem em mim. No Rio de Janeiro recebi muitos elogios de pessoas que não conheço, de fora do meu estado. Isso me ajudou também. Tem gente de outros estados que me seguem no Instagram e isso é muito bacana. A visibilidade que o programa dá vai além de onde você mora.

Você acha que se a escolha na última etapa fosse do técnico você teria chegado ao final?

Com certeza. Porque ele mesmo me disse. Não desmerecendo o Kim Lírio, teve etapas em que ele cantou uma música melhor que a outra, mas é um cara que mereceu estar na final. Nós mesmos falávamos que tanto eu ou ele na final seria merecido por tudo que foi apresentado e pela evolução de ambos durante o programa. Eu não vou dizer que foi azar. Era uma competição, e como em qualquer outra você tem que enfrentar um oponente forte, um oponente do mesmo nível, e aí seja lá como for. 

Teve um momento que você se surpreendeu mais no programa?

A surpresa foi chegar aonde cheguei. Eu não esperava chegar até a semifinal. Não por desacreditar no meu talento, mas muita coisa passa pela nossa cabeça. "Será que o meu perfil se encaixa?". Eu demorei um tempo pra perceber que o programa realmente é a voz, o talento. Não é aquela coisa que se chegar o bonitinho, cabelo liso, vai  conseguir. Se fosse isso acho que não teria chegado nem à semifinal, porque não sou nenhum galã.

Você foi chamado de sabiá…

Na verdade, a Luiza Possi aproveitou essa deixa que tem na letra de o “Lindo Lago do Amor” e acabou me apelidando de sabiá. Que bom, né! Ela é uma ótima cantora e ser elogiado dessa forma por ela foi muito gratificante. Isso dá mais incentivo para continuar trabalhando e acreditar mais que se é capaz de chegar ao objetivo.

Com a visibilidade que alcançou, você espera ser um incentivador artístico em Itabira?

Tomara! Itabira tem muitos talentos. Não dá nem para citar, são vários. É claro que cada um tem seu objetivo. Mas pra quem quer realmente alcançar o reconhecimento a mensagem que eu deixo é que continuem lutando, trabalhando. E que quando surgir uma oportunidade agarre! Que foi o que aconteceu comigo. Quando vi a propaganda do Ídolos e The Voice na televisão fui correndo me inscrever. Mesmo que você não passe, e que não dê certo numa primeira vez, continue tentando. Uma hora acontece. Tem que acreditar no seu talento, no que faz. Acho que é isso: você acreditando no que faz,fé em Deus e se vai longe.